Ele leu 10 palavras!

Sim, Leo, com 7, quase 8 anos de idade, com Síndrome de Down. Ele leu 10 palavras na última aula com a professora Cláudia.

Eu fico repetindo isso, e vou escrever de novo, agora com as letras bastão maiúsculas, que ele já reconhece:

O LEO LEU 10 PALAVRAS.

É uma segunda-feira e eu vou busca-lo no CEMAE¹, onde ele tem aula com a professora Cláudia Bardez, uma das especialistas no ‘Método das boquinhas’², que está ajudando na sua alfabetização. Ele tem um desenho de coração na mão direita, e o número 10.

A prô, que também é minha amiga querida, me explica o que significa: “Ele leu 10 palavras na aula de hoje”. E eu olho pra ele já com o nó na garganta: “verdade, filho?”. Ele dá aquele sorrisinho torto e safadinho só dele e responde: “Sim”. Isso tudo na calçada em frente à escola, indo pro carro, equilibrando bolsas e mochilas e de olho no outro filho.

Entramos no carro e vou sorrindo até em casa. Mais tarde conto pro marido e vem o nó de novo. Penso em tudo, em toda a caminhada. Em como o Leo ama os livros e como ama contar histórias. Em como ele desenvolveu tão bem a fala.

Tudo isso… tudo isso, poderia ser corriqueiro se ele não tivesse Síndrome de Down. É claro que qualquer mãe vibra pelas primeiras palavras, pelos primeiros passos. Mas, percebo que mães de crianças com deficiência intelectual vivem uma pressão e uma ansiedade extra sobre quando e como essas primeiras vezes irão acontecer.

Eles podem, eles têm potencial. Como quaisquer outras crianças, têm qualidades e aptidões que devem ser estimuladas. Mas acredito que a cobrança de fazer tudo certo e dar todo o estímulo que eles precisam seja muito grande.

A escola

O Leo está na escola desde os 2 anos. Até os 4 ficou em uma escola particular, que foi excelente para sua socialização, para praticar o brincar e ter os primeiros contatos com materiais pedagógicos. Aos 4 precisamos trocar. Meus dois meninos foram para a escola pública (acho que um dia escrevo sobre isso).

A EMEI foi perfeita para o Leo. A didática das escolas de educação infantil da prefeitura de São Paulo deu muito certo pra ele, uma vez que eles se utilizam de práticas lúdicas e do brincar para aprender (estou resumindo grosseiramente, mas só pra mencionar que foi muito legal).

Hoje ele está no segundo ano. Ainda na prefeitura, numa escola com uma equipe muito engajada, mas com limitações que pode-se imaginar que uma escola pública tenha.  Hoje acredito que o trabalho feito em paralelo à escola é o que faz a diferença em seu aprendizado.

Desde cedo ele foi estimulado e fez fono, fisio, terapia ocupacional e hoje faz as aulas do CEMAE. É um trabalho conjunto: família+escola+profissionais de apoio. E a conquista é dele, mas também de todos nós.

O ritmo de cada um

Ressalto e acredito que, como qualquer criança, cada um tem seu tempo para se desenvolver e aprender. Em geral, crianças com Síndrome de Down vão ficando defasadas com relação às demais mesmo e sempre é preciso administrar as expectativas com relação a isso.

Mas esse dia, que o Leo leu 10 palavras, trouxe todo o caminhão de coisas que fizemos antes para que isso pudesse acontecer. Então eu celebro! Eu digo: viva! E, em seguida, continuamos colocando mais e mais bloquinhos para construir esse conhecimento.

Acho que esse post ficou um relato muito pessoal, e acho que até a gente se conhecer bem por aqui vai ser mesmo assim, ok?

Espero que vocês também possam compartilhar suas experiências aí nos comentários.

Até a próxima!

Abraços

Angélica

Nota:

  1. O CEMAE é um espaço em Santana, São Paulo, que tem atividades no contra-turno da escola para crianças desde 2 até 12 anos. Tem também vários tipos de terapias de apoio, como fono, psicomotricista, psicopedagogos, etc.
  2. Pra saber mais sobre o Método das boquinhas: http://www.metododasboquinhas.com.br/
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Angélica Perez

Jornalista, ex-atriz, mãe do Michel e do Leo e esposa do Miguel. Trabalhei em TV um bom tempo, joguei tudo pro alto e fui viver o sonho de ser atriz, mas não deu certo... fui trabalhar com conteúdo para web lá atrás, em 2001, e de lá pra cá já fiz de tudo um pouco no mundo digital, trabalhando com sustentabilidade, educação, inovação, corporativo. Gosto de falar desses assuntos, sobre ser mãe e sobre comida. Desde que o Leo nasceu, ele tem Síndrome de Down, também mergulhei nos assuntos relacionados à inclusão e desenvolvimento de crianças com deficiência.

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