Não há quantidade segura para ingestão de álcool e drogas durante o aleitamento materno

Eu discuto – MUITO – pesquisas científicas que não são realizadas por cientistas em universidades ou institutos com estrutura e independência, assim como me preocupo quando são realizados e divulgados estudos que reunem uns “gatos pingados” de uma “região super pequena” e com algum patrocínio claro.

Nesta semana, um estudo que reune tudo isso bombou na minha timeline…

Mas, Sam, se tem tudo que você critica, por que trazer pro blog?

Porque o estudo publicado na revista “Pediatrics” nesta segunda-feira (27/08/2018) detectou o THC, principal componente psicoativo na maconha, em 63% das amostras de leite materno até seis dias após o uso por mulheres.

De acordo com o estudo, financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (em inglês, NIH) e pela Gerber Foundation, o uso da maconha foi documentado em mulheres grávidas e mães que amamentam.

Esta pesquisa levou em conta esse cenário no país e buscou, segundo os autores, trazer mais dados para aprofundar as preocupação com a saúde e o desenvolvimento de bebês que são alimentados com leite materno de mães usuárias.

A questão para mim continua sendo o tamanho do universo, mas acho valioso ter estudos assim, pois muitas pessoas sofrem com problemas de saúde por conta do comportamento permissivo ou mesmo destrutivo dos familiares durante sua gestação ou infância. 

O que o estudo detectou?

Cinquenta mulheres que usaram a maconha diariamente, semanalmente ou esporadicamente – sendo a inalação o principal método de consumo – foram examinadas pelos cientistas. Foram coletadas 54 amostras de leite, sendo que em 63% delas havia o THC, principal componente psicoativo na droga, até seis dias após o uso da maconha.

Qual a vantagem de obter este resultado?

“Os pediatras são frequentemente colocados em uma situação desafiadora quando uma mãe que amamenta pergunta sobre a segurança de usar a maconha. Não temos dados publicados que sejam fortes para aconselhar contra o consumo,” disse Christina Chambers, principal autora do estudo e professora da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Os canabinóides – compostos ativos da maconha, como o THC – têm uma preferência por fazer ligações com moléculas de gordura, abundantes no leite materno. Esse é um dos fatos que levantou a preocupação com o uso durante a amamentação.

E já que estamos falando de consumo de substâncias no aleitamento, vale trazer outro tema:

Há uma quantidade segura de bebidas alcoólicas que podem ser ingeridas pela mulher que amamenta?

Muitas pessoas questionam se realmente o álcool causaria algum malefício futuro à criança e isso acontece porque este não é um tema de consenso na literatura científica.

Não há uma proibição absoluta ao uso de álcool durante a amamentação desde que realizado em pequenas quantidades esporádicas, porém o ideal é a abstinência total. 

O que se sabe:

Mulheres que bebem álcool durante a amamentação podem ter maior probabilidade de ter filhos com habilidades cognitivas reduzidas do que as mulheres que não bebem álcool durante a amamentação, de acordo com um estudo publicado na conceituada Pediatrics. Esta redução foi observada em crianças com idades entre os 6 e os 7 anos, mas não foi mantida entre os 10 e os 11 anos de idade.

Este estudo é mais abrangente:

Louisa Gibson e Melanie Porter, da Universidade Macquarie, na Austrália, analisaram dados de um estudo longitudinal de crianças australianas e suas famílias. Elas se concentraram especificamente em um grupo de 5.107 bebês e seus cuidadores, que foram recrutados em 2004 e avaliados a cada dois anos. Na avaliação inicial (fase 1), as mães foram perguntadas se amamentavam ou não, com que frequência e quanto bebiam álcool e quantos cigarros fumavam. Nas avaliações posteriores, as crianças receberam testes cognitivos e de desenvolvimento (incluindo um teste de prontidão escolar na fase 3; um teste de vocabulário nas fases 3, 4 e 5; e um teste de raciocínio nas fases 4, 5 e 6).

O estudo revelou que crianças de 6 a 7 anos cujas mães relataram consumir álcool enquanto amamentavam tiveram escores mais baixos no teste de raciocínio do que crianças cujas mães não relataram consumir álcool durante a amamentação – uma relação que os autores observaram não foi observada em crianças que não foram amamentadas quando bebês. “Isso sugere que a exposição ao álcool através do leite materno foi responsável por reduções cognitivas em bebês amamentados ao invés de fatores psicossociais ou ambientais que cercam o consumo materno de álcool”, relataram Gibson e Porter. Em contraste, crianças que foram amamentadas por mães que fumavam cigarros tiveram uma pontuação similar nos testes cognitivos para aquelas que foram amamentadas por mães que não fumavam cigarros.

stevepb / Pixabay

Quer comemorar?

Não estou indicando que você beba enquanto amamenta, mas a ginecologista e obstetra Erica Mantelli, pós-graduada em sexologia pela Universidade de São Paulo (USP), sugere uma rotina para quem o fizer.

Retire seu leite antes, guarde, tome seu drink, tire o leite e despreze o que for produzido por seu corpo entre 2 e 6 horas depois da ingestão de álcool.

O nível de álcool no sangue e no leite permanecem alterados entre duas a 12 horas após a ingestão de bebidas alcoólicas. O tempo da metabolização irá depender da quantidade ingerida e do organismo de cada mãe. O álcool contido em uma lata de cerveja, por exemplo, demora até duas horas para ser eliminado do organismo. Bebidas destiladas, vinhos e doses exageradas de cerveja levam mais tempo para sair do sangue e do leite, podendo ficar até seis horas no corpo.

Pexels / Pixabay

Segundo li num texto do Dr Joel Rennó Jr, Ph.D em Ciências, professor colaborador médico do Departamento de Psiquiatria da FMUSP e diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP), de quem li um livro excelente que sempre recomendo chamado Mentes Femininas, em um editorial de acompanhamento da pesquisa sobre álcool e aleitamento materno, Lauren M. Jansson,  diretora de pediatria do Centro de Dependência e Gravidez da Universidade Johns Hopkins, observou que a exposição pós-natal ao álcool através do leite materno pode causar déficits resultantes da exposição pré-natal ao álcool.

“Embora os resultados deste estudo tenham sido independentes do consumo de álcool no pré-natal, o uso de álcool na gravidez foi registrado pelo auto-relato materno retrospectivamente, e há muitas pressões psicossociais e outras múltiplas para as mulheres negarem o uso de substâncias gestacionais. Uma mãe que usa álcool durante a amamentação pode ter um distúrbio atual de uso de álcool e ser mais propensa a fornecer tratamento insensível ao filho ou ter problemas com a autorregulação, impulsividade, julgamento prejudicado e a capacidade de fazer escolhas seguras para si mesma e /ou seu filho. ”

Portanto, é recomendável que as mulheres grávidas e que amamentam seus bebês se proponham a álcool “zero” nesses períodos a fim de que não ofereçam riscos ao desenvolvimento cognitivo das suas crianças no futuro.

Sempre vale lembrar:

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a amamentação seja feita de forma exclusiva para o bebê até os seis meses de idade. O fim precoce da amamentação está associado a um maior risco de obesidade, asma, morte súbita, piora da saúde imunológica, entre outros fatores. Nas mães, há um maior risco de câncer de mama, de útero e do desenvolvimento do diabetes tipo 2.

 

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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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