Amamentação do Início ao Fim

Chegamos ao final da SMAM 2018, uma semana linda em que todas as nossas redes sociais foram inundadas de imagens lindas de bebês mamando e de depoimentos sobre a importância do aleitamento tanto para o vinculo quanto para a saúde do binômio mãe-bebê. Pretendo contribuir com esta conversa abordando dois temas neste texto, que abrange o início e o fim desta jornada: o apoio profissional dado pela consultoria em aleitamento materno e o desmame.

Para isso, compartilho aqui minhas duas experiências, totalmente diferentes uma da outra, com um ponto em comum, ambas foram muito, muito difíceis.

Compramos por aí a ideia de que amamentar é algo completamente natural e instintivo, mas na prática a teoria é completamente outra. Fui mãe sabendo que o bebê nasce com o reflexo de sucção, mas que precisa ser ensinado a mamar. Já sabia sobre a importância da pega correta, do risco da mamadeira e chupeta para o desmame precoce, de que o bebê primeiro perde peso para depois ganhar, que dormir é luxo e que puerpério implica em se sentir triste, insegura, que privação de sono é enlouquecedor e que rede de apoio é essencial para que tudo isso dê certo. O que eu não sabia? Que mesmo munida de muitas informações, podia ser muito mais difícil do que eu jamais poderia imaginar. Luiza nasceu e logo aprendeu a sugar a própria língua e dormia, dormia, dormia. Embora ela tenha tido a pega perfeita desde a primeira mamada, fazer ela pegar o peito era uma insanidade. Tivemos produção insuficiente, necessidade de complementar, a dor de ouvir que “seu bebê não ganhou peso” e o fantasma de não ser capaz de nutrir me rondando por muito tempo, medo, muito medo. Felizmente os anjos da amamentação me protegeram da confusão de bicos e me trouxeram um pediatra que me acolheu e respeitou meu desejo, vencemos e Luiza mamou por um ano e sete meses. Curiosamente, tudo o que salvou a amamentação dela, quase destruiu a do Guilherme.

Segundo filho, parto normal e muito mais forte e com mais e mais informações de qualidade, vai ser tranquilo. Ledo engano! Guilherme sugou forte e com vontade desde o primeiro minuto no peito. A pega nunca foi boa, não tinha quem o fizesse abrir mais a boca. Peito rachado, bico de silicone, chupeta pra ajudar a dar conta, mamadeira pros momentos de total desespero, “hora da bruxa” bem “bruxosa” me dando a sensação de que eu não tinha leite o suficiente. Diagnóstico tardio de candidíase, confusão de bicos, produção em queda e um outro problema que eu não vi descrito em nenhum lugar: a minha arrogância de mãe de segunda viagem. Usei os mesmos recursos que usei com a Luiza. Com ela deu tudo certo, com ele deu tudo errado. Quando me vi perdendo a amamentação dele, chamei uma consultora, que me ouviu sem pressa, acolheu o meu fracasso e o meu choro e me orientou por telefone porque estava fora de São Paulo e não poderia vir até mim. Como o mistério da pega seguia sem solução, ela enviou uma outra pessoa para vir me ver em casa. Além de me ajudar com a pega e a me ensinar a amamentar deitada, ela me ajudou a entender qual era o tamanho do meu cansaço e o tamanho do meu desejo, falou-me sobre o choro e me lembrou que peito é muito mais que nutrição física apenas, que nem todo choro é fome e que este filho, diferente da outra, era muito mais incisivo nas suas investidas de fome e de afeto. Ela me convenceu de que a cama compartilhada podia me salvar e que eu, uma mãe saudável, jamais mataria meu bebê porque eu acordaria caso acontecesse de deitar em cima dele (sim, eu tinha pavor disso e isso nunca aconteceu). Ela cuidou de mim e me encorajou a seguir tentando. Arrisco-me a dizer que se naquele momento eu decidisse que estava desistindo, ela acolheria o meu fracasso e o meu luto, porque a profissional que se dispõe a trabalhar com a amamentação, oferece muito mais do que técnicas de como colocar o bebê para mamar, ela oferece colo e cuidado com a mãe.  Ter este apoio fez toda diferença e o Guilherme mamou por dois anos e meio e ainda mamaria se assim quisesse. Aquelas horas de acolhimento me ajudaram a confiar na minha capacidade de nutrir meu bebê e me ajudou a vencer um fantasma da minha primeira experiência de amamentação: o peito murcho. Com ela eu senti confiança na informação de que peito é fábrica e não estoque. Através dela fui parar num grupo virtual de apoio à amamentação e lá eu aprendi mais sobre curva de crescimento (meu primeiro pediatra nunca me botou terror com essa tal curva, mesmo quando Luiza não ganhou peso). Não bastasse um filho ser diferente do outro, eu ainda tive de lidar com o fato de que, depois da coisa bem engrenada, o Guilherme ganhava metade do que a Luiza costumava ganhar de peso por mês (leite fraco? Não, diferentes biotipos, isso sim!). Luiza sempre foi um bebê grande, Guilherme sempre esteve na média e tudo bem!

Além de achar que, por já ter feito aquilo uma vez, eu saberia fazer de novo, eu tinha uma questão com dinheiro. Já tinha pago todo o pré-natal e o parto, além de ter de arcar com uma reforma surpresa no apartamento, não queria mais ter gasto nenhum e, no fim, acabou sendo o melhor investimento de todos os tempos (e custou bem menos que todas as latas de leite que teria de comprar se meu pequeno desmamasse).

Então, se você que está lendo este texto está grávida ou conhece alguém que está, entre roupinhas e fraldas, considere ter provimento para chamar uma consultora se amamentar for o seu desejo e as coisas não estiverem indo bem. Vale muito o investimento.

Mas, e o desmame? Sério que você quer falar de desmame no meio da SEMANA MUNDIAL de ALEITAMENTO  MATERNO? E por que não falar? Eu também acho curioso chegar naquele momento de desejar parar uma prática que foi tão difícil de fazer acontecer. Ao mesmo tempo, tem um quesito que eu considero essencial para que a amamentação siga para o “infinito e além”: precisa ser bacana para o bebê e para a mãe. Para cada mulher isso vai se dar de uma forma muito particular e num tempo que é próprio. E se algum momento brotar o desejo de não mais amamentar, tudo bem, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, não é mesmo?

O lance é que nas rodas de apoio à amamentação não se fala muito no assunto. Os relatos de desmame que costumamos ouvir das nossas mães e avós sempre passam por práticas bem bizarras como passar pimenta no bico do peito, sumir por uns dias e por aí vai. No entanto, é possível conduzir um processo de desmame gentil. Também compartilho minhas experiências aqui para exemplificar como.

Quando Luiza estava com um ano e quatro meses, eu parei de tomar pílula (só de progesterona), que não estava me fazendo nada bem. A minha sensibilidade no mamilo mudou e eu tive uma coisa que eu só soube o nome muito tempo depois: perturbação da amamentação. Era uma agonia gigante cada vez que ela vinha com aquela boquinha pra perto de mim. De repente aquela gostosura que era dar de mamar virou uma verdadeira tortura. Como deixar chorar nunca foi opção pra mim, respirei fundo e tracei um plano de desmame. Ela costumava tomar uma mamadeira na rotina de sono e depois vinha pro peito pra dormir e mamava a madrugada inteira. Comecei invertendo, passei a dar o peito, depois a mamadeira e o pai a ensinou a dormir no colo, com musiquinha. Nas madrugadas eu tentava ninar sem peito, se não rolasse, colocava pra mamar e renovava a minha fé pra noite seguinte. Foram 3 meses neste processo. Se ela pedia, mamava, se não pedia, eu não oferecia. Até que ela ficou uma semana inteira sem pedir. Quando pediu de novo, eu expliquei que ela já era uma mocinha, que podia mamar só daquela vez para se despedir e que não mamaria mais. Nos despedimos, ela não pediu mais.

Preciso contar que Luiza nunca mamou em livre demanda durante o dia e nas madrugadas rolava por pura exaustão desta mãe aqui, porque a orientação que eu tinha era completamente outra.

“Dar de mamar é inquestionável Faz o neném ficar em paz Eu dou tetê porque é saudável  Livre demanda é o que satisfaz Amamentar faz um bem danado E nutre até dois anos ou mais…" Dois anos! 24 meses de muito peito, rumo ao "ou mais". Amamentar foi, sem dúvida, das coisas mais difíceis que fiz na vida. Mas foi também a grande oportunidade de encontrar minha força e conexão de fêmea que nutre. Luiza nasceu antes que estivesse pronta. Dormia muito, não ganhava peso. Eu estava doente, minha produção era baixíssima. Ali eu conheci o real sentido da perseverança e da determinação. 1 ano e 7 meses de noites dedicadas de muito mamá. O Guilherme me pegou na minha arrogância de mãe experiente, que "tudo sabe". E eu de novo fui "provada" por todo tipo de problema que se pode ter: peito em carne viva, confusão de bicos, candidíase (uma inimiga muita poderosa que quase me venceu), ducto entupido, mancha vermelha indicativa de uma mastite se formando. E tudo isso me deu a oportunidade de desconstruir todo tipo de crença e achismo, inclusive esse da foto, o de que amamentar criança grande é feio (sim, eu achava isso e com Luiza evitava amamentar em público depois do primeiro aniversário). Feio é reproduzir pré-conceitos e paradigmas sem sequer questionar de onde eles vêm. Feio é olhar pra qualquer cena, materna ou não, e julgar sem conhecer que história está por trás daquela cena. Eu sigo amamentando porque isso é um valor extremamente importante pra mim e minha história e eu só posso falar de mim. Hoje Guilherme comemora seus dois aninhos e nesta semana que se inicia estaremos comemorando a "Semana Mundial de Aleitamento Materno", a #SMAM2017, então aproveito pra postar esta foto e agradecer ao meu companheiro nesta vida, o @abmasutti, que foi o meu grande apoiador nessa jornada sofrida. E à Luiza, minha filha, que me deu a chance de aprender como é essa entrega quando era ela que mamava e que soube abrir mão da minha companhia quando o irmão era apenas um RN e ela tinha que esperar, esperar, esperar enquanto ele mamava. E à Dra Vânia @sospediatra, a Celine, a Fabíola e a Lili, pessoas incríveis que acolheram o meu fracasso e não deixaram que eu desistisse! Gratidão ❤

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O Guilherme era piercing de mamilo. Com dois filhos é muito mais difícil sentar e ficar dando de mamá até a criança esvaziar os dois peitos de uma só vez. Eu ia resolvendo a vida e amamentando, tudo ao mesmo tempo. Quando ele foi pra escola, com um ano, as mamadas ficaram mais regulares e a livre demanda virou “livre oferta”. Aos poucos fui regulando as mamadas dentro dos compromissos que eu precisava dar conta e de um jeito que não atrapalhasse a rotina de todo mundo, inclusive a dele. Por exemplo, se ele acordasse até as 6h, mamava. Se acordasse às 7h, já não dava tempo mais, então ele tomava café da manhã junto com a irmã. E seguia madrugada afora, com o atenuador de que ele acordava bem menos que a irmã desde sempre. Também tive perturbação num determinado momento, ele estava perto de fazer dois anos, mas sabendo o nome daquilo, respirei fundo, “engatei de novo a primeira” e seguimos. Dois anos de amamentação e ele já mamava bem pouco, uma ou duas vezes por dia, voltando a mamar feito RN quando ficava doentinho ou estava pra romper algum dente. Com 2 anos e 2 meses, numa madrugada que voltei a ter piercing, cheguei ao meu limite e decidi que de madrugada todo mundo dorme. Já vínhamos tentando dar uma aguinha pra ele, o pai ia acudir antes de mim, ele já não dormia nem na minha cama, nem no meu quarto, salvo em dias de necessidade. Depois desse dia ele mesmo foi espaçando as mamadas, de dois em dois dias, depois três dias, uma semana, dois dias, três, 15 dias, um mês. Fui desmamada, sim, ele me desmamou. Eu perguntava pra ele se ele ainda mamava peito e ele sempre dizia que sim, mas não pedia, eu também não tentava dar. A ultima mamada efetiva ele tinha 2 anos e cinco. Depois disso ele mamou uma ultima vez com dois e seis, três sugadinhas por insistência minha, mas seguia dizendo que ainda mamava. Foi com 2 e 10 meses que eu perguntei se ele ainda mamava e ele respondeu “não mamãe, eu já queci (cresci)”. Assim encerramos de um jeito muito bacana uma história linda, que começou pavorosa e só se construiu à contento depois que outros leites e bicos foram jogados fora e que me exigiu bem mais que só vontade e persistência. Se houve muito choro de nós dois no início, escrevemos juntos o nosso final feliz.

Participei de um workshop sobre desmame gentil com a Psicóloga e Consultora de Aleitamento Materno Bianca Balassiano quando o Guilherme tinha um ano e meio. Senti orgulho de mim mesma por ter conseguido fazer um desmame gentil da Luiza numa época em que eu não tinha nem metade do conhecimento que tenho agora e zero apoio neste quesito. Minha única diretriz era a Teoria do Apego do Bowlby, que eu estudei na faculdade. Com o Guilherme eu formei uma grande rede de apoio junto com a Pediatra dele, Dra Vânia Gato, com quem fui trabalhar algum tempo depois do seu nascimento, na Lumos Cultural, um lugar maravilhoso de acolhimento e apoio à famílias no puerpério. Hoje compartilho histórias com uma equipe incrível e aprendi com a Kely de Carvalho Torres, que é Fonoaudióloga especialista em amamentação e nossa Consultora do coração que a mesma profissional que nos apoia no início, também pode andar do nosso lado durante, nos grupos de apoio presenciais ou virtuais, na amizade, no carinho, e nos ajudar a entender quando é o momento de parar. E ajudar a traçar um plano de ação para um desmame gentil. É dela uma frase que eu estou carregando para a minha vida e que agregou mais uma forma de olhar o outro dentro do meu trabalho como Psicóloga: “é na singularidade que a coisa acontece”.

Singularidade! Cada mulher e cada mãe é única e cada filho é único, por isso defendemos tanto o aleitamento materno, falamos tanto em informação de qualidade, na importância de se ter uma boa rede apoio, mas defendemos acima de tudo, que cada história seja olhada, respeitada e conduzida de maneira única!

E pra encerrar meu texto e fechar a semana, ouvi na ultima quinta, dia 2 de agosto de 2018, no Grupo de Amamentação da Lumos, a Nutricionista Karine Durães junto com a Pediatra Renata Lamano e a Kely, afirmando que qualquer quantidade de leite materno é importante para a saúde do bebê, que um, dois, três dias de aleitamento já faz muita diferença para a vida futura dele no que diz respeito à formação da flora intestinal e mais um tanto de benefícios que eu nem sei dizer. Sendo assim, seja qual for a história de amamentação, tenha durado quanto tempo for, ela é sim uma história de sucesso. E se não for possível amamentar nem um dia sequer, tudo bem também, o amor é algo que se constrói de muitas maneiras graças à Deus!

 

* As fotos são todas minhas com o Guilherme. Não encontrei nenhuma fácil com a Luiza para colocar aqui. Ela nasceu na época do finado Orkut, lá eu tinha um álbum bem bacana que se perdeu e esta mania que a gente tem de não “revelar” mais fotos sempre torna as buscas por antiguinhas uma coisa meio desumana de se fazer quando se está com o tempo corrido.

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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