Precisamos falar sobre os professores

Há um assunto que está em pauta entre os docentes no último mês: a negociação da convenção coletiva de trabalho dos professores para os anos de 2018 e 2019, que acabou por provocar uma greve na data de hoje. As últimas notícias publicadas dizem não haver acordo entre os sindicatos (patronal e dos professores), encaminhando as reclamações de ambas as partes à justiça.

A Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) é um importante instrumento que garante às classes trabalhadoras e patronais uma possibilidade de negociação quanto às suas demandas e necessidades. Essas convenções são realizadas anualmente e os objetos de negociações, como reajuste salarial, normas de trabalho e flexibilidades das regras para cada função, são debatidos.

A CCT dos professores garante aos profissionais da rede particular regulamentações como descanso semanal remunerado, bolsa de estudos para até dois filhos estudando em meio período, usufruto do recesso escolar, entre outras. E são exatamente esses primeiros direitos já adquiridos pela classe docente, que o sindicato patronal pretende negociar ou diminuir, se não todos, parte dessas prerrogativas, e que, sem margem para entendimento entre os lados, essas modificações previstas na CCT foram encaminhadas para decisão na justiça.

O papel do professor no Brasil é o centro de muitas respostas para problemas que extrapolam os muros das escolas. Hoje, grande parte dos docentes tem mais de 45 anos, estão próximos à aposentadoria e a profissão não traz grandes atrativos para a nova geração, como mostram os resultados do ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) de 2014. Os dados revelam baixo interesse na carreira docente, pois a cada 100 estudantes de Licenciatura, apenas 51 concluem o curso e apenas 27 manifestam interesse em atuar na carreira.

Não podemos deixar de pensar que a educação é um problema social sistêmico. Todos esperam (ou pelo menos deveriam) ter acesso à uma escola, com uma boa estrutura e com profissionais bem preparados para conduzir essa importante trajetória na vida de nossos filhos, já que o ambiente escolar representa o primeiro contato social da criança fora da família. Além disso, os professores apaixonados pela carreira, que nutrem esperança e investem em boa formação, merecem oferecer aos seus filhos a mesma educação que proporcionam àqueles que têm possibilidade de suprir por uma educação de qualidade.

A intenção de apresentar esses dados, não é polarizar as opiniões ou ultrajar nenhuma das partes, mas é para que os pais, professores e administradores ampliem a visão sobre o valor do professor como agente de impacto social em nível macro. Um professor bem formado e motivado é sempre um trunfo em favor da sociedade.

Nota da editora:
Quer entender melhor a realidade do professor no Brasil? Vale ver o estudo Professores da Educação Básica no Brasil: condições de vida, inserção no mercado de trabalho e remuneração, desenvolvido pelo pesquisador do Ipea Milko Matijascic com base nas diretrizes da meta 17 do Plano Nacional de Educação (PNE).

 

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Alexandra Sumadossi

Paulistana, 30 anos, mãe da Luiza #quase2. Educadora, eterna estudante e curiosa por natureza. Está sempre procurando estratégias para conciliar a maternidade e a vida profissional. Trabalhar com crianças diariamente possibilita explorar um novo ponto de vista em relação à ser mãe e também traz o desafio de ter claro que a pedagogia não é resposta para tudo no mundo materno. Ama viajar e encanta-se com a pluralidade que o mundo nos proporciona. Gosta de aproveitar tudo que São Paulo oferece e não dispensa uma passadinha em uma livraria. É apaixonada pela sétima arte, se perde em listas de cinema em streaming e é maratonista de séries. No Instragram: @sumadossi. Leia os posts: http://www.maecomfilhos.blog.br/author/sumadossi

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