Criação com apego: entenda porque bebês precisam adormecer com alguém

Aqui em casa temos um ritual que eu amo e do qual não abro mão: adormecer abraçado.

Claro que meus filhos grandes deixaram de pegar no sono com a gente, mas um deles vinha ler na minha cama antes de dormir até os dez anos e ainda vemos séries juntos quando podemos. Mas a pequena, atualmente com 5 anos, pede meu braço para pegar no sono. Desde bebê ela dorme efetivamente em seu quarto, na própria cama (seguindo o estilo Lar Montessori, ela não teve berço), mas adormece no aconchego e segurança de braços humanos.

Nestes poucos minutos (ela nunca faz soneca da tarde, então adormece rápido), oramos juntas ou só eu oro por ela, depois de lermos uma historinha e ela se entrega ao descanso merecido. E eu também.

“É uma necessidade primitiva da criança ter contato íntimo e caloroso com o corpo de outra pessoa enquanto adormece… A necessidade biológica da criança da presença constante do adulto cuidador é desconsiderada em nossa cultura ocidental, e as crianças são expostas a longas horas de solidão devido ao equívoco de que é saudável para os jovens dormirem… sozinhos ”.

-Anna Freud

O texto a seguir justifica melhor essa postura de quem pratica a criação com apego:

Onde os bebês devem dormir? Nas culturas ocidentais, como nos EUA e na Europa, a resposta é geralmente em um berço, por si só, muitas vezes em outro quarto. Mas por quê? Dois adultos em um relacionamento amoroso geralmente compartilham uma cama – como faz sentido que um ser pequeno e vulnerável tenha que dormir sozinho?

Em outras partes do mundo, isso não é nem uma questão – bebês dormem com alguém. Mesmo nas culturas ocidentais, a idéia de sono infantil solitário só se tornou esperada nos últimos cem anos ou menos.

Para entender o sono biologicamente normal para bebês humanos, precisamos primeiro olhar para nossos primos no reino animal. Alguns mamíferos dão à luz a bebês atriais após uma curta gestação – surdos, sem pêlos e sem visão – desenvolvem-se rapidamente em ninhos ou em uma bolsa. Outros são precociais, bem desenvolvidos e capazes de ficar de pé ou segurar suas mães quase imediatamente após o nascimento.

Como muitos primatas, os humanos são em sua maioria precociais, mas também têm traços atriais como não serem capazes de andar ou se agarrar, principalmente por nascerem com apenas 25% de sua capacidade cerebral. Os bebês primatas inclusive contam com o contato com seus cuidadores para regular sua freqüência cardíaca, temperatura e respiração.

Todas as mães de mamíferos terrestres dormem perto de seus bebês, embora algumas, como veados e coelhos, tenham leite com alto teor de gordura que lhes permite esconder seus filhotes por longos períodos enquanto buscam alimento. Os jovens destas espécies “alimentam e partem” não choram ou defecam na ausência da mãe para não chamar a atenção dos predadores.

No entanto, espécies de contato/porte como marsupiais e primatas (incluindo humanos) excretam espontaneamente e choram quando separadas de suas mães. Isto, juntamente com o leite com baixo teor de gordura que necessita de alimentação frequente, significa que estes bebês precisam ser mantidos perto o tempo todo, incluindo à noite. Um bebê humano que acorda e chora para protestar por estar sozinho faz isso por uma boa razão – sobrevivência!

Além da regulação física, os bebês primatas também precisam de contato para o bem-estar psicológico. Isso foi demonstrado pela primeira vez por Harry Harlow com sua famosa experiência em que bebês de macacos rhesus separados de suas mães se agarravam a um pano como uma “mãe de aluguel” em vez de um fio que dispensava comida. Pesquisas mais recentes apontam para um pico de cortisol em bebês que são deixados chorando sem serem consolados, o que poderia afetar o desenvolvimento do cérebro da criança.

Ao estudar os primatas e as poucas culturas remanescentes de caçadores-coletores, os antropólogos concluíram que é biologicamente normal que um bebê humano durma ao lado de outra pessoa, geralmente a mãe.

Por Mary Francell, IBCLC

Tradução de Gabrielle Costa de Gimenez @gabicbs

Referências:

Liedloff, J. (1986) The Continuum Concept: In Search of Happiness Lost.

McKenna, J. (2007) Sleeping with Your Baby: A Parent’s Guide to Cosleeping.

Pitman, T., Smith, L., West, D., Wiessinger, D. (2014) Sweet Sleep: Nighttime and Naptime Strategies for the Breastfeeding Family. La Leche League International.

Small, M. F. (1999). Our babies, ourselves: How biology and culture shape the way we parent.

Ball, H., McKenna, J., Gettler, L. (2007) Yearbook of Physical Anthropology. “Mother–Infant Cosleeping, Breastfeeding and Sudden Infant Death Syndrome: What Biological Anthropology Has Discovered About Normal Infant Sleep and Pediatric Sleep Medicine.

Freud, A. (1965). Normality and Pathology in Childhood.

Fuentes, A., Gray, P., Narvaez, D., McKenna, J., Valentino, K. eds. (2014) Ancestral Landscapes in Human Evolution: Culture, Childrearing and Social Wellbeing.

Gettler, L, McKenna, J. (2007) Textbook of Human Lactation. “Mother-Infant Cosleeping with Breastfeeding in the Western Industrialized Context: A Bio-Cultural Perspective.”

Kendall-Tackett, K., Middlemiss, W. (2014) The Science of Mother-Infant Sleep: Current Findings on Bedsharing, Breastfeeding, Sleep Training, and Normal Infant Sleep.

McKenna, J., Smith, E., Trevathan, W. eds. (2008) Evolutionary Medicine and Health: New Perspectives.

Tomori, C. (2017) Nighttime Breastfeeding: An American Cultural Dilemma.

(Fotos: Pixabay)

The following two tabs change content below.

Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

Latest posts by Sam Shiraishi (see all)

Comments

comments

One Reply to “Criação com apego: entenda porque bebês precisam adormecer com alguém”

  1. Sam,
    aqui são 8 anos e meio deitando com as duas! Confesso que tem dias que gostaria que elas dormissem sozinhas, mas depois, acabo curtindo cada pedacinho do processo. Nessa hora trocamos declarações de amor, às vezes falamos algo que precisa ser dito, lemos, cantamos, oramos! É muito gostoso! E, não poucas vezes, acabo adormecendo junto com as duas! rs

    Adorei o post!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *