A mãe que eu sou hoje, por Nivia Gonçalves

Este texto nasceu de uma não resposta pra essa proposta. Passei dias pensando que mãe sou hoje sem saber o que dizer a respeito.

Isto porque, depois de anos de abdicação e cuidado, de mergulho e entrega, de invisibilidade e busca, eu voltei a me dedicar a mim (daí que eu pensei na mulher, na profissional, na amiga, na namorada, na amante).

Quando me descobri grávida da Luiza, há quase 10 anos, quis parar a vida só para viver o encantamento de espera-la. E quando ela nasceu, o vale sombrio do puerpério foi me empurrando pro mais profundo mergulho dentro de mim mesma. Passei  anos sem saber direito onde é que eu havia ido parar que não estava mais dentro daquele corpo, debaixo daquela pele. O melhor de mim era cuidar dela e por um bom tempo eu me acreditei ser uma ótima mãe. Até que senti saudades de mim.

Luiza com 3 anos no Café do Museu Rodim em Paris

Quando decidi ter outro filho, estava plena, segura e ávida pra mergulhar novamente no puerpério. Eu me imaginava passando dias e dias confinada dando de mamar, lambendo a nova cria. Estava aberta até mesmo para a melancolia. Havia me preparado para ficar mais tempo em casa, mas quando o Guilherme nasceu, fui pega no susto de sentir saudades de mim bem antes do que imaginei. Coisas simples como pegar a bolsa e sair tranquila pra padaria.

Guilherme com 4 meses, foto da Ju Vasconcelos

Meu retorno ao mundo real foi se dando bem aos poucos. Fiquei mais tempo em casa de “licença maternidade”. A adaptação do Guilherme na escola foi mais lenta e eu também não tive pressa. Fui voltando ao trabalho devagar e, conforme aumentava a demanda de fora de casa, mais pesada ficava a rotina de dentro. Passei o ano de 2017 quase inteiro tentando fazer ajustes. Perdi as contas de quantas sextas-feiras eu terminei o dia me sentindo exausta nível “quero deitar em posição fetal e chorar até a minha mãe vir me acudir”. Apesar desse peso todo, encerrei o ano feliz, porque o “plantio” foi sofrido, mas eu já conseguia olhar para trás e enxergar toda a semeadura e os primeiros frutos já em ponto de colheita. Só faltava uma coisa pra eu me sentir plena de novo: cuidar de mim. Foi minha promessa de ano novo e eu a venho cumprindo religiosamente.

A mãe que eu sou hoje é a mãe que se reconhece como indivíduo e reconhece os próprios direitos. Ela se respeita e procurar amar a si própria desde que descobriu que desta forma ela ama melhor e cuida melhor dos seus filhos. A mãe que eu sou hoje negocia consigo mesma que ajustes precisa fazer para que não tenha que se dar por completo para a rotina doméstica. A mãe que eu sou hoje ama cada segundo que passa fora de casa, trabalhando. A mãe que eu sou hoje sabe que não precisa ser a melhor, nem a mais perfeita, nem fazer tudo, tudo, tudinho pelos filhos. Ela também sabe que estão todos mais felizes porque ela passa uma noite por semana trabalhando até tarde, feliz da vida, amando o que faz e todos ficam felizes por ela, com ela. A mãe que eu sou hoje é a melhor mãe possível para os meus filhos. Imperfeita. Em construção.

A menina e o bolinho

Já fui aquela mãe que se doa completamente e é feliz assim. Também já fui aquela que nutre o desejo de deixar os filhos “na roda” e sumir no mundo. E tantas outras mães, enfim. Vez ou outra reúno todas em conferência porque equilíbrio é movimento (aprendi isso com a Samanta, minha professora de pilates).

 

O menino e seu picolé de uva

Eu brinco que sou dona de, no máximo, uns 30% da minha vida, os outros 70 giram em torno da família. Acabo de me dar conta de que é coisa pra caramba! E estando bem comigo, olhando pra mim, cuidando de mim, sou melhor pros meus filhos, pro meu marido, pra minha casa e para o mundo.

Feliz todo dia das mães para nós!

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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