A dor da perda não precisa ser um tabu

Mais triste que perder alguém que a gente ama? Só se a gente perdesse a memória. (Adriana Falcão)

Como já contei aqui quando me apresentei, fiquei viúva precocemente aos 33 anos de idade, quando estava grávida de poucas semanas. Desde então, encarei toda gestação e um parto prematuro extremo, sozinha, contando com o apoio da minha família e de amigos.

Quando Miguel nasceu, passei tanto tempo com ele no hospital, que não tive tempo para pensar como iria apresentar a ele um mundo novo, com uma composição de família diferente de muitas, sem o pai. E foi só quando ele tinha 3 meses de vida, e recebeu alta, que pude parar e pensar neste assunto da perda.

Pesquisei, li um pouco a respeito, conversei com amigos, familiares, profissionais da área de psicologia e também pedi muita orientação à Deus, a quem sempre pude manter uma relação pessoal, do tipo, papo de pai pra filha.

E assim decidi que encararia com naturalidade o assunto e apresentaria ao Miguel o pai que ele não conheceu, mas que o amou desde o primeiro instante e que sempre soube que era um menino, mesmo quando ele era apenas um feijãozinho na minha barriga. No início usei fotos, depois, com o passar dos anos, passei a contar as histórias, a mostrar o quanto ele são parecidos, e principalmente, o quanto a memória dele sempre estará presente em nossas vidas.

Muitas pessoas se chocam com isso e com a naturalidade que Miguel fala que o pai morreu. Acham triste demais, pesado para uma criança da idade dele. Sei que o assunto é triste, falar de perdas é sempre muito doloroso. Mas, por outro lado, quero que Miguel tenha carinho e orgulho da memória do pai que ele se quer conheceu, e não quero que este assunto seja um tabu na vida dele, algo que nunca poderá ser tocado para não causar feridas. Infelizmente a vida é assim, e não temos como blindar nossos filhos de tudo. Por isso, decidi falar abertamente, com carinho e muita doçura.

Hoje, Miguel fala sobre o pai com qualquer pessoa que lhe perguntar, e fala com tanta propriedade, que muitas pessoas não acreditam que ele não o conheceu, confesse que até eu as vezes acho isso. É muito lindo ver como ele fala com tanto carinho e se orgulha contando o quanto é parecido com o pai, em praticamente tudo.

Também iniciei um projeto de blog chamado Lembranças para Miguel, para deixar registrado alguns momentos da nossa trajetória, para que Miguel possa ler no futuro e ter certeza do pai incrível que Mauro seria para ele. Mas, como o tempo anda escasso e preciso de muito fôlego para escrever, afinal, ainda dói muito escrever sobre quem a gente ama, mesmo depois de quase sete anos de perda. Mas, uma hora darei continuidade….

Sei que minha história não serve como regra pra ninguém, afinal, cada um de nós somos únicos e temos formas diferentes de encarar a vida e lidar com seus problemas e perdas. Mas, se você passou ou passa por algo assim, procure olhar para o futuro e projete o que você deseja para os seus filhos diante da realidade que tem hoje, que memória você quer que eles tenham? Isso vai te dar um norte para decidir o que fazer hoje, com a história que a vida lhe deu.

A perda não precisa ser exatamente a morte de alguém, há também as dificuldades para encarar a perda de um bichinho de estimação que a criança tanto gosta, ou até mesmo a mudança de alguém muito querido que foi morar longe, num outro país. Existem diversos tipos de perdas, e encará-las com doçura e maturidade faz toda diferença.

E se precisar conversar, desabafar, falar sobre isso com alguém totalmente fora da sua rotina, conte comigo.

Um abraço!

😉

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Alcione Matsumoto

Paulistana, publicitária, produtora de eventos e mãe do Miguel. Viúva desde a gestação, tornou-se pai e mãe com todos os seus medos e coragens, e hoje encara tudo isso com muito orgulho e bom humor. Aos 39 anos, já foi blogueira, podcaster, mediadora e até palestrante, mas acredita que pode aprender sempre mais e por isso não se cansa de se redescobrir diariamente. Entusiasta por natureza, e com uma autoestima elevadíssima, carrega consigo o sonho de poder ajudar outras mulheres a se descobrirem como verdadeiras vencedoras.

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One Reply to “A dor da perda não precisa ser um tabu”

  1. Alcione, que texto lindo!

    Eu falo muito do meu pai para os netos. Lucas adora as histórias e passou uma fase que chorava quando alguém falava do avô. Acredito que muito por ter vivido a perda do bisavô. Sempre digo para ele, que deve ser grato pelo avô que teve e conto as diversas brincadeiras que só sei fazer com ele, pois meu pai fazia comigo. Falo que o avô e bisavô estão vivos em nós, nas nossas lembranças, nas semelhanças herdadas, nos ensinamentos que deixaram para nós.

    Um grande e longo abraço!

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