Livro de reclamações: uma ideia genial para controlar as brigas entre irmãos

Curiosamente, eu comecei a ouvir, me identificar e seguir Mario Sergio Cortella por conta dos meus filhos. Ele falava na rádio no horário de levar-los para escola e os meninos gostavam. Eles tinham um livro ótimo do autor e uma coisa puxou a outra. Não era da parceria dele com Mauricio de Sousa, mas poderia ter sido, pois creio que trazer o pensamento filosófico para o mundo infantil é um presente valioso.

Cortella, filósofo e educador, diretor de pós-graduação em educação da PUC-SP e integrante do Comitê de Direitos Humanos da PUC/SP, é também pai e avô e não foge destes títulos familiares, como mostra no excerto do livro dele “Viver em paz para morrer em paz”, que publico a seguir e traz uma solução genial para lidar com as briguinhas cotidianas de filhos crescidinhos, pré-adolescentes, que tentam chamar a atenção dos pais quando passam os dias em casa, com uma ajudante, sem a presença que talvez quisessem ou precisassem.

Eu fui esta criança e como nós 4, eu e meus irmãos, brigávamos! E depois, por um curto período, meus filhos passavam as manhãs com uma empregada que tinha pouca “liderança sobre eles” e como dava confusão! Queria ter sabido desta  sugestão do livro de reclamações naquela época!

🙂

“Uma guerra nunca é um conflito; é sempre um confronto. Três crianças juntas têm muitos conflitos, e isso é normal. O que não pode é que esses conflitos degenerem em confrontos.

Mas, então, nós trabalhávamos muito e, assim, não podíamos estar presentes durante o dia para acompanhar o que ocorria em casa. Se, logo depois do almoço, por exemplo, um deles xingava o outro ou rabiscava um caderno de propósito, aquele que tinha sido a vítima ficava numa situação difícil. O tempo transcorrido entre a hora do conflito e a hora do “julgamento”, quando os pais voltassem para casa, era tão grande que gerava uma pressão quase incontrolável. Numa época em que não havia celular, telefonar era complicado. A ajudante não tinha autoridade para resolver. O outro irmão não podia fazer nada.

Numa situação dessas, é preciso que o líder ou os responsáveis inventem mecanismos de dificultação do confronto. No nosso caso, criamos um “livro de reclamações”. Ele foi inspirado em algo que aprendi com os bombeiros: todo animal acuado, seja cachorro louco, onça ou humano, precisa de uma rota de fuga. Se um animal se sente ameaçado e não tem para onde correr, ele só vê uma alternativa: atacar quem o está acuando. O corpo de bombeiros, aliás, me ensinou outra coisa importante, que também tem a ver com conflitos e confrontos: nenhum incêndio começa grande. Começa com uma faísca, uma fagulha.

A questão então é evitar que o que começou pequeno saia do controle, torne-se grande, e provoque um estrago considerável.

Nosso livro de reclamações ficava em um lugar de fácil acesso a todos. Era uma espécie de versão em papel de um “tribunal de pequenas causas”. Sua principal função era acompanhar a rotina e ajudar a apagar incêndios.

Antes de sair de casa, dávamos a instrução: “Registrem no livro qualquer problema que vocês tiverem”. Então, se o André, o mais velho, puxava a calça do Pedro, o mais novo, em vez de partir para a briga, o Pedro ia até o livro e registrava sua reclamação. Como era um livro democrático, o André tinha direito à réplica. Então escrevia embaixo: “Eu não fiz isso, não foi assim que aconteceu, foi de outro jeito”.

O Pedro lia as palavras do irmão e colocava ali a sua tréplica: “Ele fez sim, quis me humilhar, foi assim mesmo que ele fez e coisa e tal”.

Além da função prática, escrever tinha um importante componente psicológico, um oportuno fator de descompressão. Quando chegávamos em casa, uma das primeiras coisas que fazíamos era examinar as ocorrências do dia. Se necessário, agíamos como juízes, fazíamos acareações, contemporizávamos, aplicávamos sanções, relaxávamos a pena, passávamos reprimendas, orientávamos: “Olha, é errado você se divertir com a humilhação do outro. Isso é como caçar por esporte, é a tolice encarnada”. Mas, muitas vezes, não era necessário fazer nada. Eles já tinham desistido da contenda porque o registro do fato ajudara a assimilá-lo e a lidar com ele.”

Trecho de “Viver em paz para morrer em paz”, de Mario Sergio Cortella.

 

The following two tabs change content below.

Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

Latest posts by Sam Shiraishi (see all)

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *