É possível mostrar aos filhos os limites e regras com que se vive as relações humanas sem recorrer à punição física?

Como sabem, no Facebook há um grupo muito bom vinculado ao blog e discussões muito interessantes e construtivas surgem lá. Neste feriado, surgiu uma polêmica sobre bater em crianças e me surpreendeu tanto que trarei pra cá.

Eu compartilhei lá um update que perguntava:

É possível mostrar aos filhos os limites e regras com que se vive as relações humanas sem, no entanto, recorrer à punição física?

E assim, sem pensarem muito (provavelmente muitos sem terem lido todo o artigo que indiquei), alguns pais e mães acabaram corroborando um dos trechos, que dizia:

“Estudos indicam que em adultos punidos fisicamente durante a infância, a probabilidade de valorizarem positivamente um comportamento violento aumenta, seja contra o filho ou contra o atual parceiro.”

A minha linha de pensamento era:

Como pode isso ainda precisar ser discutido? Que tristeza saber que no Brasil do século XXI ainda é comum famílias acreditarem que bater educa!

Mas descobri que sim, precisa ser discutido!

E como disse uma amiga lá, mesmo que para você que apanhou na infância isso tenha tido, de alguma forma, um resultado positivo a violência sofrida, é importante lembrar que na maioria das vezes não é assim.

A violência gera mais violência, pessoas inseguras, com baixa autoestima e que tendem a reproduzir o que viveu.

“Imagine se seu marido/esposa, seu chefe, seu amigo lhe bater (não estou falando espancar) toda vez que você fizer algo errado ou algo que não lhe agradar. Por que essa situação te parece absurda e bater em uma criança não?

Bater em uma mulher é crime, em um adulto, uma agressão e em uma criança é educação?

Há uma linha muito tênue entre bater e espancar, principalmente quando se está bravo ou com raiva, perder o controle da situação fica muito fácil. Existem outras maneiras muito mais eficazes de se educar uma criança, o problema é que é muito mais trabalhoso, demanda tempo e atenção dos pais e em um mundo louco como vivemos hoje, busca-se o imediatismo, sem pensar nas consequências futuras.”

E enfim, a gente precisa falar sobre isso sob o risco de nos calarmos porque achamos que todo mundo já entendeu e porque quem sofreu com a violência doméstica na infância e na adolescência precisa se olhar no espelho, juntar os caquinhos e ressignificar tudo isso, criando uma nova imagem de si.

Por que ainda tem gente que bate nas crianças dizendo que isso educa?

Nas palavras da Doutora Maria Amélia Azevedo, coordenadora do Laboratório de Estudos da Criança (LACRI):

“Bater num adulto é agressão, num animal é crueldade, como você pode dizer que bater numa criança é educação?”.

O castigo físico persiste, em parte, por ter resultados aparentemente imediatos (cessa o comportamento da criança) e por ser fácil de aplicar. No entanto, punições corporais não oferecem à criança oportunidade de refletir sobre as suas ações, nem ensinam à criança a distinção entre o certo e o errado, levando-­a a agir (ou não agir) apenas por medo da punição. A investigação demonstra que apesar de conduzir a uma obediência imediata, existe um decréscimo na obediência a longo prazo (Gershoff, 2002). Só a convivência e o tempo investido pelos pais no diálogo possibilita uma base afetiva em que os filhos reconhecem nos pais alguém que se preocupa, que ouve e, mais importante, um modelo a seguir. Isto é importante pois ao longo do desenvolvimento do seu filho, ele precisa de aprender a decidir e a regular o seu próprio comportamento.

Quais são as possíveis alternativas à punição corporal?

Aqui ficam algumas sugestões do LACRI para pais, mães, ou responsáveis pela educação e desenvolvimento de uma criança:

– Utilize o diálogo sempre que possível.
Falar com uma criança sobre que comportamentos são aceitáveis e quais não são tem, de longe, muitos mais benefícios do que a punição corporal. Garanta que lhe explica o porquê de um comportamento ser desadequado ou perigoso. Ao fazê-­lo está também a transmitir-­lhe uma mensagem importante: o diálogo é uma ferramenta crucial para resolução de problemas, ao contrário da violência, que cria distância entre as pessoas.

– Crie oportunidades educativas.
A existência de diálogo não invalida que se sigam outros métodos de disciplina eficazes. Se tiver de disciplinar, procure castigos não físicos e crie, se possível, oportunidades educativas (ex. dar ao seu filho tarefas domésticas extra ou colocá-­lo a arranjar algo que tenha quebrado). Talvez uma das técnicas mais utilizadas e familiar aos pais seja o retiro de benefícios (ex. não jogar durante uma semana). Não há nada de errado com esta forma de disciplina, sendo que os resultados podem ser melhores se a aplicação for ponderada e firme – se proibiu o seu filho de utilizar o computador durante uma semana, já terá pensado sobre quão adequada é a duração do castigo, sendo recomendado que o mesmo seja cumprido nos moldes por si definidos.

– Utilize consequências como uma forma eficaz de disciplina.
Tal como os adultos, as crianças aprendem com base no que experienciam. As consequências das suas decisões, quando vividas, possibilitam oportunidades de aprendizagem únicas para o desenvolvimento de responsabilidade. Tal exige que os pais permitam aos filhos experimentar as consequências naturais destas decisões (ex. Se não comes o que tens no prato, eventualmente ficarás com fome; se estragaste os teus brinquedos/computador, não poderás divertir­te com eles). Em várias ocasiões os pais protegem os filhos, no entanto algumas formas de proteção podem privá-­los de oportunidades para serem responsáveis e aprenderem que as suas ações têm consequências. Ao deixá-lo experienciar as consequências das suas ações está a dizer-­lhe que é capaz de tomar as suas próprias decisões. Não deve utilizar este método de disciplina se colocar em risco a saúde ou segurança da criança. Cabe­-lhe a si decidir que consequências naturais dos atos do seu filho serão uma boa oportunidade de aprendizagem. A chave é manter­-se calmo e não se envolver demasiado, deixe que o seu filho experiencie as consequências que decorrem naturalmente dos seus comportamentos. Por fim, seja paciente pois nem sempre os resultados são imediatos, mas quando surgem são duradouros!

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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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