Sobre cabelos crespos e livros infantis

Fiquei decepcionada com um escritor de literatura infantil que eu sigo e que, na defesa de classe, misturou alhos com bugalhos para falar de um movimento justo que tirou de circulação um livro infantil acusado de racismo.

Por outro lado, a mesma circunstância me fez ver que algumas pessoas são capazes de se rever, pois a escritora e ilustradora parece ter aceitado aprender algo com a reação acerca da obra. A vida é assim: um aprendizado constante.

Lembram-se da confusão sobre “a negra de casa” da obra de Monteiro Lobato? Não era o caso de proibir este livro, mas sim de trazer luz aos conceitos equivocados de uma época que ele evocava. E neste caso, como a obra é de 2009, é o caso de discutir que um livro infantil comprado e distribuído largamente com dinheiro público incuta valores tão equivocados.

Eu, honestamente, fiquei entristecida, tanto quanto fico quando vejo as crianças negras retratadas nas obras de Debret.

É arte?

Claro.

Eu indicaria para uma criança ver?

Acho que não.

Quando levei minha filha caçula na mostra “Infâncias” no MASP eu “pulei” esta parte.

Como já disse outro dia, nem tudo deve ser para criança ver.

Pinacoteca, arte moderna e contemporânea para crianças

Ednilce Duran, amiga que como eu tem uma família com diversidade étnica, ponderou:

Excluindo a reação pessoal e o que uma obra possa provocar na gente, nós temos que levar em conta que somos vítimas de um racismo estrutural, então não é o livro que é racista, mas a obra reproduz a cultura racista na qual todos vivemos. Espera-se que uma literatura, voltada para o público infantil, deva quebrar essa cultura e não perpetua-la. E na história em questão, tão grave quanto o livro, foi a reação da professora e da escola, o ganho que o livro poderia trazer, provocar e permitir a discussão sobre esses esteriótipos de beleza e validar a experiência da aluna, não aconteceu. Nesse sentido dá pra entender o sofrimento e a atitude dessa mãe e aponta para o cuidado que uma instituição tem que ter ao adotar um livro.

Querem entender a confusão?

Vejam a resenha do livro Peppa (de Silvana Rando) feita por Ana Paula Xongani:

Pelo que entendi, o livro faz exatamente o oposto de “Flávia e o bolo de chocolate“, uma obra querida da Miriam Leitão que indiquei aqui e lemos sempre em casa.

Flávia e o bolo de chocolate, livro, receita e o Dia da ConsciênciaNegra na escolinha

Em meio aos questionamentos da pequena Flávia sobre a sua pele marrom – tão diferente da pele branquinha da mãe -, a jornalista Míriam Leitão aborda temas delicados como adoção e questões raciais de forma sensível e lúdica para os pequenos. Com ilustrações de Bruna Assis Brasil, a autora, ganhadora do Prêmio FNLIJ 2014 na categoria Escritor Revelação por seu livro infantil de estreia, A perigosa vida dos passarinhos pequenos, mostra que o mundo é feito de diferentes cores, pessoas e sabores. E que é justamente isso que o torna tão rico.

E sobre ter cabelos lisos e cuidar dos cabelos crespos da filha, assunto do qual entendo, uma dica da Chris Santos, do Cosmethica:

A atriz Samara Felippo, é mãe de Alícia e Lara, duas garotinhas com cabelos cacheados, ano passado ela fez um post no instagram falando que sua filha mais velha aos 7 anos estava tendo problemas em aceitar seu cabelo cacheado, fazendo com que Samara percebesse a própria necessidade de entender como cuidar, arrumar e fazer com que as filhas amassem seus cabelos do jeito que são, uma vez que ela tem cabelos lisos.

E com isso elas criaram um canal no Youtube chamado “Muito Além de Cachos” onde ela mostra como ela deixar os cachos das meninas modelados, falarão também sobre representatividade, empoderamento, dicas, rotina, desespero, falta de jeito, maternidade, entrevistas, acolhimento, respeito, amor e humor.

No vídeo selecionado ela mostra como finalizar os cabelos das suas filhas, é muito amorzinho esse vídeo, recomendado para mães e pais que estão começando no mundo dos cabelos cacheados e crespos!

[update] Com dica da Chris Santos deste vídeo:

 

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É assim que se faz!

Recomendo também o trabalho de Vanessa Andrade, psicóloga que iniciou um trabalho intenso de transformação social no Cantagalo, comunidade no Rio de Janeiro.

afrobetizar_criancas_vanessa

O Afrobetizar surgiu da necessidade de trabalhar uma pedagogia diferente, que fizesse com que as crianças descobrissem o próprio corpo através de reconhecer a beleza de ser negro e que a ideia que coloca professores negros que cursaram ou estão na universidade, realizando projetos de sucesso na vida, tem como intuito trabalhar o protagonismo negro e inverter o processo histórico que sempre colocou o negro como ser inferior em relação ao branco.

🙂

Afrobetizar a escola, que ideia linda!

P.S. Sobre o livro da Peppa com cabelo crespo, o outro lado da discussão é este:

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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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