Quando o mundo fica pequeno, eu sou o mundo* inteiro!

Foto tirada do Pixabay

No nosso primeiro ano em São Paulo, um dia meu namorado (hoje meu marido) me convidou pra ir passear num tal Shopping aí. Ele procurou o endereço, olhou no guia, aquele antigo, de papel que a gente deixava dentro do carro, como chegava lá e fomos nós. Eu me lembro que achei longe, tive medo da gente se perder e não saber voltar. Estacionamos o carro no Carrefour, que era de graça, e eu passei a ter medo de que fôssemos pegos na nossa transgressão de estacionar num lugar pra ir em outro, o que fez com que eu não conseguisse curtir muito o passeio, que também não durou muito tempo. Chegamos em casa e havíamos conseguido vencer o desafio de ir praquele lado da cidade que a gente não conhecia. O nome do Shopping? Plaza Sul. Dois anos depois eu fui morar ali do lado e o que era longe ficou perto.

Estou fazendo um Curso de Psicologia da Assistência Perinatal e o Xande**, meu professor, logo no início da primeira aula, trouxe o conceito de zona de desenvolvimento proximal do Vigotsky***, uma teoria que eu estudei vigorosamente no primeiro ano da faculdade e que eu adoro, mas que não revisitava há muito tempo. Ela diz mais ou menos assim (trocando em muitos miúdos): entre você e seu objetivo há uma distância. Se você apenas olhar adiante, para a sua meta, ela pode parecer inatingível. Mas existe uma coisa chamada zona de desenvolvimento proximal, ou ZDP, que é o caminho que leva até lá e que pode ser trilhado em etapas, como se fosse uma escada em que cada patamar traz um pedaço do aprendizado ou uma experiência nova e necessária para se chegar lá, na meta. Um exemplo: eu queria ter uma casa, mas não tinha a menor perspectiva de conseguir guardar dinheiro pra comprar uma. Comecei fazendo um cofrinho dentro de um vidro de tomates secos, transparente, para que pudéssemos ver o dinheiro crescer, dica que vi num desses programas de entrevistas que passam na TV aberta durante o dia. Meta inicialmente inatingível, muitos degraus a serem alcançados, este foi o primeiro, o mais próximo, o possível, que nos levaria a outros. Depois de dois anos aquelas moedas ajudaram a compor o dinheiro pra entrada do apartamento comprado na planta.

Minha humilde anotação em aula 🙂

E eu tenho feito assim com tudo em minha vida. Eu tinha 18-19 anos quando estudei esta teoria e hoje, com 41, acho que consegui enfim aprender como é que se sobe apenas um degrau por vez.

Na semana passada me aconteceu um fato que fez abrir um daqueles compartimentos que a gente tem guardado dentro da gente, arquivado, esquecido mesmo, sabe? E como uma caixa surpresa, daquelas que você abre e pula um palhaço de dentro, foram pulando fantasmas em forma de memórias doídas, ruins mesmo de reviver, que eu já considerava superadas, mas que voltaram na sua força total de me causar dor. E eu tive muita vontade de me deitar em posição fetal e poder viver a plenitude da minha dor, tão antiga e tão presente, mas que a urgência da vida não deu conta de me dar espaço. Então lá vou eu caminhar lentamente pela zona de desenvolvimento proximal da elaboração daquele fato antigo que se mostrou tão vivo ainda. Um dia por vez eu senti dor, estranhamento, tristeza, raiva. Especialmente a raiva de ter novamente que lidar com aquilo. Especialmente pela forma como tudo isso foi “destampado” de dentro de mim. Mas como tudo isso são pedaços da massa que me forma, vivamos!

Hoje eu acordei pensando que dentro da ZDP, eu só pude trilhar um pedaço daquele caminho naquele momento histórico e talvez só agora eu esteja mesmo pronta pra chegar ao topo da escada (confesso: ainda não sei). Como quando eu saí lá do interior de Minas disposta a conquistar o mundo, mas ele era por demais grande, desafiador e, ao mesmo tempo, assustador.

Ontem à tarde, passando na frente do Hospital São Paulo, eu me lembrei de todas as vezes que algo parecia imenso e depois ficou pequeno pra mim, desde a primeira pedalada torta sem rodinha na bicicletinha do vizinho (eu nunca tive uma), até a minha primeira vez dentro de um avião indo pra Europa, sem falar nada de inglês, apenas com um guia de conversação que nunca me ajudava quando eu precisava, passando pelo medo que eu senti de ir sozinha pra faculdade à noite e pelas inúmeras vezes que me perdi em São Paulo quando aprendi a dirigir. E também me foi forte pensar na dor que eu estava sentindo e em todas as dores que eu pude viver e que me trouxeram até aqui. E nesta hora eu compreendi que o mundo, aquele mundo que eu desejava conquistar, ficou pequeno. E eu senti que, sendo assim, eu sou o mundo inteiro.

Então, se você, que está lendo isso agora, tem desejado coisas pra você que pareçam inatingíveis. Se você tem lidado com dores que pareçam insuperáveis. Se você sente que o “mundo” é muito maior do que o que você pode suportar, explorar, conquistar, experimente desviar seu olhar do topo da escada e olhe apenas para o próximo degrau. Você vai ver é muito mais fácil caminhar um pedacinho por vez e que em cada trecho existe sim a possibilidade de se ter uma experiência transformadora que te levará lá adiante. E de repente, você poder ser também, o seu mundo inteiro!

Foto tirada do Pixabay

*A palavra Mundo aqui é usada como uma metáfora. Embora eu descreva fatos de alcance geográfico, me refiro ao mundo interno e ao desbravar a si mesmo.

**O curso que estou fazendo é esse aqui: https://institutorodaviva.psc.br/formacao2017/, com o Alexandre Coimbra do Amaral.

***Este conceito, se a minha memória não me traiu, está na obra “A Formação Social da Mente, de L.S. Vigotsky. Dando um google rápido, encontrei vários links para PDF do Livro, como este aqui: http://www.finom.edu.br/cursos/arquivos/2017822204529.pdf

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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