Você acredita em “brinquedo de menina” ou “brinquedo de meninos”?

Eu tenho uma filha de 4 anos e 5 meses que se identifica com “coisas de menina”, mas não se restringe a elas, tampouco é condicionada e oprimida neste sentido por seu entorno.

Ela tem brinquedos dos irmãos, portanto “de meninos” que tiveram brinquedos “de meninas” e brincam juntos porque são crianças saudáveis.

A escola antiga dela, com turma (ocasionalmente) constituída só de meninas, reforçou a ideia de que a preferência pelo rosa e a admiração por bailarinas é parte do pensamento feminino, mas tenho fé que a mudança de escola e a diversidade de companhias (no parquinho, na igreja, na vida) ampliarão esse repertório.

E, sobretudo, eu jamais oprimiria meus filhos, homens ou mulheres, com meus temores sobre suas escolhas porque, afinal, a vida é deles.

Esse assunto surgiu porque um update da atriz Taís Araújo, que incorporo abaixo:

Gerou uma pauta no jornal Gazeta do Povo:

Em um texto no Facebook que atraiu muita atenção e milhares de comentários, a atriz Taís Araújo lamentou que sua filha, de menos de três anos, esteja demonstrando forte preferência por bonecas, “ame” a cor rosa e se sinta atraída por panelinhas.“Parece piada que minha filha aja de maneira tão contrária a tudo que eu acredito; mais ainda, de maneira contrária a tudo que eu prego no meu dia a dia, a tudo que eu acredito que seja uma construção social das mais cruéis que segregam meninas e traçam pra elas um único e fatídico destino”, escreveu ela.

À narrativa da “construção social das mais cruéis” traçada pela atriz, críticos logo apontaram uma alternativa óbvia: a de que a menina gosta de coisas consideradas “de menina” porque, afinal de contas, é menina. Nesse caso, as preferências da criança seriam apenas um sinal da natureza humana trabalhando.

A literatura científica e a história, no entanto, apontam para uma verdade que é um pouco mais complicada do que a simples dicotomia entre “construção social” e “natureza humana”. A ideia de que a cor azul é “masculina” e o rosa, “feminino”, por exemplo, é uma clara construção social: em seu livro “Pink and Blue: Telling the Girls From the Boys in America” (“Rosa e Azul: Distinguindo Meninos de Meninas dos Estados Unidos”), a historiadora Jo Paoletti mostra que, até o início do século 20, a maioria das culturas de inspiração europeia tendia a tratar as crianças como neutras, em termos de gênero, até os seis ou sete anos de idade: fotos de meninos pequenos, no fim do século 19, ainda mostravam os garotos de vestidinho branco e cabelos compridos.

A questão, aponta Paoletti, era de praticidade: vestidos facilitam a tarefa de trocar fraldas, são mais fáceis de costurar e, sendo brancos, podem ser lavados com alvejante sem sofrer grandes danos. Numa época sem contracepção, o mesmo vestido podia ser usado diversas vezes para uma sequência de bebês, independentemente do sexo. Roupas coloridas para crianças pequenas começaram a avançar no mercado na época da I Guerra Mundial, escreve a autora, mas o “código” rosa-menina, azul-menino só se consolidou décadas mais tarde. Já a noção de que as meninas, mesmo bem ainda pequenas, deveriam se vestir em roupas femininas – e os meninos, masculinas – só pegou de vez para a geração do pós-guerra.

John ou Joan?

Mas se a moda infantil é construção social, há coisas que não são. Por algum tempo, na década de 70, predominou a idéia de que os papéis de gênero eram totalmente aprendidos – que seria possível criar um menino como menina, ou vice-versa, sem nenhum efeito adverso sobre acriança ou o adulto que ela viria a se tornar.

Em seu livro “Tábula Rasa”, o cientista americano Steven Pinker descreve um estudo com 25 meninos que nasceram sem pênis e, por isso, foram castrados e criados como se fossem garotas. “Todos mostraram padrões masculinos em suas brincadeiras e atitudes e interesses tipicamente masculinos”, aponta o autor.

Pinker comenta ainda o caso de um menino que sofreu uma mutilação peniana ainda bebê, e cujos pais foram orientados a criá-lo como menina. Durante muitos anos a história foi apresentada como prova de que o gênero da criança é fruto da criação, e não de disposições inatas, até que um artigo científico publicado em 1997 revelou não só que a menina “Joan” passara boa parte da vida detestando sua identidade feminina – a ponto de rejeitar o tratamento hormonal indicado na puberdade – como havia revertido para a identidade masculina, “John”, na idade adulta.

“Perguntou-se John, já adulto, por que ele não havia aceitado ser do sexo feminino, em vez de lutar contra isso. Sua resposta foi simples: agira assim não lhe parecia certo”, diz o artigo de 1997, assinado por Milton Diamond e Keith Sigmundson.

“Ele queria agradar os pais e os médicos, então frequentemente acompanhava suas decisões, mas o conflito entre seus sentimentos e os deles era mentalmente devastador, e teria levado ao suicídio se forçado a continuar”.

Desenhos e brincadeiras

Uma série de pesquisas indica que as crianças começam a mostrar diferenças de interesses e atividades, correlacionadas ao gênero, por volta dos 18 meses, ou mesmo antes. Um trabalho publicado no periódico Cognition, em 2011, aponta que já entre seis e nove meses meninos, mais do que meninas, interessam-se por atividades que envolvem empurrar e arremessar objetos.

Outros estudos apontam que, entre dois e três anos, crianças tornam-se capazes de identificar os estereótipos de gênero associados a cores, roupas, brinquedos e, em idade pré-escolar – cinco e seis anos – já fazem desenhos típicos “de menino” e “de menina”.

Revisão da literatura publicada em 1985 apontava que “crianças com apenas dois anos de idade respondem a perguntas sobre estereótipos com um nível previsto por puro acaso, mas, aos dois anos e meio, diversas investigações encontraram respostas melhores que as previstas por mero acaso, quando se pede às crianças para classificar objetos e símbolos de atividades e interesses tipificados por sexo”.

Estudo japonês publicado em 2001, envolvendo mais de 300 crianças de cinco e seis anos, mostrou que, numa atividade de desenho livre, os meninos usam mais cores frias, desenham mais máquinas e veículos; meninas usam mais cores quentes e desenham mais figuras humanas, flores e borboletas.

O estudo também avaliou meninas com hiperplasia adrenal congênita, condição que leva a uma produção excessiva de hormônios masculinos. Essas garotas fizeram desenhos mais parecidos com os dos meninos.

Vistos de modo conjunto, esses trabalhos indicam a presença de predisposições inatas vinculadas ao sexo, que são acentuadas ou guiadas socialmente, a partir do momento em que a criança se torna capaz de se identificar com um gênero e inferir o que se espera dela.

Em 2008, numa tentativa de testar a hipótese de que as escolhas de brinquedos pelas crianças refletem, ao menos em parte, a influência de hormônios, um artigo de autoria de três pesquisadoras americanas avaliou as escolhas de macacos resos entre brincar com carrinhos ou bonecos de pelúcia.

“Macacos machos, como meninos, mostraram preferência forte e consistente pelos brinquedos com rodas, enquanto que as fêmeas, como meninas, mostraram grande variabilidade nas preferências”, escrevem as autoras. “As semelhanças com os achados em humanos mostram que tais preferências podem se desenvolver sem uma socialização de gênero explícita”.

Discriminação

Uma das preocupações de Taís Araújo a respeito das escolhas de brinquedo de sua filha é de que elas acabem aprisionando a menina num “único e fatídico destino, a tudo que fuja do roteiro traçado por essa construção que seja carregado de culpa e julgamentos!” Mais adiante, ela escreve: “Não acredito que existam brinquedos de menina ou brinquedos de meninos”.

Aqui cabe uma distinção entre as preferências inatas de meninos e meninas, que fazem com que certos brinquedos pareçam mais ou menos atraentes, e a forma como essas preferências são interpretadas, manipuladas e, eventualmente, amplificadas em nome do comércio.

Em 2015, uma reportagem do jornal The New York Times citava psicólogos que apontavam os possíveis malefícios de brinquedos serem marcados, por fabricantes ou lojistas, como “de menino” ou “de menina”, e mencionava que essa divisão funcionava como instrumento de marketing – por exemplo, pais poderiam se ver constrangidos a comprar dois aviõezinhos, um rosa e um azul, para atender tanto ao filho quanto à filha.

“Organizar a mercadoria por gênero também age como uma barreira que impede a criança de explorar um campo maior de brinquedos e atividades”, disse ao diário americano a psicóloga Lisa Dinella.

Em “Tábula Rasa”, Steven Pinker cita uma série de estudos que mostra que, questões mercadológicas à parte, a restrição imposta pelo ambiente familiar à escolha de brinquedos é mais forte, na verdade, sobre os meninos.

“Cerca de dois terços dos meninos foram desencorajados de brincar com bonecas”, descreve ele. “Especialmente pelo pai, que teme que se tornem gays”. Pinker acrescenta: “Meninos que preferem brinquedos de menina frequentemente se revelam gays, mas proibir os brinquedos não afeta esse resultado”.

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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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