É tudo tão real, mas nada normal

Sempre fui muito intensa em tudo o que vivi… O problema em ser intensa é que intensidade assusta, afugenta, oprime. E quem é intenso corre o risco de ficar sozinho. As pessoas preferem comer pelas beiradas, ficar apenas no superficial. Conhecer dá medo, profundidade dá medo, sinceridade dá medo… Ou você passa a odiar a pessoa, ou ela te cativa de tal modo que você se torna totalmente dependente. Mas nesse mundo de fast-food, fast-fashion, fast-life, ninguém tem tempo para se deixar cativar.

Quando você tá começando a conhecer uma pessoa, ela perde a graça, passa do tempo de validade, e então, você parte pra outra, pra “outras”, pra “mesma”. Ser intenso não é uma escolha, ou você é, ou não é. 8 ou 80, não tem meio termo, não tem mais ou menos, não tem talvez. Ou é quente, ou é frio. Ou mergulha de cabeça ou pisa em ovos. Ou vive ou apenas sobrevive.

Desde muito cedo, decidi viver! Não sei ser diferente. Prefiro correr o risco. Sofrimento não mata não, e no final, eu posso dizer ‘eu tentei’, ‘fui até o final’, ‘dei a minha melhor versão’.

 

Confesso que muitas vezes não entendo por que na literatura ou no cinema é tão fácil admirarmos pessoas intensas e quando nos deparamos com alguém assim na vida real fugimos feitos loucos? O que realmente assusta?

Ser uma pessoa intensa é ser indecisa, mas não ter medo dessa indecisão, é entrar de cabeça em tudo, sem receio, sem freio. Parece até que posso ouvir Caetano cantando pra mim “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim”. Ser intenso é assim… É ser impulsivo, é sentir e logo depois não sentir mais, é se atrapalhar com tudo que se sente… É difícil de entender, e só pode ser compreendido com intimidade e o coração aberto. O problema maior é a complexidade de tanto ímpeto, a incapacidade de deixar um assunto para depois, o senso de justiça e urgência, a falta de recusa perante a oportunidade de amar. Tudo é forte, tudo é sério, tudo é pra sempre… Mesmo sabendo que pra sempre não existe e que nunca será possível amar do tamanho do universo +1.

Exagero e entusiasmo são coisas corriqueiras. A gente se entusiasma com desafios, se entusiasma com momentos, se entusiasma com pessoas, se entusiasma com sonhos e promessas. E isso é mais uma coisa que em vez de contagiar, afugenta quem tem medo de se entregar. Para nós, a vida não é um jogo, fios vermelhos não viram nós e o amor só acontece se você deixar que ele aconteça. Sem cartas marcadas, sem trapaceios, sem blefes. Basta que você não se esconda, não fuja, não minta, não omita, não iluda, não esqueça, não deixe de lado, não seja indiferente.

Viva, assuma, acredite, tenha coragem, queira, sonhe, deseje, se emocione, se entregue, se jogue, e o principal, AME!

 

E para isso, é preciso ousadia, pois mesmo amando muito, mesmo mergulhada nessa intensidade, do dia para a noite, como num sopro de vento, tudo pode acabar. Num dia, planos de “brincar de casinha” pra vida toda. No dia seguinte, “não posso mais continuar”.  A vida virou um turbilhão. Lembro que a passagem de uma música ficava entoando na minha cabeça sem parar “…é tudo tão real, mas nada normal…’’.

Os primeiros dias foram cheios de altos e baixos, eu chorava de rir e de dor na mesma intensidade. Sim! Eu ria de tudo e chorava por tudo, como uma montanha russa de emoções que mudavam de um segundo para o outro. Era como se eu tivesse me vendo de fora, como se a vida fosse um filme e eu não soubesse muito bem o que fazer.

O tempo todo eu vivia cheia de perguntas: Devo agradecer? Devo sofrer? Devo chorar? É certo sorrir? Será que estou muito bem? Será que deveria estar pior? Qual a maneira certa de passar por isso tudo? Existe certo ou errado?

Todo mundo parecia ter uma opinião sobre como eu devia me sentir ou sobre o que devia fazer. Uns me diziam para chorar, outros para me distrair. Alguns diziam para eu retomar minha rotina, outros para eu não me cobrar. Mandavam-me sair mais ou sair menos. “Põe aquela roupa e o batom… entra no carro, amiga, aumenta o som”.

Diziam-me: viva um dia de cada vez, mas também para fazer novos planos para o futuro. Tinham também aqueles que indicavam para eu rezar, ir à igreja, ao templo, centro espírita, terreiro ou terapia.

Aparentemente, todo mundo tinha uma opinião a respeito ou algo a dizer, a compartilhar. Sei que queriam ajudar, confortar, apoiar e eu entendia, mas ninguém, a não ser eu, sabia da dor e do quão perdida me sentia.

A dor de cada um é diferente (já falei sobre isso no meu relato sobre depressão) e a minha era só minha, não se podia medir ou comparar e, principalmente, quem a causou não mais a poderia curar.

Mas como este não é um texto somente sobre dor, é um texto, sobretudo, sobre o amor; no meio de tanta aflição, o amor se fez mais presente do que nunca.

 

Poucos dias depois, completei 41 anos. Sim… Definitivamente, uma quarentona. Mas confesso que todos os meus ‘’problemas’’ com a idade, meus receios e medos, perderam o foco. Tudo que eu achava que seria a minha vida se refez, renasceu, mudou para um lugar onde só fica quem (e o que) importa e acrescenta, quem eu quero genuinamente bem e que eu sei que é recíproco. Não poderia ser diferente, não poderia ser menos, pois ser menos seria me roubar o direito de ser o que sou: I.N.T.E.N.S.A.

Como fiz isso? Fui vivendo em fases: sair todos os dias e não pensar sobre o assunto, agir como um robô fazendo somente o que achava certo fazer, independente de como me sentia; e principalmente deixar de me sentir culpada pelas coisas não terem dado certo, pelos erros que cometi, pelo emprego que perdi… Enfim, deixei de me boicotar, me culpar e me fechar.

Controlei a ansiedade, natural de quem é intenso, e que apareceu como uma forma de me fazer encarar o que havia colocado debaixo do tapete, tentando ignorar. Ela me fez ir atrás de ajuda e de respostas. Foi necessário fechar e  curar, definitivamente, algumas feridas.

Com a terapia e a meditação estou aprendendo a encontrar algo de bom em tudo que aconteceu. Não consegui me apegar a nenhuma religião, apesar de acreditar que elas ajudam, sim, quem tem fé. Mas eu precisava seguir o meu caminho, em busca das minhas próprias respostas, pois descobri que muito do meu medo, da dor e angústia estão ligados às questões sobre as perdas da vida, que eu não consigo responder e as quais nenhuma religião ainda me trouxe uma explicação (acho que ainda vivo meu momento “A Cabana”).

Acredito que o que vale na perda está ligado à maneira como a encaramos. Será que é mesmo o fim? Ou seria recomeço? É logico que dói, mas só dói onde se tem amor. E o amor, ah! O amor não morre, não vai embora, mesmo que a pessoa se vá, pois, o amor nasce dentro de nós e só quem já o sentiu de verdade sabe o que significa vivê-lo. Aliás como dizem os poetas, será possível existir amor sem dor?

Muitas vezes, não me permiti chorar, com medo que o choro não fosse parar nunca.  Outras vezes, chorei, desabafei, telefonei. E, compreendi que existem dois tipos de choro: aquele angustiado, agoniante, meio desesperador e existe aquele choro que é de saudade, por vezes, acompanhado de um sorriso, uma lembrança. Ele tem certa doçura, está repleto de sentimento. É o choro que cura, ensina, aquece a alma, é feito de amor. O outro tenho procurado evitar, pois ele não me agrega, não me cura, não me ensina e, principalmente, não honra o tempo que vivi.

Não posso dizer que superei tudo, nem dizer que existe uma receita certa para agir. Afirmo, porém, que a dor nos traz lições e aprendizados, e é parte, imprescindível, da nossa jornada onde o importante “não é chegar no topo do mundo e saber que venceu. É escalar e sentir que o caminho te fortaleceu”.

E eu, que já vi a morte de perto tantas vezes, digo a você que até hoje não aprendi a lidar com o vazio que qualquer perda me traz. O que fica, de verdade, é o aprendizado sobre persistência, sobre fé, sobre coragem para assumir o que nos faz feliz, sobre uma vida baseada em valores que dinheiro nenhum pode comprar e principalmente, sobre me amar, me respeitar e, o mais importante de tudo, me conhecer.

Eu tenho, sim, muitas saudades e costumo meditar imaginando nós dois sentados, sonhando e assobiando à beira do mar. Mas se “tudo o que posso lhe dar é solidão com vista pro mar”, isso realmente não me basta. Viver com um intenso é missão para quem quer a certeza de que não existem dias chatos. Cada dia é uma aventura e a descoberta de que os sentimentos podem ser muito maiores do que você imagina. Por isso, fecho meus olhos e ainda tento sentir a energia, o calor e o amor, pois assim mantenho viva a intensidade que me leva a acreditar que sempre é possível “viver e não ter a vergonha de ser feliz”. 

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41 anos, mãe do Marcello #aos20 e do Lucca #aos12. Pedagoga por formação, educadora por vocação, empreendedora por opção e uma eterna apaixonada por toda forma de desenvolvimento humano. A paixão pelo mundo fitness surgiu depois de uma depressão e hoje, o estilo de vida saudável contagia sua vida na família, nos negócios e por onde vai. Não cozinha, não gosta das atividades “do lar”, mas vive a rotina da casa como qualquer outra “dona da casa” moderna que concilia mil e uma atividades e é feliz assim, sem culpa. Coach, mentora de pequenos negócios e autora do blog Lounge Empreendedor, não abre mão da academia todos os dias, seja as 5:00a.m. ou as 11:00p.m. No Facebook: LoungeEmpreendedor e no Instagram: @AninhaCoelho

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