É preciso falar!

 

Toda vez que fico sabendo que alguém tirou a própria vida, sempre penso no tamanho da dor que já não podia mais ser socorrida, a ponto da pessoa dizer “valeu gente, deu pra mim!”

Mas o que sempre me dói mesmo é ouvir os comentários em volta.  a incompreensão pelo ocorrido, a dificuldade em enxergar a dor do outro, por vezes minimizando, atribuindo a falta de alguma coisa (força de vontade, caráter), como se o que leva uma pessoa ao suicídio fosse algum tipo de doença menor.

A Organização Mundial de Saúde, junto com a Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio, instituiu o dia 10 de Setembro como “Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio”. Desde 2014, o Brasil realiza a campanha “Setembro Amarelo”, movimento trazido pelo CVV – Centro de Valorização da Vida,  em que intervenções nas cidades são feitas para lançar luz sobre este problema, que é um problema de saúde pública, e é também um problema de todos nós.

As doenças, de maneira geral, e em específico, os transtornos mentais, são muito democráticos. Eles podem atingir qualquer pessoa, de qualquer classe, em qualquer situação, não há um único grupo de risco. Existem algumas causas que são atribuídas ao suicídio e boa parte delas convergem para a depressão.

Recém-formada, no meu primeiro emprego, chego um dia pra uma querida do trabalho com um folheto sobre “Depressão” que encontrei nas minhas coisas da faculdade. Minha ideia era sugerir pra ela que fizéssemos algo semelhante para distribuir nas nossas ações de saúde. Ela pegou da minha mão, folheou em silêncio durante algum tempo. Aí me olhou por cima do folheto e me disse assim: “acho que é isso que eu tenho. Eu achava que quem tem depressão vivia triste, sem sair da cama, mas não. Estou lendo aqui e eu me sinto exatamente assim!”

A grande questão é que esta doença nem sempre é vista como tal. Existe um forte movimento de não reconhecimento, que por vezes insiste em minimizar a ocorrência da depressão. Confundida com “frescura” ou “falta de força de vontade” ou ainda “falta de Deus”, a depressão acaba por ser varrida para debaixo do tapete.

Nossa querida Ana Maria Coelho escreveu um relato honesto, forte, corajoso, aqui mesmo no Blog, sobre Depressão. Vale a leitura e a reflexão. (E eu sou grata a ela por este texto).

Tenho um tio que suicidou-se. Foi triste. No velório, minha família arrasada, comentava: por que será, ele tinha tudo! Tudo, o quê? Ele tinha casa própria, uma aposentadoria que lhe dava uma vida digna. Pouco antes de morrer, ele havia trocado de casa. Havia vendido a casa que foi de meus bisavós, mais por pressão do comprador do que por vontade própria (assim nos contaram), e se mudado para outra, maior, mais nova e mais bonita. Enquanto tentava ajudar nos trâmites de liberação do corpo, velório, eu fui na tal casa. Era bonita mesmo, e tinha tanta luz! Era iluminada em todos os cômodos, de um jeito que a casa que em que ele viveu toda a sua vida nunca foi. A casa dos meus bisavós era velha, tinha poucas e pequenas janelas, sempre uma penumbra. Ao entrar naquele “cenário”, tive a impressão de “adivinhar” o motivo daquele suicídio. Minha sensação era de que toda aquela luz tivesse lançado um foco sobre o “tudo” que ele tinha. Era só, não tinha família, filhos, nem trabalho, nem amigos. E o que ia naquela alma, que eu jamais poderia ver?

A questão é exatamente esta. Não é possível entrar e decifrar o que vai no coração do outro. Nos meus anos de profissão, eu aprendi que só quem pode fazer leituras a seu respeito é a própria pessoa (quem já fez psicoterapia sabe do que estou falando). Cada pessoa tem sua forma de adoecer e de se curar e isto acontece num tempo que é muito, muito particular. Se você tem conhecimento, se você já viveu esta mesma situação e pode de alguma forma ajudar neste caminho, que bom! Mas se você não consegue sequer compreender como é este tipo de dor, ainda assim você pode ajudar oferecendo uma escuta silenciosa e empática. Talvez tudo o que a pessoa precise é saber que não está só.

Na maioria das vezes este não é um caminho fácil, porque, para enfrentar e vencer um monstro, é preciso encará-lo. E fazer isso sozinho é muito mais sofrido!

Imagine que quem está lidando com o sofrimento mental acaba por atravessar uma viela estreita e escura, por vezes sem sequer enxergar uma luzinha mínima para dar direção. Agora imagine você nesta viela. Não seria mais fácil se alguém segurasse na sua mão?

Buscar ajuda profissional, em muitos casos, é fundamental. Você também pode ajudar desconstruindo todo tipo de preconceito. Como eu disse ali em cima, qualquer um pode vir a desenvolver algum tipo de transtorno, inclusive uma depressão.

Deixo aqui meu depoimento também. Já vivi alguns episódios depressivos em minha vida. O primeiro eu tinha 15 anos e tinha acabado de terminar a oitava série. Tinha realizado todos os meus sonhos adolescentes e me vi vazia. Passei um janeiro inteiro trancada em casa, na esperança de que alguém sentisse minha falta. Ninguém nem notou minha ausência no clube, mas eu cruzei com um anjo que me salvou de mim mesma.

Depois foi no ingresso na Universidade. Passei um semestre inteiro deitada na cama da pensão na qual morava, só me levantava no fim da tarde pra ir pra faculdade, dentro de um senso de responsabilidade, afinal eu havia lutado muito para estar lá. Eu tinha um namorado possessivo, machista, opressor, que controlava minha vida há muitos quilômetros de distância e isso só contribuía para que eu me sentisse cada vez pior. No segundo semestre eu comecei a fazer psicoterapia e assim eu consegui superar e aterrissar naquela nova etapa.

No meio da faculdade eu vivi minha primeira grande crise de identidade, tão necessária na minha viagem em busca por autoconhecimento. O engraçado desta fase é que os feedbacks menos amorosos que eu recebi foram os meus melhores espelhos. Eu seguia fazendo terapia.

Mas o episódio mais difícil mesmo veio após a maternidade. Um ano antes de engravidar, meu pai descobriu um câncer já em estágio avançado. Ele faleceu quando eu estava grávida de oito semanas. Durante o tratamento dele meu rendimento no trabalho caiu muito. Minha filha nasceu e veio aquele puerpério longo e sombrio, amplificado pela recuperação difícil pós cesárea, dificuldade para amamentar e, claro, toda sorte de palpites vindos de pessoas muito, muito próximas. Fui levando, entre altos e baixos e muitas tentativas para me redescobrir naquele novo papel e resgatar todos os outros fragmentados em mim. A depressão bateu forte quando precisei largar meu emprego sem ter nada para colocar no lugar. Todos as falas de pessoas queridas me dizendo qual era o meu problema e o que eu deveria fazer da minha vida só contribuíram para que eu deixasse de acreditar em mim. Por uns meses eu me vi perdida, vazia, andando de um lado para o outro, no piloto automático, sem rumo, sem sentido, sem entender direito porque nada do que eu tentava era capaz de tirar de mim aquele desânimo, aquela angústia. Resolvi participar de um processo seletivo para tentar uma vaga numa pós graduação e no dia da prova eu percorri os caminhos mais longos e mais difíceis da minha vida.

O combo terapia, orações (eu sou cristã) voltar a estudar e aprender coisas novas deram conta da minha cura. Mas penso que poderia ter sido diferente se eu não tivesse encontrado canais para falar da minha angústia e poder elaborar meus lutos todos, que foram muitos. E foi assim que eu virei blogueira, foi por viver tudo isso que eu comecei a escrever, mais para mim, meu movimento catártico, do que para inspirar e acolher outras pessoas. Graças à Deus tudo isso ficou pra trás e hoje eu posso fazer este movimento no sentido oposto, de estar para o outro, acolher, andar ao lado, inspirar quem me lê. Ouvir.

O Setembro Amarelo deste ano lançou a campanha”falar é a melhor solução”. Falar sobre suicídio, sobre depressão, sobre os problemas todos de difíceis soluções, sem medo, quebrando tabus, rompendo paradigmas. Falar lança luz àquelas questões mais obscuras. Lançando luz, pode-se enxergar nuances, olhar de outros ângulos, encontrar saída.

Termino meu texto lembrando que a maior dor do mundo é a dor que a pessoa sente e isso vale para todos. E faço um convite, citando o tema deste 10 de setembro, da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio: “doe um minuto, mude uma vida”.

A imagem usada acima saiu da página do CVV (as outras imagens são do Pixabay)

Um setembro mais amarelo

E aqui tem mais informações sobre esta campanha aqui:

Setembro Amarelo

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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