O Filme da Minha Vida

Tenho que confessar que já tive um certo preconceito com o cinema nacional que, mesmo tendo evoluído muito nos últimos anos, eu sempre olhava de uma forma meio marginal. Graças aos meus filhos, vidrados em desenhos e super-heróis, as últimas vezes em que estive no cinema foi para assistir algum blockbuster hollywoodiano.

Mas, que boa surpresa foi assistir “O Filme da Minha Vida” na última semana a convite da Vitrine Filmes. A produção baseada no livro ‘Um pai de cinema‘ de Antonio Skármeta, autor chileno de obras belas e delicadas como ‘O carteiro e o poeta‘ conseguiu me conquistar de uma maneira incrível.

Com um roteiro tecnicamente perfeito, é uma poesia (e não um filme) que nos leva a nos apaixonar pela história e pelos personagens. Hoje, arrisco dizer que essa produção brasileira é minha mais nova paixão!

Ambientado no sul do Brasil, na década de 60, com magníficas paisagens e uma linda história de reestruturação de uma família, o filme mostra o processo de amadurecimento do jovem Tony Terranova (Johnny Massaro), sua relação estreita com a mãe (Ondina Clais), a ausência do pai – o francês Nicolas (Vincent Cassel), seus anseios e dilemas, seus amores. Um rito de passagem da juventude para a maturidade.

Tony é professor de francês num colégio da cidade, convive com os conflitos dos alunos no início da adolescência e vive o desabrochar do amor. Apaixonado por livros e pelos filmes que vê no cinema da cidade grande, faz do amor, da poesia e do cinema suas grandes razões de viver. Até que a verdade sobre seu pai começa a vir à tona e o obriga a tomar as rédeas de sua vida.

O elenco é sensacional. Johnny Massaro é o protagonista que consegue brilhar e entregar um personagem humano e sensível que amadurece em meio a uma grande tristeza. Não posso dar spolier nesse post, mas garanto que o Johnny está imperdível.

Selton Mello, além de assinar o roteiro e direção do filme, interpreta Paco, um homem que simultaneamente exala gentileza e rudeza, levando o espectador a compreender – mesmo que reprovando – algumas ações que, nas mãos de um ator menos capaz, nos fariam odiá-lo por frases ditas ao longo da trama. Ator talentoso e dono de uma carreira admirável, ele revela uma maturidade notável como ser humano (comprovada na deliciosa coletiva de imprensa que participei enquanto ele oferecia balas chita aos presentes) e como artista, criando uma narrativa capaz de evocar um sentimento tão intenso de nostalgia.

As presenças femininas do filme tem papel fundamental na trama. Bia Arantes interpreta uma mulher que sabe que cada olhar que lança a Tony (e aos homens de modo geral) tem a força de uma faca, mas oculta uma vulnerabilidade paralela à sua aparente autoconfiança, como se temesse ser desmascarada a qualquer momento. Enquanto isso, sua irmã Luna é encarnada por Bruna Linzmeyer como um reflexo quase perfeito da outra. Luna é o próprio amor! Seu olhar vulnerável de mulher apaixonada do começo do filme aos pouco se transforma numa força crescente – força que se tornará fundamental para o amado.

Além delas, Ondina Clais dá vida a uma “mãe talhada na melancolia” , como ela mesma diz, que durante a trama parece ter deixado que o vento levasse sua alegria, sem perder de vista sua própria natureza materna e protetora. Ela nos traz um desfecho daqueles que deixam a trama com um “e agora?” e torcida até o último minuto.

Em certo momento do filme, Selton Mello (ou melhor, seu rude Paco) diz a Johnny que não gosta de ir ao cinema, porque “é um troço escuro que você fica lá dentro vendo a vida dos outros em vez de cuidar da sua e perde duas horas da vida”. Pois, depois das minhas próprias duas horas, só tenho a agradecer ao convite de passar este tempo ao lado de personagens tão belos em um universo tão cheio de afeto. Garanto a você que ao assistir “O Filme da Minha Vida” você poderá sentir um Brasil muito pouco retratado nas telas dos cinemas e novelas.

 

Cinema nacional de qualidade… Som e trilha sonora impecáveis (com direito a Nina Simone), roteiro bem escrito, direção segura e competente do Selton Mello e ambientação perfeita retratada pela fotografia do Walter Carvalho, quase toda em tons sépia e locações externas que nos remetem à década de 60 de uma forma sensacional.

O Filme da Minha Vida é uma trama que traz todos os ingredientes de sucesso: comédia simples com humor que nos tira boas gargalhadas, um certo suspense, drama na medida certa, superação… e, é claro, romance. O filme é daqueles que tem tudo para se tornar também o filme da SUA vida. A estreia acontece dia 3 de agosto, próxima quinta-feira. Será que já tenho um preferido para representar o Brasil no Oscar 2018? Sim ou Com Certeza?

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41 anos, mãe do Marcello #aos20 e do Lucca #aos11. Pedagoga por formação, educadora por vocação, executiva por opção e uma eterna apaixonada por toda forma de desenvolvimento humano. A paixão pelo mundo fitness surgiu depois de uma depressão e hoje, o estilo de vida saudável contagia sua vida na família, na empresa e por onde vai. Não cozinha, não gosta das atividades “do lar”, mas vive a rotina da casa como qualquer outra “dona da casa” moderna que concilia mil e uma atividades e é feliz assim, sem culpa. Coach e mentora de pequenos negócios, gerente de treinamento numa empresa beeeeem tradicional e autora do blog Lounge Empreendedor, não abro mão da academia todos os dias, seja as 5:00a.m. ou as 11:00p.m. No Facebook: LoungeEmpreendedor e no Instagram: @AninhaCoelho

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