Depressão: um relato honesto

Muita gente chama a depressão de doença silenciosa, mas por sofrer com ela, posso garantir que ela grita! E justamente por isso, achei que era a hora de deixar que essa voz se transformasse em palavras para, talvez, ajudar você a entender o que acontece com quem vive uma doença que é invisível. Pois, diferente de quem quebra o braço, tem catapora ou tem uma gripe, vendo de fora, você não consegue dizer quem está sofrendo de depressão ou qualquer outro transtorno psíquico.

Já cansei de ouvir de muitas pessoas bem próximas a mim: “Não é possível que ela esteja deprimida. Estava toda sorridente ontem.” ou pior: “Ela é tão inteligente e bonita. Por que teria depressão?” Oras, será que existe alguma “cara” para a depressão? Cara de desânimo? De derrota? De quem caiu do caminhão de mudança? Cara do Gato de Botas chantageando o Shrek?

Por mais que nunca saibamos os motivos de uma pessoa estar deprimida, respeito e empatia são sempre recomendados. Aliás, como em qualquer outra situação, né?

Emoções como tristeza, apatia ou desânimo não são os únicos indicadores para dar conta de representar um estado depressivo. Ou você é daqueles que acha que expressar alegria é um atestado de saúde mental garantida? Não, não é.

Além disso, há outro julgamento bem comum sobre quem pode estar sujeito ou não a uma depressão: os bem-sucedidos, bem-casados ou bem-vividos estão “imunes” ou “não têm o direito” de ficar deprimidos. Mas será que qualquer um de nós tem real acesso aos medos e angústias do outro? E se esse outro for alguém importante pra você e você estiver perdendo a oportunidade de ajudá-lo a enfrentar uma dificuldade?

Depressão é coisa séria e demanda respeito ao tempo e à singularidade de cada pessoa. Utilizar a palavra sem a delicadeza e a seriedade que ela merece só contribui para banalizarmos o debate urgente que precisamos fazer sobre saúde mental. O estigma e o tabu continuam sempre que não abordamos essas questões com a profundidade que merecem. E por isso, eu – a mocinha bem-sucedida, bem-casada e bem-vivida – resolvi falar sem medo sobre o assunto, já que recentemente, mais uma vez me vi impactada por essa doença que me fez perder emprego, amigos e um grande sonho.

O que você não vê

A depressão exige que você tenha um guarda-roupa de máscaras para usar ao longo do dia. Por baixo da máscara tem um mundo desmoronando lentamente com uma infinidade de sentimentos que quem está de fora não enxerga. E por vezes, não entende. Posso fazer uma lista daqueles que foram os mais latentes em mim e tenho certeza que se você já sofreu ou sofre de depressão, já sentiu coisas parecidas. Preparados?

  • O que você não vê é que passamos o tempo querendo escapar do que nos deixa triste, mas o que está nos deixando triste está em nós mesmos. Então, como fugir?
  • O que você não vê é a forma como nos sentimos mortos por dentro e mesmo sem sentir as emoções, ainda rimos e fazemos piadas para parecer normal por fora;
  • O que você não vê são os anos que a depressão toma de você, as lágrimas, a confusão, o seu emprego perdido, pessoas te dizendo para superar, o julgamento e você ali, num grande esforço apenas para não deixar o mundo desabar;
  • O que você não vê é o medo de ir ao trabalho, pensando que aquela única coisa que você fizer ou não fizer vai custar seu emprego;
  • O que você não vê é que enquanto vocês nos dizem para “lutar” contra a doença, o simples movimento de ir da cama para o sofá é uma luta vencida;
  • O que você não vê é a sensação de que sou constantemente um empecilho, ou um fardo e que sou uma mãe ruim porque mesmo fazendo um grande esforço, não me sinto 100%;
  • O que você não vê são as pessoas que se afastaram por não conseguirem compreender ou pelo medo da depressão, e os estigmas que ela traz;
  • O que você não vê é quão culpados nos sentimos mesmo sem ter pedido pra isso acontecer. É como se devêssemos ser capazes de controlar a depressão ou escondê-la melhor;
  • O que você não vê é o replay vívido de todos os fracassos e fraquezas que formam sua trilha sonora diária.

Por isso, repito: respeito e empatia são sempre recomendados. Seja gentil com quem vive à sua volta, pois não conhecemos as batalhas das pessoas e não adianta agir como se soubesse ou se fossemos todos iguais. Entender a depressão nunca será totalmente possível para aqueles que não sofrem com ela. Porque só é possível compreender a dor por completo, quando você passa a senti-la.

Doença nenhuma é frescura

Espero que compartilhar a minha visão ajude você, ou qualquer pessoa que resolva gastar alguns minutinhos do seu dia lendo esse texto, a entender melhor sobre o tema, mostrando que DEPRESSÃO NÃO É FRESCURA. Doença alguma é frescura! Para começo de conversa, convém esclarecermos que a depressão surge a partir de eventos que ocorrem na vida de um ser humano – a morte de um ente querido, o término de um relacionamento, traição, bullying, preconceito, abuso sexual e muitos outros fatores podem provocar o surgimento dessa temida doença. Além disso, fatores genéticos também contribuem bastante.

Particularmente, estou inclusa nos dois parâmetros: eventos traumáticos na infância contribuíram para o surgimento da minha depressão e existem diversos históricos sobre a doença, incluindo suicídio, na minha família. Não culpo meu passado pelo estágio que a doença chegou na minha vida, porém admito que era necessário uma maior preocupação quando tudo aconteceu para que eu pudesse ter um quadro menos instável na minha vida adulta. Como não tive o tratamento nessa fase, a minha doença progrediu aos poucos.

No começo, a depressão se manifestou por aquela invulnerabilidade que surge quando você não se importa mais com as coisas que antes eram empolgantes. Você passa de uma avalanche de emoções para o alívio de começar a não sentir mais nada. Como assumi as rédeas da minha vida muito jovem, confesso que sempre quis não estar nem aí para as coisas, mas tem uma grande diferença entre estar pouco se lixando e não conseguir se importar com nada. Cognitivamente, eu sabia que coisas diferentes estavam acontecendo comigo. E juro que queria obedecer todos aqueles que me diziam: “você vai ficar tudo bem” ou “isso vai passar”. É frustrante quando isso não acontece e decepcionamos as pessoas que amamos. Para quem não vive a depressão, parece que tem de haver uma fonte escondida de felicidade em algum lugar dentro de nós, pois se eles conseguem pensar em coisas lindas e sorrir, porque nós também não podemos acessar essa fonte quando quisermos?

E então, as pessoas insistem em querer ajudar. Mas o que vivemos nesse momento é uma absoluta incapacidade de sentir alegria, que acaba fazendo parecer que somos negativos; como se QUISESSEMOS estar deprimidos e essa é a coisa mais frustrante da depressão. Não é algo contra o qual você possa lutar com esperança. Na verdade, nem é um algo – é um nada.  Você começa com alguns pensamentos negativos acerca da vida. Depois, passa a se indagar mais e mais sobre qual o sentido disso tudo. Chega um dado momento em que você já não vê mais motivo algum para estar viva, e é nesse momento que você passa a desenvolver os pensamentos suicidas. Como boa entendedora do assunto, posso afirmar que esse é o momento mais crítico da doença. Inicialmente você quer morrer, mas não quer sentir dor. E tem medo disso. Por muito tempo você adia. E adia. E adia. Mas um dia, a sua doença se torna tão mais forte que você, que te dá uma coragem que nem mesmo você imaginava que existia. Um dia você quer morrer. No outro você quer se matar. No outro você pensa em formas menos dolorosas para isso. No outro você nem liga mais se vai doer ou não. Então, você planeja tudo nos mínimos detalhes. E no outro dia… Bom… Se você vai sair ileso ou se vai conseguir de fato o que tanto deseja, só Deus sabe. Não conseguimos entender nada além do nosso próprio desejo de morte. Nos tornamos completos egoístas, pois só pensamos em nos livrar da dor. E, por isso, digo que o depressivo não quer morrer, ele apenas quer se livrar da dor. O peito dói, falta o ar. O nó na garganta é constante e tem momentos em que parece que vamos perder totalmente o controle. É uma dor terrível. Dói mais do que uma ferida na pele. Em um determinado momento, estamos tão cansados de sentir o que sentimos, que quando entramos em crise, simplesmente nos culpamos, e a culpa é o que piora cada vez mais o nosso estado.

Eu não me lembro com clareza como me livrei de todas as vezes, mas tenho lembranças dolorosas de salas de hospital, de leitos de clínicas psiquiátricas, de amigos preocupados… Mas o que me doeu primeiramente foi ver a aflição que provoquei na minha família; no meu filho pequeno que sem saber direito o que acontecia, pediu socorro pra mamãe. Nós, depressivos, imaginamos sim que aqueles que nos amam vão sofrer se nos perderem, mas há uma grande diferença entre imaginar e de fato ver com os próprios olhos. As dores, o medo da morte, a vergonha, a culpa e a vontade de não voltar a viver agravou ainda mais o meu estado. As críticas de quem não sabia o que se passava comigo me atordoavam. Por isso, digo que a pior parte não é o que fazemos, mas sim decidir continuar vivendo. Quando eu digo que decidir não me matar é a pior parte, preciso deixar claro que não quero dizer isso hoje em dia, retrospectivamente. Hoje, para mim, me parece uma decisão bem sensata não ter morrido. Mas quem tenta suicídio, não está livre de tentar de novo. Muito pelo contrário, nos tornamos mais objetivos. E quando não estamos em crise, precisamos ser mais fortes do que o habitual para viver com essa ambiguidade que vem assolando frequentemente nossas mentes: querer viver desejando morrer.

Ajuda é fundamental!

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, mais de 800 mil pessoas se matam por ano. A maioria dos casos, infelizmente, tem a ver com a depressão. Na grande maioria das vezes, o paciente não consegue precisar aquilo que deu início a uma crise depressiva. É comum ela surgir do nada, sem nenhum motivo aparente. Mas como disse no começo da “nossa conversa”, existem aqueles casos em que a morte de um ente querido, um abandono ou uma demissão são a gota d’água para um processo de tristeza que se arrasta por meses a fio.

E aí, ajuda é fundamental! Existe grande diferença entre um desabafo com um amigo e uma conversa com um profissional. Ambos são importantes, porém o profissional é indispensável. Depois de muito trocar de médico, me consultei com um psiquiatra que usou uma combinação de medicamentos associada à psicoterapia. À medida que fui melhorando, ele foi retirando os remédios e minha vida foi adquirindo cor, sabor, felicidade… A academia também foi fundamental nesse processo e por isso, não abro mão dela no meu dia-a-dia. Não estou falando de nada massacrante, mas de uma rotina regrada que transformou minha vida e fez o meu metabolismo mudar. Sinto-me mais atenta, mais disposta, sem minhocas desnecessárias na minha cabeça… Fiquei mais leve – metafórica e literalmente – e passei a ter noites de sono revigorantes de verdade. O que ajuda muito a vencer qualquer problema psíquico. É preciso salientar que para alguns tipos de transtornos psiquiátricos não existe cura. Existe controle. Não se pode abandonar o tratamento, pois uma recaída pode ser fatal.

E nesse momento, você que vai lendo esse texto já deve estar pensando: “Pobre menina rica, essa Ana!”, mas eu lhes digo que a depressão pode ser o maior inimigo de uma pessoa, mas também pode se tornar um grande aliado.

O mais importante é não ter medo de assumir a doença. Não é vergonha alguma ter a doença. Sempre tive medo de perder amizades por ter esse problema, de perder o emprego ou de talvez não ter a chance com alguém que eu gostasse de verdade por ter uma doença como essa. Tudo isso aconteceu…

Mas aprendi uma coisa: as pessoas irão te criticar sempre, tendo ou não motivos para isso. Quem gosta de você de verdade, não te abandonará por uma doença ou qualquer outro problema ou defeito. E você não deixa de ser um grande profissional porque atravessou um momento complicado. Hoje, eu luto pela vida. E não só pela minha, mas pela vida de todas as pessoas que passam pelo que eu passei, principalmente. Estou viva para mostrar que é possível conviver com a doença e viver perfeitamente bem, de forma produtiva e com muito amor.

Confesso que gostaria de estar fazendo muito mais do que eu faço. Gostaria de estar cuidando mais do meu corpo, dando mais atenção para os meus projetos pessoais, sendo um pouco mais individualista, mas também tendo mais tempo para a família, de ser mais competente e produtiva no trabalho, ler mais, estudar mais, me dedicar mais… mas não dá. Eu não consigo dar conta de fazer tudo que eu gostaria de fazer. E não isso não tem nada a ver com depressão. É uma questão matemática.

As coisas que desejo fazer não cabem nas horas do dia e aprendi a lidar com isso. Ao longo da minha vida, como muitos da minha geração, imaginava que teria que trabalhar muito para alcançar o sucesso profissional, afinal, só é bom quem trabalha além do que é esperado e supera as expectativas de quem convive. E sempre fui assim, sem refresco, a garota complicada e perfeitinha, como diz a música dos Raimundos. Com as crises, aprendi que o equilíbrio vale mais do que a expectativa do chefe, do vizinho ou “do príncipe encantado”.  Sinto que já consigo ter uma auto consciência da minha capacidade e consigo traçar limites que convivo diariamente. O que faço com  minha frustração e tristeza? Ah… Elas estão dominadas. Existem dentro de mim, mas estão calmas, em seu lugar, num nível de ansiedade controlado, me permitindo viver de uma forma mais tranquila.

Conhecer-me e saber lidar no dia a dia com meus limites, imperfeições e virtudes fez toda a diferença pra mim. Eu não sou a mulher-maravilha e nem preciso ser! Passei a não levar tudo tão a sério, pelo menos eu tento ser assim o máximo que puder. Admito que esse é um desafio muito difícil para mim, mas estou progredindo. Aceitar a incerteza é ótimo, faz bem, e chega a nos dar um certo conforto psicológico. Ainda que eu reconheça que não posso controlar tudo o que me cerca, hoje não desisto mais de coisas que são importantes pra mim e não aceito limitações que os outros impõem à minha vida.

Deu certo pra mim desse jeito… E quando comecei esse texto, não pretendia escrever um manual de instruções sobre “Como Lidar com a Depressão”, pois acredito que cada família, cada relação, cada pessoa impactada por ela deva criar sua própria fórmula. Na verdade, esse texto é um grande convite a quebrarmos preconceitos e lidarmos com a vida com mais RESPEITO e EMPATIA.

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41 anos, mãe do Marcello #aos20 e do Lucca #aos12. Pedagoga por formação, educadora por vocação, empreendedora por opção e uma eterna apaixonada por toda forma de desenvolvimento humano. A paixão pelo mundo fitness surgiu depois de uma depressão e hoje, o estilo de vida saudável contagia sua vida na família, nos negócios e por onde vai. Não cozinha, não gosta das atividades “do lar”, mas vive a rotina da casa como qualquer outra “dona da casa” moderna que concilia mil e uma atividades e é feliz assim, sem culpa. Coach, mentora de pequenos negócios e autora do blog Lounge Empreendedor, não abre mão da academia todos os dias, seja as 5:00a.m. ou as 11:00p.m. No Facebook: LoungeEmpreendedor e no Instagram: @AninhaCoelho

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