Silêncio que cala. Silêncio que cura

“Tem dias que a gente vence o dia. Tem dias que o dia vence a gente”.

Um amigo* me escreveu isso um dia, uns 4 anos atrás. Conversava com ele durante a volta de uma viagem de trabalho em que havia sofrido uma situação de assédio e meu nível de stress havia atingido níveis inimagináveis. Fiquei com ela ecoando dentro de mim depois que nos despedimos. Nesse dia todo o meu desejo se resumia em poder chegar em casa e deitar em posição fetal, em silêncio. Desde então tenho essa frase como uma espécie de fechamento do dia. Na maioria deles ficamos no zero a zero.

Eu me lembrei disso porque, muitas vezes, quando uma pessoa atinge estados de muita angústia, falar a respeito, nomear este sentimento, pode ser ainda mais doloroso do que simplesmente calar.

O silêncio, em suas variadas formas, pode ser tão, ou até mais, terapêutico do que falar a respeito do problema que aflige, em determinados momentos.

Existem alguns tipos de silêncio:

– tem aquele que silencia o mundo em volta, para que a voz interna possa ser ouvida. Este deveria ser sempre o companheiro e guia, uma vez que só quem pode saber mais da pessoa é ela mesma.

– Tem aquele que silencia o mundo fora e o mundo interno também. Este é o que faz com que as forças sejam poupadas enquanto a bateria recarrega, e que deve-se fazer uso quando o cansaço atinge níveis extremos e o simples pensar pode exigir um gasto de energia absurdo, quanto mais falar, explicar, pedir ajuda. É nesta modalidade que dá vontade de voltar pra posição fetal e ficar lá esperando passar todo o cansaço e angústia.

– E tem ainda um terceiro tipo (meu preferido), que é o silenciar junto. Sabe aquele momento que tudo o que se precisa é de alguém do lado, um abraço apertado, nenhum dizer, apenas “estar junto”? Esse é o melhor e mais terapêutico de todos (na minha opinião). É também o mais difícil de encontrar. (Por que será?)

No geral, quando estamos com alguma questão por resolver, até os menos próximos querem trazer alguma solução. Isso não acontece por mal, não. Apenas não estamos acostumados a ele.

Silêncio é algo que incomoda. Desde muito cedo aprendemos que há algo de errado nele e vamos logo interrompendo com qualquer pergunta, qualquer comentário (existe coisa mais incômoda do que estar com outra, ou outras, pessoa e ninguém fala nada?).

Mas ele é tão necessário pro nosso crescimento e fortalecimento! Por isso sugiro, a cada um que passar por aqui, que experimentar ficar em silêncio por uns instantes. Seja pra descansar de um dia “que o venceu”, seja pra tentar se conectar consigo mesmo, seja para apenas estar para si mesmo ou para o outro. Garanto que depois desses instantes, você estará se sentindo muito melhor e mais forte. O silêncio não é só algo que cala. Nele também existe cura!

*Quem me disse isso foi o Sean R. White, Psicólogo e Coach, e um dos meus melhores amigos!

**As imagens deste post são do Pixabay

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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2 Replies to “Silêncio que cala. Silêncio que cura”

  1. Nivia, adorei seu post! Eu prezo demais o silêncio! Nos raros momentos em q tenho a casa so pra mim, ou se estou trabalhando só, gosto demais de deixar tudo desligado… sem tv ou musica. Eu e meu silêncio. E nos momentos de stress e dias pesados, corro pro banho… é onde consigo ficar comigo mesma até me refazer. Tb me lembrei dos momentos que busco meu filho na escola, normalmente a gente volta conversando e tem dias que ele não está a fim. Ao invés de encher de perguntas sobre “o que vc tem”, pergunto se está tudo bem e então o deixo com seus pensamentos durante todo o trajeto.

    1. Eu também sempre amei o silêncio Vivi, sempre tive meus momentos de introspecção e os de esvaziamento, mas depois q nasce filho, nossa, que bem mais precioso o silêncio! Que bom q gostou do texto, adorei vc comentar, obrigada!

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