Quando o passado encontra o presente

Você já teve um sonho impossível de realizar, mas que por uma reviravolta da vida, ele acontece?

Sempre penso na vida como uma colcha de retalhos. Cada fato, cada aprendizado, cada sonho realizado, cada sonho abandonado, são como pequenos retalhos que vão sendo costurados um a um e dando forma ao que somos. E as combinações podem ser muitas! E pode ser que alguma estampa não fique bacana e precise ser retirada, mudada, talvez ajustada. E assim vamos vivendo!

Eu tinha seis anos e tinha acabado de entrar na escola, no “prézinho”, como se falava lá na minha cidade. Minha sala ficava no mesmo corredor da diretoria e dos banheiros. Na sala tinha aquelas mesinhas pequenas com cadeirinhas e eram amarelas. Eu amava a minha professora! E amava cada colorido dos desenhos e cada verso de cada musiquinha que eu aprendia todos os dias.

No corredor de trás, bem atrás da minha sala, ficava o 4° ano. Eram os mais velhos da escola e eles foram crescendo junto com ela (no ano seguinte eles formaram a primeira quinta série desta escola).

Um dia, que deve ter sido lá pelo segundo semestre, ouço uma turma de vozes ensaiando. Não consigo lembrar se saímos da sala pra assistir ou se eu vi da janela, mas o coral da escola estava ensaiando. Eu me lembro de alguns rostos, todos vizinhos do 4° ano. Eles cantavam o Hino à Independência e a voz “grossa” dos meninos cantava “ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil” e a voz “fina” das meninas fazia uma segunda voz com “ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil”.

Eu fiquei encantada! Quis cantar também! Queria fazer parte daquilo de qualquer maneira! E tentei, por vários anos, em vão. Cresci, esqueci.

Há dois domingos eu participei do encontro de Corais da EMIA. Estou participando do Coral de Pais e Mães e, enquanto eu aguardava para me apresentar, olhei Luiza lá no fundo, assistindo à orquestra, que se apresentou antes de nós.

A imagem dela lá no fundo, como platéia, deu um nó na minha cabeça. A EMIA é uma escola para crianças e ela é aluna regular de lá, não eu. Ela é a criança, não eu. E mais, ela é bailarina, já perdi as contas de quantas vezes eu me ocupei de conferir a meia-calça e preparar o lencinho pra morrer de chorar enquanto meus sonhos mais doces encontram a plenitude nos seus pés delicados.

Mas, espera! Não era uma mulher adulta ali nos bastidores, não. Talvez em corpo, mas quem cantou foi aquela menininha de seis anos que ouvia o coral da escola e se emocionava. E sonhava… (eu conto melhor essa história aqui). E foi uma coisa doida, foi como se, depois de muito tempo, eu pudesse costurar um retalho que faltava, fechando um quadro que eu nem sabia que ainda tinha alguma importância pra mim.

Agora, costurando tudo isso, num momento da minha vida em que me encontro em pleno crescimento, resgatando coisas que haviam sido deixadas de lado, tirando da gaveta projetos e sonhos, dos mais recentes aos mais antigos, é que percebo que há algum tempo venho falando desses sonhos de outrora. Teve um dia que eu escrevi sobre me encontrar com a criança que eu fui um dia (aqui). E teve um outro dia que eu descobri que, de todos os sonhos, cantar era um (secreto) que ainda morava em mim, não nesse formato de coral. de um outro jeito (eu contei mais ou menos isso aqui). O que eu nunca poderia ter imaginado, é que o “futuro” me reservava esse encontro meu com todas as crianças da minha vida: a que fui, a que ainda mora em mim, a que foi lá me assistir e que me devolveu uma vida inteira de novo e que brinca com os meus sonhos mais secretos tornando tudo possível, se não comigo, com ela. E ainda uma outra, que me assistiu com olhos atentos e apaixonados, sorriso largo.

Quis compartilhar esse meu momento porque, assim como o próprio momento, eu venho juntando esses retalhos aqui mesmo, no blog. É como se estivesse faltando o último capítulo, o desfecho. Agora não falta mais.

E você, que me lê, tem algum sonho perdido e que ainda faz sentido pra você? Vale a pena lutar por ele? Onde ele está guardado? Corre lá, tira o pó e as “teias de aranha” de cima dele. Deixa ele respirar!!!! Penso que, por ter feito este movimento, de deixar sair de dentro de mim todas essas histórias passadas, o universo se encarregou de dar uma forcinha pra fazer disso algo real. Imagino que, se isso aconteceu comigo, deve ter mais gente no mundo que guarde sonhos (ainda) possíveis.

Em tempo: cantar virou um tipo de terapia pra mim. A EMIA está de férias agora, mas eu sigo “espantando meus males” com muita música, na espera pelo retorno das aulas. E foi bacana ver que eu não sou a única do grupo que travou uma batalha interna pra seguir em frente e encarar uma plateia inteira e se apresentar. Além de realizar um sonho que eu nem sabia que ainda tinha, ganhei um grupo lindo, de mulheres, e um rapaz, incríveis, reunidos em torno de uma professora maravilhosa que não nos dá a menor chance de sequer pensar em desistir. Estou apaixonada pela turma toda, feliz por Deus me permitir esse encontro lindo e rico!

Se você não sabe o que é a EMIA, eu falei dela aqui.

*As imagens são do Pixabay

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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