“Erótica é a Alma”

Tenho pensado muito sobre as mudanças no corpo e em como a passagem do tempo tem o poder de gravar nele cada pedaço de nossa história. E o mesmo tempo tem me feito compreender quanta poesia há em admirar as marcas do tempo, tão odiadas em outros momentos, mas que hoje me faz lembrar de cada desafio. Alguns tão difíceis de compreender, mas sempre com uma nova e linda lição a ser aprendida.

Na última semana de junho, depois de uma semana que eu considero ter sido a mais pesada do ano (filho doente, noites completas em claro, compromissos que não puderam ser adiados nem cancelados), eu sofri um acidente doméstico, destes bem estúpidos, mas que vai me render mais uma cicatriz no rosto. Eu já tenho uma, resultado de uma cirurgia pra retirada de um cisto. Na hora, depois do susto inicial (eu brinco que um prato suicida tentou se matar atirando-se do armário, mas por (in)felicidade dele, encontrou meu nariz no caminho e não quebrou) só conseguia pensar assim “justo no rosto, de novo!”. Mas era muito mais um misto de cansaço e frustração por uma semana tensa que, mesmo “lutando” muito, tudo o que fiz foi apagar incêndio. E isso fez abalar uma autoconfiança construída com muito empenho ao longo de 40 anos muito bem vividos. Mas como auto estima, autoconfiança e amor próprio, quando bem trabalhados, pode até balançar no vento, mas não “enverga”, no dia seguinte o sol voltou a nascer e eu achei é graça da história. Mais uma pro meu “livro” de memórias.

Hoje, logo na primeira hora, minha amiga de longuíssima data Emilene Bueno (leia-se 35 anos), mulher “porreta”, mãe do Henrique, Psicóloga maravilhosa, Professora Universitária com direito a ser Patronesse e Nome de Turma, enviou um texto lindíssimo no nosso grupo de “Mulheres Super Poderosas” (minhas amigas de infância e adolescência). E junto com os dizeres: “Texto do livro* “Erótica é a alma”, de Adélia Prado, para todas nós, que amadurecemos lindamente sem rugas na alma!”.

E como ela disse que era pra ler e repassar, pedi a ela a permissão pra trazer pra cá. É destes textos pra gente ter impresso na bolsa para reler sempre que um “prato voa do armário direto pro nariz”, trazendo qualquer tipo de sentimento intruso e inoportuno. Segue, para ler, repassar, guardar e reler:

“Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar. Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores. Aprenda: bisturi algum Vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.”

Foto de acervo pessoal, feita no último sábado, numa viagem em família

*Procurei a referência do livro, mas não encontrei. Se alguém tiver, envia pra mim por favor, para que eu possa colocar os créditos aqui.

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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