Será que a chegada de um filho pode gerar crise no relacionamento?

Vez ou outra, tanto na minha vida pessoal, quanto na vida profissional, ouço queixas e pedidos de conselho, ou de ajuda, a respeito das crises por que passam um casal.

Nos últimos tempos tenho ouvido essas queixas das mães puérperas que tenho acolhido. É como se a chegada de um filho fosse um grande desencadeador de conflitos no casal. Acho natural que isso aconteça, afinal, um filho provoca muitas rupturas e destaca uma necessidade nova de se construir, a partir de sua chegada, outra configuração de existência dessa família. Assim, o relacionamento também entra nesse pacote e, muitas vezes, precisa ser re-significado para continuar existindo.

É como se um filho tivesse o poder de nos jogar, sem dó, no chão da mais pura realidade e nos obrigasse a olhar para nós mesmos e para o outro na completude de cada um, coisas boas e não tão boas, sem filtros.

Alfredo Simonetti, em seu “O Nó e o Laço”, diz que as pessoas casam porque estão apaixonadas, mas o que desperta a paixão são pequenas coisas, “um detalhe do jeito da pessoa nos captura num enlaçamento vertiginoso”. E completa: “encantamo-nos com um detalhe da pessoa, mas casamos com a pessoa inteira, com todas as suas partes de que não gostamos, e às vezes nem conhecemos” (Simonetti, 2009).

Assim, se passamos todo o tempo do relacionamento iludidos pela possibilidade de estar apenas com aquilo que encanta, ou ainda no desejo de que o outro mude e possa caber naquele ideal sonhado, diante da chegada de um filho tudo isso cai por terra.

Eu costumo brincar que nós temos o mau hábito de desenhar nosso par ideal, o príncipe, ou a princesa, e às vezes passamos a vida tentando fazer aquela pessoa caber na forma desse ser perfeito e ilusório. O que acontece é que todo mundo tem sua porção sapo, então nunca essa matemática será exata. Pode caber um braço, metade do corpo, ou até quase um corpo inteiro, mas é bem provável que pelo menos um pedaço de orelha fique de fora (risos). O grande lance é que enquanto tentamos enquadrar, ou “enformar” o outro, isso também nos impede de enxergar quem é de fato essa pessoa e que tantas outras qualidades ela tem, tão ou mais bacanas do que aquilo que foi idealizado.

Mas, voltando nesse choque de realidade que pode ser provocado pela maternidade, principalmente nos primeiros dois anos, em que o cuidado com o bebê segue num ritmo muito intenso, todas as diferenças, de educação, princípios, crenças, condutas, podem ficar muito escancaradas e exigir novos acordos e caminhos para que o casal consiga se entender neste novo papel e entre eles. E, olha, tempo, paciência, tolerância e o desejo de seguir juntos, são grandes aliados nesse processo. E a conversa! Simonetti diz que o amor é sempre a três: ele, ela e a palavra.

Fui em um casamento uma vez em que o padre aconselhou os noivos a nunca deixarem um problema ir pra cama com eles, à noite, e a sempre renovarem o desejo de seguirem juntos na caminhada, todas as manhãs.

Eu e meu marido estamos juntos há mais de 17 anos e amanhã comemoramos 14 anos de casamento. Temos dois filhos na barra da calça e eu perdi a conta de quantos ajustes tivemos de fazer para chegar até aqui. É fato que fracassamos no primeiro conselho do padre, que nem foi dado a nós, mas seguimos a risca o segundo. E vivemos momentos em que uma boa conversa com a cabeça já no travesseiro deu conta. E outros que precisaram de algumas noites de travesseiro no meio pra resolver. E outros tantos que só o tempo ajudou a acalmar e passar de fase. Teve vezes que a gente precisou de ajuda pra fazer a conversa fluir e lançar luz naquilo que não conseguíamos enxergar, e outras vezes que o silêncio foi o grande companheiro.

Não há uma fórmula, um segredo. Estamos sempre em movimento, em construção.

Se eu puder dar um conselho a quem, hoje, está vivendo uma crise e não sabe bem como dar conta dela, eu diria para ter um pouco de paciência e buscar ajuda se as coisas andam nebulosas. Especialmente depois dos filhos, o relacionamento encontra outras nuances e o tempo é sempre sábio para dizer onde moram as soluções. Tem gente que passa por isso numa boa, mas se esse não é o seu caso, existe sim luz no fim do túnel, mas a escuridão faz parte do caminho e precisa ser trilhado também. É assim que a gente cresce, muda, fica melhor. Os relacionamentos também!

O livro que eu cito é este: “O Nó e o Laço: Desafios de Um Relacionamento Amoroso“, de Alfredo Simonetti, que é Psiquiatra, Psicólogo e Psicanalista. Eu gostei tanto do livro que talvez dedique um post só falando dele. É daqueles livros que a gente, enquanto lê, tem vontade de ficar fotografando partes pra mandar pras amigas. Confesso que preciso reler, já que essa leitura eu fiz antes de engravidar pela segunda vez. Talvez eu descubra coisas novas ou até faça críticas, mas por hora, gosto muito da forma como ele descreve o casamento.

 

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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