Com que idade surge a empatia? #ComOsRefugiados

Comecei este Dia Mundial do Refugiado – celebrado mundialmente em 20 de junho –  lendo um artigo interessante sobre a psicologia da equidade que demonstrava, entre outras coisas, que o ser humano desenvolve o senso de justiça a partir dos quatro anos.

Isso mesmo. Ainda pequenas as crianças desenvolvem espontaneamente um senso de justiça e aversão à injustiça seria natural nos seres humanos, mas a “aversão à injustiça em vantagem” só aparece aos oito anos e, vejam só, depende drasticamente do ambiente cultural.

Quem diz isso são cientistas responsáveis pelo primeiro estudo multicultural sobre o desenvolvimento do senso de justiça nas crianças. Os psicólogos e antropólogos Peter Blake, da Universidade de Boston; Katherine McAuliffe, de Yale e Harvard, e seus colegas de Salk Lake City, Columbia Britânica e Nova Escócia, no Canadá, e Dakar Fann, no Senegal, apresentam a pesquisa na revista Nature.

Foram analisadas 1.732 crianças de 4 a 15 anos de idade em sete sociedades: Canadá (falantes de inglês de Antigonish, católicos), Índia (falantes de telugu de Andhra Pradesh, hinduístas), México (falantes de maia de Xculoc, católicos), Peru (falantes de espanhol de San Pedro de Saño, católicos), Senegal (falantes de wolof de Dakar, muçulmanos), Uganda (falantes de rutooro do Fort Portal, católicos e anglicanos) e Estados Unidos (falantes de inglês de Boston, protestantes e católicos).

Eles explicaram o senso de justiça depende de dois parâmetros.

O parâmetro chave, muito consolidado na psicologia experimental, chama-se “aversão à injustiça” (inequity aversion), e é medido em dois tipos de experimento. No primeiro, um dos dois meninos (ou duas meninas, sem misturar os sexos) tem que aceitar ou recusar uma distribuição de recompensas obviamente injusta para ela. Por exemplo, um recebe uma maçã, e o outro quatro. Se recusar, evita a injustiça, mas perde sua maçã. Essa prova mede a “aversão à injustiça em desvantagem”. E esse é o parâmetro que se desenvolve espontaneamente nas crianças de quatro anos, e em todas as sociedades.

O segundo experimento mede a “aversão à injustiça em vantagem”. Neste caso, uma criança recebe quatro maçãs, e a outra uma. Se recusar, recusa uma situação injusta para a outra, ainda que signifique perder suas quatro maçãs. Este é um grau superior, aparentemente altruísta, de aversão à injustiça. Só se desenvolve por volta dos oito anos e é mais frequente nas sociedades ocidentais (Canadá e Estados Unidos), mas também em Uganda. As crianças da Índia, México, Peru e Senegal não desenvolvem esta característica. 

Os cientistas enfatizam que é preciso esclarecer que os dois testes não quantificam o egoísmo e o altruísmo.

Na realidade, ambas representam uma aversão à injustiça, e têm um sentido evolutivo nas espécies sociais. A aversão à injustiça em desvantagem (a que se desenvolve aos quatro anos em todas as sociedades) implica um custo imediato (perde sua única maçã), mas contribui com benefícios a longo prazo: manda a outros o sinal de que não está disposto a tolerar abusos similares. E além disso impede que o outro obtenha benefícios excessivos. É um característica que compartilhamos com primatas não humanos e outras espécies sociais.

Trago este tema para pensarmos: como podemos estimular e criar uma cultura de empatia nos nossos filhos desde cedo?

Só criar o hábito de “doar brinquedos sem uso” ou colocar moedinhas para doação em cofrinhos de projetos sociais nos caixas de compras não faz isso. Conviver com pessoas diferentes ajuda? Sim, creio que ajuda, as viagens servem muito para isso e conviver em ambientes diferentes (fora dos nossos guetos sociais, do “clube, igreja, shopping, escola particular”) também ajudam. Mas podemos fazer mais mostrando a realidade das crianças em outros lugares e enfatizando nossa humanidade em comum. 

Minha filha de 4 anos tem uma “sorte” fora do comum: a madrinha dela é autora de um livro sobre Turismo de Empatia (no qual a pequena é citada) e os padrinhos estiveram num campo de refugiados no Oriente Médio. Há dois anos este tema tem sido importante para eles e os projetos que surgem do livro e do trabalho com crianças refugiadas cresceu muito porque eles mudaram para os EUA e o projeto cresce por lá.

Turismo de empatia – ou a história da menina que sonha em conhecer o mundo que quer mudar e melhorar

Mesmo sem projetos assim, tão próximos, você pode incentivar seus filhos a verem o mundo de um jeito mais amplo.

Ensinar uma criança a ter empatia envolve ensiná-la a se preocupar com os sentimentos dos outros e a enxergar as situações através das perspectivas de outras pessoas. A empatia é uma característica complexa para se ensinar à uma criança, mas, com os exemplos e o incentivo apropriado, ela poderá ser desenvolvida ao longo do tempo.

O poder da empatia – ou sobre a arte de viver em sociedade

 

Veja como incentivar a empatia:

  1. Dê um nome aos seus sentimentos. Quando você estiver com raiva, ou vir alguém que esteja com raiva, fale para seu filho e explique como você sabe identificar este sentimento — através do tom de voz, de expressões faciais, etc. Faça a mesma coisa para a felicidade, tristeza, surpresa, ciúmes e quaisquer outras emoções em que você puder pensar. Aproveite todas as oportunidades para chamar a atenção do seu filho para diferentes emoções. Por exemplo, se você vir alguém sentado sozinho e parecendo triste, diga ao filho: “Esse homem parece triste, sentado sozinho no banco do parque. Ele deve ser uma pessoa solitária”.
  2. Elogie seu filho quando ele demonstrar empatia. Dê atenção especial ao comportamento dele se eles demonstrar empatia fazendo uma boa ação para alguém. Diga algo como: “Que bacana da sua parte, compartilhar seus brinquedos com seu amiguinho. Isso deixou ele feliz. Eu vi que ele estava rindo.” Recompensar seu filho pelo comportamento empático poderá ajudá-lo a desenvolver um senso natural de empatia.
  3. Desenvolva o senso moral do seu filho. Explique a ele como seu mau comportamento afeta outras pessoas. Por exemplo, explique que, quando ele não compartilha seus brinquedos, seus amigos se sentem tristes. Ou fale pra ele que quando ele é malvado ou atrevido com a irmã dele, você sente raiva. Compreender as consequências de suas ações e perceber como o comportamento dele pode ter um impacto negativo sobre alguém ajudará seu filho a se colocar no lugar das outras pessoas e a tornar-se mais empático.
  4. Pergunte ao seu filho sobre o que os outros pensam ou sentem. Se ele testemunhar algo ruim acontecendo com outra pessoa, pergunte como ele acha que essa pessoa se sente. Por exemplo, se seu filho vir outra criança derrubando seu sorvete, pergunte: “Como você se sentiria se isso acontecesse com você?”.
  5. Incentive seu filho a fazer afirmações na primeira pessoa. Explique a ele que, quando algo o incomodar, ele deverá expressar claramente como se sente, ao invés de colocar a culpa em alguém. Por exemplo, ao invés de dizer, “você quebrou meu brinquedo!”, incentive-o a dizer “eu estou triste e desapontado, porque você quebrou meu brinquedo”. Isto ajuda a criança a identificar seus próprios sentimentos e permite que ela se comunique melhor com os outros.
  6. Ajude seu filho a desenvolver um sentimento de preocupação. Grande parte do sentimento de empatia está em demonstrar preocupação com as outras pessoas, então você deve tentar desenvolver este instinto em seu filho. Por exemplo, se ele mencionar que alguém em sua classe está faltando às aulas, faça perguntas sobre isto. Pergunte a ele: “Por que essa criança está faltando? Ela está doente?”. Você pode pedir ao seu filho para fazer um cartão de “melhoras” para seu coleguinha doente e ajudá-lo a entregar o cartão ou a colocá-lo no correio. Atividades como esta ensinarão seu filho a demonstrar carinho e interesse pelas outras pessoas.

Você tem outras dicas? Conte para nós! Comente no post ou mande sua história para maescomfilhos@gmail.com.

Agora sobre a campanha #ComOsRefugiados, a petição que tem como objetivo construir uma empatia pública, apoiar aos refugiados e pedir aos governos que atuem com responsabilidade compartilhada em prol das pessoas que foram obrigadas a deixar seus lugares. O Dia Mundial do Refugiado é uma oportunidade para celebrar a força, a coragem e a perseverança das pessoas que foram forçadas a deixar suas casas e seus países por causa de guerras, perseguições e violações de direitos humanos.

Saiba mais no post do @avidaquer.

De onde eu vim não existe mais #ComOsRefugiados

 

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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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