Alergia x Intolerância e a importância do leite ao longo da vida – um bate papo com a Dra Ana Escobar.

Hoje logo cedo uma querida comentou comigo sobre um possível diagnóstico de APLV e eu me lembrei que eu e a Sam participamos de um bate-papo muito bacana com a Pediatra Dra Ana Escobar, oferecido pelo pessoal da Associação Brasileira de Leite Longa Vida e o Programa “Leite faz seu tipo”.

Foi uma conversa bem específica e na ocasião a Dra Ana nos contou sobre como a preocupação com leite acompanha todos nós desde o nascimento e nos segue vida afora. Sendo nós seres mamíferos, foi encontrada uma maneira de continuarmos tomando leite mesmo depois de crescidos. Este é o único alimento que ingerimos desde o nascimento até a morte. Os nutrientes encontrados no mesmo atuam de maneira significativa ao longo de desenvolvimento, entre eles o cálcio , responsável pela boa formação dos ossos durante as fases de crescimento, assim como prevenção à osteoporose na idade adulta. Sendo o leite um alimento rico em nutrientes, o leite de vaca tornou-se um alimento a mais que vem sendo consumido pelas pessoas.

Dra Ana respondeu a diversas questões sobre o nosso metabolismo e a ingestão de leite e alguns pontos merecem destaque, eu nunca tinha ouvido uma explicação tão didática a respeito da diferenciação entre intolerância à lactose e alergia à proteína do leite, dois distúrbios que são facilmente confundidos.

Intolerância acontece da seguinte forma: nas dobras do intestino existe uma enzima chamada lactase, que é a responsável por digerir o açúcar do leite, a lactose. O organismo do intolerante não tem essa enzima ou a tem em pequena quantidade, assim este nutriente acaba não sendo metabolizado da maneira correta. Este açúcar será digerido pelas bactérias que existem normalmente no nosso intestino, a nossa macrobiota. O que acontece é que neste processo há a liberação de muitos gases, causando extremo incômodo ao intolerante.

Nas alergias o processo é totalmente outro, e bem mais grave em muitos casos. Ocorre que nos alimentos existem proteínas, como no leite, que entram em nosso sangue e por alguma razão, o nosso organismo entende que são invasores e podem nos causar algum mal, como acontece com vírus e bactérias. Para combater esses invasores, anticorpos são produzidos e passam a atacar essas proteínas, causando reações desagradáveis, que podem variar desde coisas simples como aquelas pintinhas vermelhinhas na pele, até reações graves como o fechamento de glote, que é uma estrutura presente na laringe e que permite a entrada de ar nos pulmões, exigindo ação imediata pois pode ter consequências graves e até letais.

Hoje em dia é bem comum bebês e crianças serem diagnosticadas com alergia alimentar. Dra Ana explicou também que os processos alérgicos podem acontecer em qualquer fase da vida, assim uma criança alérgica pode deixar de ser ao longo do tempo, pois seu organismo “entendeu” que aquela proteína não é nociva, assim como um adulto que antes não reagia a determinados agentes, pode vir a reagir porque seu organismo deixa de “reconhecer” como algo bom e passa a enxergar como nocivo. Assim ouvimos muitas histórias de bebês que eram APLV (sigla usada para “alergia à proteína do leite de vaca”) e depois de dois, três, quatro anos, já podiam ingerir de tudo sem prejuízos.

Só pra ilustrar, como mãe de bebê APLV, oriento: nunca ofereça qualquer alimento a uma criança sem antes perguntar à mãe se pode. Pode ser que ela opte por não oferecer determinado alimento ao seu filho por questões pessoais, mas pode ser que isso se dê por questões de saúde também. De qualquer forma, pergunte pra mãe antes, é gentil e pode evitar problemas graves.

Dra Ana também respondeu a outras questões:

– Melhor ofertar leite de vaca ou leite artificial a um bebê que precisa de alimentação complementar ou que por alguma razão não está sendo amamentado pela mãe?

O leite da mãe é do melhor tipo pro seu filho por muito tempo em sua vida.
O leite materno é sem dúvida alguma o melhor alimento pro bebê humano. Recomenda-se, seja amamentado por dois anos ou mais, os benefícios são inúmeros, tanto do ponto de vista nutricional quanto emocional manter a amamentação de um bebê de maneira prolongada. Mas, se por alguma razão a mãe precisa de ajuda na nutrição do seu filho, a indústria pegou o leite da vaca, que é adequado às necessidades nutricionais do seu filhote, o bezerro, olhou sua composição e transformou para que se adequasse às necessidades de um bebê. Sendo assim, o leite artificial é o mais adequado do que o leite na sua composição natural.

 

– Leites vegetais substituem o leite?

Ela explicou que convencionou-se chamar de leite normalmente pela semelhança na cor, o branco, mas que os leites vegetais possuem propriedades inerentes ao vegetal usado na produção (leite de aveia tem as propriedades da aveia).  Logo não vão suprir da mesma forma que o leite as necessidades diárias de cálcio, por exemplo, lembrando que o mesmo pode ser obtido na ingestão de outros alimentos, como as verduras de cor verde escuro.

– Quanto de leite é necessário ingerir para suprir as necessidades diárias de cálcio para um bebê, um adolescente em fase de estirão e um adulto?

Um bebê, após o primeiro ano, já pode ingerir o leite de vaca como o conhecemos, aquele que vende na padaria. Se ele não está mais sendo amamentado, em torno de 600ml de leite ao dia supre suas necessidades até os dois anos.

Para adultos, dois copos de leite são suficientes, junto a uma alimentação saudável e colorida.

Na adolescência, em fase de crescimento, aumenta-se a necessidade de ingestão de nutrientes, entre eles o cálcio. Sendo assim, três copos de leite ao dia são muito bem vindos.

Mais adiante, próximo à menopausa, o leite também pode ser um importante aliado na prevenção da osteoporose.

– Mas e o leite de soja? É verdade essa história de que o leite de soja é cheio de hormônios femininos e a ingestão dele pode causar puberdade precoce nas meninas e até características femininas nos meninos?

Dra Ana esclareceu que criou-se o mito do leite de soja porque a molécula da soja tem um formato muito parecido com o do estrogênio, hormônio sexual feminino responsável por determinar todas as características femininas e por controlar o processo de ovulação e preparação do útero para a reprodução. Ela explicou que para cada molécula de hormônio produzida, há um receptor compatível para que o transporte e utilização do mesmo pelo organismo seja eficiente. As moléculas da soja são muito parecidas, mas não iguais, por isso elas não conseguem se ligar. O que ocorre é que na menopausa há uma diminuição significativa na produção desse hormônio, uma vez que a fase reprodutiva da mulher chegou ao fim. Assim seus receptores ficam sem os equivalentes. Na ingestão de soja, a proteína pode vir a se ligar ao receptor de estrogênio, “fazendo de contas que nada mudou”, o que pode ajudar nos incômodos que ocorrem durante a fase de climatério, mas a Dra Ana afirma que, apesar dos relatos positivos, a ciência mesmo ainda não tem ainda um parecer conclusivo a respeito.

E pra finalizar, a Dra Ana diz que se temos o leite como um alimento rico em nutrientes e que pode nos ajudar na manutenção de nossa saúde, por que não consumir, não é mesmo?

Foi um bate papo muito rico e muito bacana, nós adoramos.

Uma curiosidade: sobre a epidemia de deficiência de vitamina D na população de São Paulo, a Dra Ana deu uma explicação que eu nunca tinha ouvido, mas que pra mim fez muito sentido. Vivemos numa cidade que tem uma “capa” de poluição na atmosfera, logo o sol que chega até nós não tem a mesma eficiência que o sol em outras regiões menos poluídas, por isso nossos organismos nem sempre conseguem sintetizar toda a vitamina D que precisamos. Essa explicação dela me convenceu a fazer reposição ao invés de só me expor ao sol todos os dias, como tenho feito nos últimos anos.

 

  • As imagens deste post são do Pixabay

 

 

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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