Sabe aquela conversa sobre birras?

Acho boa parte das mães (e alguns pais também), até as mais informadas, já foram pegas pela ilusão da maternidade idealizada. Enxoval, quarto de revista, o sonho encantado de exibir por aí um bebezinho lindo e cheiroso, sendo levado por sua bela mãe, vestida num tubinho de arrasar, em cima de um salto agulha, cabelos e unhas impecáveis, não é mesmo? Ah, só que não!

Quem nunca viu uma cena de birra no supermercado (destas em que a criança se joga no chão e grita e chora) e olhou para a mãe com desaprovação, que atire a primeira pedra.  Ah, sim, já me escandalizei sendo só expectadora. Ah, sim, já protagonizei uma cena dessas. Costumava parar o carro no estacionamento de um mercado para levar Luiza no pediatra e, na volta da consulta, aproveitava para pegar frutas e leite. Ela devia ter perto de 3 anos, me ajudava lindamente a escolher e colocar as frutas no carrinho até que invocou de empurrar o mesmo pela lateral, o que se mostrou impossível. Para meu desespero, ficamos paradas numa única passagem e logo atrás de nós se formou uma fila de senhoras distintas (aquele momento em que você não sabe se corre para fora do mercado, chorando e gritando também, ou se pula pra dentro da cesta de laranjas pra se esconder). Segui em frente, firme, cabeça erguida, escolhi uma fila de caixa e lá fiquei, imóvel, como se não conhecesse aquela criança. Por dentro, o coração à mil querendo sair pela boca, um misto de vergonha e culpa, vontade de pegar e acolher misturado com uma outra vontade doida de perder a compostura e dar logos uns tapas no bumbum, como a minha mãe fazia quando era eu a birrenta. Permaneci imóvel. Ela desistiu. Veio se enroscar na minha perna pedindo desculpas e aquela cena horrorosa enfim terminou e eu saí vitoriosa dela. Consegui, enfim, não ceder a nenhuma de minhas vontades ou impulsos.

Fácil, né? Nem em sonho!

Antes de ser mãe, li muito sobre a maternidade em virtude de minha prática como Psicóloga, Psicoterapeuta e instrutora de cursos para gestantes. Algumas dicas me foram preciosas. Compartilhei-as muitas vezes, mas a conversa é bem mais profunda quando é você na pele de mãe.

Alguns livros orientam os pais a não reforçar comportamentos tidos como inadequados, ruins.  Eu concordo em partes, mas também olho com cautela. Tais comportamentos podem ser a expressão de que essa criança está buscando saber qual é seu lugar nesta família e neste mundo (como assim?). Fui buscar nos meus antigos livros os argumentos que me fazem pensar assim, e eis que encontro logo no prefácio de um deles, “Descobrindo Crianças” de Violet Oaklander, o argumento de que, ao escrever o mesmo, Barry Stevens (quem prefaciou o livro) pensou que o livro interessaria aos adultos que convivem com crianças, mas sem incluir as “as pessoas de quem o livro trata”, elas próprias. Ou seja, muito se fala em como lidar com as crianças , mas pouco se fala COM elas. Li em outro livro, “Manual para Crianças com Pais-problema”, de Jeanne Van Den Brouck, em que o argumento é de que os filhos é que devem educar os pais e não contrário, que são elas que ensinam aos pais como são e do que gostam e que estes deveriam prestar mais a atenção ao que os filhos contam/mostram sobre si mesmos. Mas como os pais insistem em tomar a frente desse processo e fazer do seu jeito, a coisa se embola toda.

Trocando em miúdos, a maternidade segue mais tranquila quando nos ocupamos de tentar entender e conhecer melhor quem é esse filho que a vida nos trouxe, sem tentar coloca-lo dentro daquilo que é nosso, os nossos sonhos, nossas expectativas. (Arrisco-me a dizer que esse pode ser o segredo do sucesso de qualquer relacionamento, mas é tema para um outro post.)

Às vezes isso é bem difícil, afinal, quem não sonha e quem não quer ter seus sonhos realizados, não é mesmo? Acho que é bem aqui que os pais se perdem. Enquanto tenta-se enxergar a criança ideal, não há espaço para enxergar a criança maravilhosa que se mostra, com suas peculiaridades, com aquilo que lhe é próprio e que faz com ela seja única no mundo (e seja nossa!).

Mas onde fica a birra nesse papo aí? Felizmente as crianças sabem gritar!!! Digo felizmente porque penso sempre que essa criança vai crescer e vai virar um adulto sozinho nesse mundo confuso em que vivemos, então gritar, ou, reivindicar direitos, atenção, espaço, pode ser sim coisa muito boa, questão de sobrevivência até.

Mas, porque ela grita com a mãe e o pai, pessoas que a amam e estão ali quase que com exclusividade para atendê-la? É aqui que entra a expectativa. Partimos da ideia de que sempre sabemos o que é o melhor, mas esquecemos de perguntar. Aí as pessoas vão dizer assim: “mas eu tenho que fazer tudo o que o meu filho quer?” Claro que não, não mesmo! E pra mim aqui começa a dura tarefa da maternidade/paternidade,  a parte muito, muito, muito difícil: saber dosar quando atender e quando dizer não. E insistir nos nãos tão necessários. (Como é exaustivo esse processo!).

No fundo é simples: se eu não posso deixar que a criança faça o que quer, também não posso exigir que ela faça apenas o que eu quero. Nossos filhos são seres separados de nós e vieram ao mundo para seguir sua própria vida. Compreender isso, acredito, é o primeiro passo para entender que nosso papel é construir um relacionamento com esse outro ser humano, baseado no respeito e na compreensão mútua.

Desde muito pequenas as crianças são capazes de sentir e apreender o mundo à sua volta e o fazem com uma desenvoltura melhor que qualquer adulto. Cabe a nós estarmos atentos para conhecer quem é esse filho, como é o seu funcionamento, o seu jeitinho, e respeitar suas peculiaridades, aquilo que é só dele. E esse processo será mais tranquilo se investirmos também em autoconhecimento (filhos são espelhos de nós e uma boa oportunidade de nos olharmos com mais cuidado).

Assim, como proceder para identificar as causas e lidar com a birra?

Sabe aquele checklist que a gente faz para tentar adivinhar a razão do choro no bebê? Acho que pode ser algo do tipo.

Começou a birra, o que pode estar por trás dela? Fome? Cansaço? Necessidade de atenção? Desejo de carinho e acolhimento?

As crianças também são mestras em testar nossos limites. Lembra do meu relato lá em cima? Pois bem, minha filha chorou insistentemente até se convencer de que eu não cederia, como se estivesse medindo forças comigo, do tipo ‘eu choro mais, vamos ver até onde você aguenta me ignorar’. Não é fácil esse processo, porque, além de lidar com a situação em si, precisamos lidar com os nossos sentimentos e limites. Vale lembrar que as crianças, especialmente as menores, nem sempre trazem consigo a intenção consciente de fazer isso, não fazem de propósito, de caso pensado, como pode parecer aos olhos do adulto.

O que pode acontecer muitas vezes é que as crianças não conhecem os próprios limites e nem sempre conseguem lidar com suas emoções, fazendo a situação fugir do controle. Entender que sentimentos podem estar envolvidos no momento pode ajudar a não deixar chegar a este ponto.

Usando o exemplo lá de cima: minha filha queria empurrar o carrinho de compras pela lateral e, como não conseguiu, ficou irritada. Aí decidiu que eu a deveria ajudar, como não o fiz, seus sentimentos de frustração e irritação cresceram. Minhas tentativas de explicar que aquilo não era possível fracassaram e minha irritação e frustração foram crescendo também, além do meu desejo de querer dar fim àquela situação, já que me sentia envergonhada em perceber os olhares de reprovação à minha volta (oi? Ninguém aqui tem teto de vidro?).

Eu poderia agir de diversas maneiras: gritando de volta, pegando a força e tirando de lá, enfim. Eu respirei fundo, olhei à minha volta para me certificar de que ela não correria nenhum risco e saí do lugar, ordenando a mim mesma que eu não reagisse, que apenas respirasse. (E junto com isso veio também a fala interna que repetia dentro de mim que eu não era a primeira mãe do mundo a viver aquilo, nem a última. E que, como ninguém ali pagaria minhas contas, eu era livre para tomar as atitudes que achasse cabível e julgamento algum deveria me afetar).

Bom, funcionou. Mas vai sempre funcionar assim? O que percebo de fundamental neste dia foi ter conseguido identificar principalmente minhas reações e contê-las, já que as decisões ali deveriam ser tomadas por mim.

Depois da situação terminada, vale ter uma conversa a respeito do que aconteceu, o que não foi legal, como resolver da próxima vez, mas nunca no calor das coisas acontecendo. Quando estamos sob forte emoção é difícil processar qualquer informação.

E eu costumo reconhecer e também pedir desculpas se fui eu que agi com impaciência, afinal, o que não é certo para ela, também não é certo para mim.

Algumas medidas podem ser tomadas na tentativa de evitar que as situações cheguem a extremos. Uma dica é combinar antes quais são as regras e dizer o que vai acontecer. E se algo sair do esperado, as tais regras podem ser o auxílio na hora do resgate. Ao retomá-las, deixamos claro que todos deveriam ter respeitado as mesmas.

E como estabelecer regras? Vale consultar quais são os valores da família, suas crenças, a forma como cada uma acredita que as coisas devam acontecer. E vale também observar as regras de convivência, dos lugares que serão frequentados, do lugar onde se vive, as leis, as normas, que concessões podem ser feitas, se isso é uma possibilidade. E agir com coerência. Por exemplo: minha filha aprendeu na escola que só podia comer o brigadeiro depois do parabéns (imagino que pras professoras essa regra era essencial). Então seguimos assim, cuidando para que, ao menos nas festas dela, todos respeitassem isso. E se alguém transgredisse, era advertido. Pode parecer bobo, mas esse princípio de compreensão dela sobre respeito aos combinados foi dando a ela as ferramentas para tornar-se cidadã.

Minha dica: criança fez birra? Procure entender o que se passa. Olhe nos olhos do seu filho e tente alcançar o coração dele, porque nem sempre ele vai saber falar (na maioria das vezes). Não achou nada? Olhe para o seu coração. Às vezes a própria insatisfação e cansaço podem estar extrapolando os limites do seu corpo e as crianças são sensíveis às nossas mudanças de humor (sabe aquele dia em que estamos mais cansadas e sem paciência e a gente diz assim “parece que adivinha”? pois é, adivinha mesmo, ou melhor, eles sentem que algo não vai bem). Acredito que vale a pena abrir o jogo e explicar que naquele dia o cansaço está maior, mas o amor é o mesmo, só a vontade de brincar que está menor. (Minha filha, pequenina, já se ofereceu para me fazer dormir).

Liste as regras que precisam ser cumpridas, crie as suas regras. São mesmo necessárias? Siga firme, não ceda, você está ajudando seu filho a lidar com os limites e as possibilidades, isso será essencial no futuro dele.

E se houverem reinvindicações? Procure ouvir, ainda que não concorde, e negociar se for possível. Tente estabelecer parcerias. Aos poucos, alguns limites vão se tornando naturais, e as negociações, desnecessárias.

Às vezes dá vontade de desistir? Acho que não é opção, então nutra-se daquele sorriso diário que faz qualquer mãe e pai desmontar e se sentir a pessoa mais feliz do mundo e siga em frente, dizendo muitos nãos para o bem, muitos sins quando for possível. Olhe para o seu filho, enxergue-o como ele é, como ele veio. Pergunte do que ele gosta, dê opções para que ele escolha, respeite essas escolhas se elas não fizerem mal, mesmo que sejam contrárias ao seu desejo. Pare para ouvir seu filho, ele deve dizer coisas incríveis. Se não puder ouvir, explique o porquê, as crianças sabem ser muito solidárias e no fundo, o que elas querem quando fazem birra ou se comportam mal, é fazer parte da nossa vida.

Veja também nosso papo em setembro de 2014 sobre o tema:

Os livros que citei:

OAKLANDER, Violet. Descobrindo Crianças: abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo: Summus, 1980.

VAN DEN BROUCK, Jeanne. Manual para Crianças com Pais-problema. Ed. Marco Zero, 1984. (Sem reedição, só encontrado em sebos).

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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