Filhos e a conquista de sua autonomia: para refletir

Dias atrás eu postei em nosso perfil do Instagram uma mensagem que sugeria a importância de criarmos nossos filhos de modo que eles sejam mais auto-suficientes, inclusive na hora de conversar com outras pessoas e receber delas opiniões ou elogios, mesmo na nossa frente, com o nosso aval. Acho que a imagem que eu usei para levar a mensagem adiante não foi muito “atrativa”, mas a reflexão é importante e por isso volto a falar sobre isso. Conheço muitas crianças e adolescentes que são inteligentíssimos, educados e observadores ao extremo, mas que quando são confrontados “em terreno seguro” por adultos, mesmo conhecidos, se fecham como ostras e não desenvolvem conversa alguma. Alguns chegam a parecer “bichinhos do mato” como diriam lá no interior onde eu nasci.

E é quando essa falta de habilidade para conversar, aceitar elogios ou expor sua opinião acaba não sendo trabalhada, por negligência ou falta de percepção dos responsáveis que, possivelmente, teremos adultos muito tímidos ou com “àquela falta de tato”, de traquejo social que ajuda muito no relacionamento de qualquer pessoa, em qualquer esfera.

Quando eu menciono essa falta de habilidade, na minha percepção de comunicadora, logo surgem lembranças de adultos que eu conheço há tantos anos que me permitem referenciar essa infância em que só se falava quando os pais deixavam ou, pasmem, meneavam a cabeça à distancia, consentindo que a criança respondesse ao que lhe foi oferecido ou peguntado. Essa relação de controle dos pais e submissão dos filhos é comum e segue para uma vertente de análise psicológica que eu não domino, mas ela é real e deve ser observada com atenção. Crianças que ao receberem uma oferta (por exemplo, um suco ou um doce) e que ficam sem reação ou imediatamente olham para os pais para saber o que devem responder, precisam ser motivadas a ter mais autonomia e iniciativa.

Ainda na primeira infância, é muito comum e seguro ter essa relação com os filhos porque eles não tem conhecimento o suficiente para saber o que aceitar ou não de estranhos ou mesmo sobre o que deve ser respondido, caso a pergunta ou oferta fuja um pouco do seu contexto. Mas mesmo nessa etapa, devemos orientar, explicar e guiar nossos filhos para que saibam agradecer e recusar ou aceitar e agradecer, mesmo sem que pai/mãe estejam do lado para “falar por eles”. Esse hábito de “fazer pelo filho”, tirá-lhe a oportunidade de contar se gosta ou não, se tem interesse ou não, acaba por tolher a oportunidade da criança se expressar.

Pensando nisso, lembrei de um caso em que eu chegava à frente do filho de uma amiga e dizia “Oi”, porém a criança não me respondia. Seus olhos sorriam pra mim – sabem como é isso? – mas ele nada falava. Muitas vezes a mãe dizia: ” – fala oi, fulano. Ah, hoje ele está tímido”. Então eu investi nesse relacionamento, fazendo um positivo com as mãos num encontro, dando um beijo na testa em outros e até ajoelhando-me no chão para dar àquele oi num contato mais olho-no-olho. A reação sempre era a mesma e a mãe nem percebia, continuando a conversar. Algum tempo depois, tive a chance de estar sozinha com aquele menino e ele desandou a falar. Conversamos de tudo e ele me contou sobre colegas, desenhos favoritos, uma piada, o que havia comido e afins. Quando a mãe se aproximou, calou-se e continuamos assim. Como a mãe é uma pessoa ótima, dedicada, boa cidadã e até bastante perfeccionista, entendi que ela fala por ele.

Superproteção

Se nós podemos cuidar de nossas crias nos mínimos detalhes, por que não fazê-lo? Se podemos dedicar horas agradáveis ou minutos preciosos, mas verdadeiros, em atividades que lhes são prazerosas e vão render memórias-base, por que não? Se podemos leva-los e buscá-los nos compromissos, proteger e zelar por sua integridade física, saúde, educação… Claro que o faremos.

Mas como pais precisamos nos policiar para não tirar deles a oportunidade de crescer, a contento, no tempo certo. Bem figurativamente, não devemos amarrar os sapatos se eles já tem idade para fazer isso por si só. Nem apontar os lápis do seu estojo de 12/24/36 cores se eles mesmos podem fazer isso. Apostilas, cadernos e agenda na mochila então, cada criança pode checar seu próprio material e colocá-lo na mochila que carinhosamente os responsáveis compraram e com frequência a lavam para estar sempre impecável. Vale dar a dica e incentivar a criança. Mostrar o caminho!

Queremos filhos que se tornarão independentes, seguros, confiantes, equilibrados e felizes! Vale refletir hoje para colhermos amanhã.

Numa esfera que acolhe a rotina de crianças bem pequenas, mas seguindo essa reflexão que estou propondo, achei um artigo da revista Crescer, que lista 10 dicas relacionadas à superproteção praticada por pais amorosos, mas que não deveriam acontecer. Transcrevo abaixo:

1. Evitar que a criança pequena tenha contato com o chão, colocando-a sempre em um cercadinho.

2. Não permitir que realize atividades para as quais já tem capacidade, como comer sozinha ou usar o banheiro.

3. Dizer que não é capaz, não sabe fazer ou fez mal feito.

4. Em caso de conflito com um colega na escola, conversar diretamente com a direção ou os pais, sem antes orientar o filho a tentar resolver o mal entendido.

5. Realizar tarefas por ele, em caso de dificuldade, em vez de oferecer suporte e permitir que persista até conseguir.

6. Carregar a mochila da escola para ele.

7. Proibir acesso às tecnologias sem apostar no diálogo e no monitoramento.

8. Responder pela criança quando um adulto lhe dirige a palavra.

9. Não cobrar responsabilidade.

10. Encobrir fracassos e evitar que assuma as consequências. Ou justificar erros, como se o filho fosse sempre a vítima, sem apontar-lhe responsabilidades. 

 

Por hoje, acho que essa reflexão é boa pra todos nós. Seguimos juntas para fazer de nossos filhos pessoas melhores e sabem, lembro aqui algo que costumo dizer para as amigas próximas: vale querer bem ao filho de outros, tanto quando queremos bem aos nossos próprios filhos. Uma boa semente para o vizinho fará um jardim melhor para todos.

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Paranaense de coração, vivendo há 10 anos na conexão Rio/Niterói. Sou Relações Públicas, especialista em gestão de pessoas. Abraço a maternidade em tempo integral na minha jornada como mãe do @guri_feliz #aos9 e do @guri_valente #aos4. Fotógrafa nas horas livres e paparazzi dos filhos, também amo cinema, sou muito fã da cultura pop, quadrinhos e seriados de TV. Com Caio e Vicente inventamos muito #lazercomfilhos e artes de um modo geral! E se sobra tempo, a gente se joga nas viagens...

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One Reply to “Filhos e a conquista de sua autonomia: para refletir”

  1. Ti, adorei seu texto e penso que as crianças tem suas vontades desejos e sabem se expressar, em alguns casos, muito melhor do que os adultos. Sempre ensinei os meus a serem independentes, mostrar seus gostos, dizer quando algo lhe agrada ou não, fui uma criança que só tinha permissão de falar com a autorização dos meus pais, fui rebelde, ficava de castigo e apanhava. Mas aquilo me ensinou que, eu não poderia jamais ensinar uma criança a ser daquela forma, que um ser humano estaria ali, com vontade ou não de fazer algo. Eles são autônomos nas escolhas, as vezes a timidez acontece, um embaraço para falar, uma confusão para se expressar, uma briga na escola, então a autonomia para resolver seus próprios problemas aparece, caso não consigam, me procuram como um suporte, mas jamais para resolver a sua própria questão. Partilho da sua ideia com muito carinho, excelente texto de reflexão.

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