Ela só está brincando…

De 21 a 28 de maio, acontece a Semana Mundial do Brincar e neste ano o tema é “O Brincar que Encanta o Tempo”. 

Pensando em brincar e pensando no tempo, me vejo fazendo uma viagem a lugares tão distantes e tão próximos, minha memória entrou em modo acelerado de funcionamento. Segue abaixo o que consegui resgatar pra trazer aqui, pra estas linhas escritas:

“Ela (a criança) não está fazendo nada, só está brincando”.

Minha professora de Psicologia do Desenvolvimento sempre usava este exemplo para dizer que as pessoas não entendem o brincar como algo importante e acabam replicando a ideia de que brincar é “fazer nada”. No entanto, a história não é bem assim, não.

Eu diria que ela, a criança, quando brinca, está cumprindo uma jornada extensa de aprendizado sobre si mesma, sobre as coisas que a cercam, sobre o mundo que a abriga. E se isso é “fazer nada”, nossa, que nada complexo” (risos).

No brincar a criança tem a possibilidade de simbolizar e apreender, internalizar todas as relações que está construindo desde que nasce. E esse processo começa ainda no bebê, quando ele se lança a perceber seu próprio corpo, numa primeira interação com o mundo para além do útero e do peito na amamentação.

E conforme o bebê cresce, este interagir vai ganhando novos elementos internos e externos, num ballet sincronizado entre maturidade e aprendizagem. Explico: se você colocar um bebê de 2 ou 3 meses sentadinho, certamente ele vai cair pro lado. Assim, dar a ele um brinquedo ou propor uma atividade que exija esta posição para acontecer, não terá seu objetivo atingido porque ele ainda não está pronto para isso. E essa sincronicidade segue pela vida afora. Não é sem razão que determinados conteúdos do ensino formal são oferecidos de acordo com a idade e não respeitar isso pode atropelar todo o processo de aprendizagem.

Mas voltemos ao brincar.

Lembro-me da emoção que senti quando meu sobrinho mais velho, mais ou menos com a idade que o meu caçula tem hoje, entre 18 e 24 meses, protagonizou a primeira cena de ‘fantasia’ na minha frente. Eu, uma estudante de Psicologia do primeiro ano, encantada pelas fases do desenvolvimento, fascinada em descobrir que cada loucura minha tinha um propósito (explico isso mais adiante).

Ele brincava com gravetos no quintal da casa da minha mãe. Estava lá entretido, mexendo os tais palitinhos, quando de repente começou a gritar, horrorizado: “fogo, fogo, a ‘buxa’, a ‘buxa’ (bruxa)”. Fiquei paralisada de emoção. No auge da aquisição da fala, ele me mostrava que já era capaz de criar um universo próprio, paralelo, para lidar com suas primeiras questões que já não seriam mais resolvidas buscando apenas o colo e o peito da mãe. A bruxa e o fogo eram elementos que simbolizavam o seu medo e na batalha que ele travou com seus gravetos (em que eles assumiam essas formas), seu medo foi enfrentado e vencido e ele seguiu brincando tranquilo depois disso.

Minha professora também fazia uma crítica severa aos brinquedos “de hoje em dia”, isso há mais de 20 anos (abafa essa parte rsrs). Ela dizia que eles já vem brincados, tirando toda a possibilidade da criança criar sua própria brincadeira (ela se referia a esses brinquedos muito elaborados, boneca que fala, carrinho que anda). E que quando o “menino tira as rodas do carrinho para ver como funciona, vem alguém e diz que ele não sabe brincar. Ou que custou caro e ele está estragando” (essa fala é dela, talvez até exatamente com esta palavras).

Esse relato sempre me lembrava que eu quis muito uma boneca à pilha. Na minha época de criança tinha uma que andava até à cavalo, mas era caríssima. Mas estas aulas me fizeram enxergar a beleza da minha infância com recursos financeiros apenas para o essencial (brinquedo caríssimo não entra nesta lista). Uma vizinha tinha essa boneca, mas ela não podia brincar. Ficava na caixa guardada, dentro do guarda-roupas. Nós íamos lá “fuçar” quando a mãe saía, com muito cuidado, pra ela não perceber depois. Quando me lembro disso, agradeço a Deus a bronca que levei de largar minha boneca “Primavera” que chorava, debaixo da laranjeira. A bronca veio mais pelo fato dela ter sido dada pela madrinha, mas em nenhum momento me foi exigido que fosse lá resgatá-la de lá(era a casa dela poxa!).

Hoje eu sou testemunha desse aprender brincando na observação e interação com meus filhos, cada um à sua maneira. Luiza, agora com 8 anos, nunca foi de desmontar os brinquedos, elas os explorava das mais diversas formas sendo cuidadosa porque é uma característica dela. Talvez seja escritora no futuro (quem sabe). Tudo o que as mãozinhas pequenas dela tocavam, virava personagem de alguma história, isso desde muito pequena. E até hoje. O Guilherme não era dos brinquedos até um ano e dois meses mais ou menos. De perfil explorador, o negócio dele era empurrar minhas vassouras e escalar coisas. Depois se interessou pelas minhas panelas e pelos brinquedos. Agora que está um pouco mais velho, um ano e nove meses, seu espirito aventureiro junta tudo e cria brincadeiras muito divertidas. É capaz de passar horas fazendo “suco de vitamina de manana”. E também cozinha “arroz, fizão, caininha, batata” e vem me dar na boca, as vezes com os pratinhos da Luiza, às vezes com os utensílios que ele “importa” da minha cozinha. Aos poucos a concretude das coisas vai dando lugar à criatividade. Por exemplo, ele usa um liquidificador feito por ele com dois potes de pipoca.

E é uma diversão só observar o tempo de cada um e a forma como cada fase interpreta a brincadeira pra si mesmo.

No domingo nós construímos um fogão usando como base uma caixa de papelão. Os dois brincaram juntos com uma destas cozinhas de plástico na casa de uma amiga minha. Já tinham brincado outras vezes, mas neste dia aconteceu um encontro nem sempre comum entre eles, a diferença de idade é muita, 6 anos. Vieram embora muito bravos, os dois. Luiza pediu uma daquelas de presente, ela já teve uma, mas que foi doada há muito tempo porque ela mudou de fase. Eu prometi, no carro ainda, que faria um fogãozinho se a gente tivesse uma caixa de papelão em casa. No dia não tinha, então eu fiz um microondas com uma caixinha de isopor. E confesso, fui ver uma de plástico pra comprar, mas achei muito caro, não estamos num momento que dê pra comprar tudo o que dá vontade. E também estamos numa fase de dar a ela uma educação financeira, já que está crescendo e em algum momento ela terá de assumir sua própria vida.

Aí trouxe uma caixa pra casa que esperou pacientemente eu ter tempo de me lançar na “empreitada”. Eu e Luiza cortamos e colamos. O Adriano (o papai) me ajudou a encapar com papel pardo, criando um espaço em que pudessem desenhar(eu queria pintar, mas o dia estava muito frio pra mexer com tinta, considerando que o pequeno estava dormindo durante boa parte da tarefa, mas ia acordar e querer se lambuzar de tinta também). Luiza fez os retoques finais. Brinquedo pronto. Ela se satisfez em construir (pro irmão, como ela mesma disse) e nós duas ficamos admirando a beleza da nossa obra. Ele acordou e foi lá fazer o quê? Apreender, absorver, internalizar aquilo que de repente apareceu na sua frente. Tentou de diversas formas “desconstruir” o coitado do fogão. Eu o salvei o quanto consegui. Até dei outra caixa pra ele entrar dentro, Luiza estava frustradíssima com a possibilidade do irmão destruir tudo no primeiro minuto. Até que num segundo de distração nossa, ele arrancou o puxador do forno. A partir daí ele se apropriou do brinquedo e foi nos preparar um delicioso jantar. Ou seja, cada um na sua fase do desenvolvimento, interagiu com o seu repertório e grau de maturidade, com as muitas possibilidades que encontramos naquela caixa (eu também, não só como mãe, como a criança que ainda habita em mim).

Agora, voltando nas minhas próprias loucuras, como citei ali no início, eu parei de brincar (concretamente) muito cedo. Com 11 anos eu já era uma moça, acredito que em consequência de ser uma criança no meio de adolescentes e adultos (minhas irmãs e irmão são bem mais velhos). Mas mentalmente eu segui criando mundos paralelos até os meus 25, 26 anos (talvez?). O que é o brincar, senão o criar e simbolizar o mundo real dentro de um mundo imaginário onde tudo é possível? Eu diria que do brincar tiramos a capacidade de sonhar. E por sonhar muito, sonhar demais, que eu estou aqui hoje, escrevendo este texto.

Então, se você ouvir alguém dizer que uma criança não está fazendo nada porque está brincando, faz um favor, diz pra ela que neste nada, mora o “tudo”!

Nota: a professora a quem me refiro é a Profa Dra Maria Inês Laranjeira.

Nota 2: as fotos são de arquivo pessoal, mas a fotógrafa se desculpa pela qualidade, muita emoção no momento rsrs.

O @maecomfilhos é apoiador oficial da Semana Mundial do Brincar 2017. Quer apoiar também? Basta se envolver em ações que permitam a união de pessoas de idades e culturas diferentes do brincar livre e tratado como um fim em si mesmo, sob todas as formas. E, sobretudo, garantir que o brincar tome conta de espaços públicos e privados, instituições, escolas, ruas e famílias. A inspiração para 2017 é o tema “O Brincar que Encanta o Tempo”.
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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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