Brincar ou ter aulas? O que é mais importante na Educação Infantil?

Imagine uma escola na qual na maior parte do tempo as crianças fiquem no no parquinho, no pátio, na biblioteca e na quadra. Em vez de assistir às aulas sentadas em carteiras, formem rodas no chão e aprendem correndo e passeando pelo ambiente escolar.

Alguns diriam:

– E eu vou pagar para meu filho brincar?

Outros se preocupariam:

– E se ele ficar defasado, não aprender as coisas que precisa para a idade?

E tem gente (como eu) que pensa:

– Sonho com este lugar para minha filha!

Mas a verdade é que estou com a minoria. E bota minoria!

Uma pesquisa encomendada pela marca OMO mostrou que 51% dos pais brasileiros consideram os trabalhos escolares mais importantes do que o brincar para o sucesso das crianças. O levantamento foi feito com 12 mil pessoas em dez países, entre 2016 e 2017.

Por que eu gosto da ideia mesmo sendo “contra a maré”?

Vejam meus motivos:

  1. esse tipo de proposta pedagógica segue a recomendação de especialistas em educação e saúde que defendem a brincadeira como fundamental e principal forma de desenvolvimento na infância
  2. esse modelo pedagógico adianta o que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Estou falando daquele documento que definirá o que as escolas devem ensinar em cada série, coloca como “eixo estruturante” para as aulas na educação infantil (crianças de 0 aos 6 anos), que é justamente o brincar e as interações
  3. essa é a fase de maior curiosidade e temos de aproveitar todos os momentos, como quando a criança brinca no parquinho, cientes de que está em contato com conteúdos de ciências, matemática, geografia
  4. se o professor aproveita os momentos para instigar o aprendizado formal e estimular habilidades sociais, emocionais e motoras, tudo dá certo na “aula” como entendemos atualmente (a da sala de aula)

Agora é bom contar: apesar de definir o brincar como um dos eixos dessa etapa, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê que o processo de alfabetização se inicie já na educação infantil e até 5 anos e 11 meses os alunos devem, por exemplo, ser capazes de fazer “registros de palavras e textos, por meio da escrita espontânea”.

Segundo a BNCC, três grupos de faixas etárias, que correspondem, aproximadamente, às possibilidades de aprendizagem e às características do desenvolvimento das crianças:

Direitos de aprendizagem da educação infantil:

  • Conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas.
  • Brincar de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), de forma a ampliar e diversificar suas possibilidades de acesso a produções culturais. A participação e as transformações introduzidas pelas crianças nas brincadeiras devem ser valorizadas, tendo em vista o estímulo ao desenvolvimento de seus conhecimentos, sua imaginação, criatividade, experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais.
  • Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando.
  • Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia.
  • Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens.
  • Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário.

 

Ficou curioso? É possível baixar o PDF aqui para conferir tudo da Educação Infantil.

Veja como a educação infantil se tornou uma regra no Brasil:

  • A expressão educação “pré-escolar”, utilizada no Brasil até a década de 1980, expressava o entendimento de que a Educação Infantil era uma etapa anterior, independente e preparatória para a escolari- zação, que só teria seu começo no Ensino Fundamental. Situava-se, portanto, fora da educação formal.
  • Com a Constituição Federal de 1988, o atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a 6 anos de idade torna-se dever do Estado.
  • Posteriormente, com a promulgação da LDB, em 1996, a Educação Infantil passa a ser parte integrante da Educação Básica, situando-se no mesmo patamar que o Ensino Fundamental e o Ensino Médio.
  • E a partir da modificação introduzida na LDB em 2006, que antecipou o acesso ao Ensino Fundamental para os 6 anos de idade, a Educação Infantil passa a atender a faixa etária de zero a 5 anos.
  • Entretanto, embora reconhecida como direito de todas as crianças e dever do Estado, a Educação Infantil passa a ser obrigatória para as crianças de 4 e 5 anos apenas com a Emenda Constitucional no 59/2009, que determina a obrigatoriedade da Educação Básica dos 4 aos 17 anos.
  • Essa extensão da obrigatoriedade foi incluída na LDB em 2013, consagrando plenamente a obrigatoriedade de matrícula de todas as crianças de 4 e 5 anos em instituições de Educação Infantil.
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Divulguei este post no meu perfil do Facebook e gerou um papo tão legal com professoras amigas que trago para cá:

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O @maecomfilhos é apoiador oficial da Semana Mundial do Brincar 2017. Quer apoiar também? Basta se envolver em ações que permitam a união de pessoas de idades e culturas diferentes do brincar livre e tratado como um fim em si mesmo, sob todas as formas. E, sobretudo, garantir que o brincar tome conta de espaços públicos e privados, instituições, escolas, ruas e famílias. A inspiração para 2017 é o tema “O Brincar que Encanta o Tempo”. 
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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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