10 princípios do Slow Kids

Já falei aqui e em diversos outros lugares sobre o “slow movement”* e sou uma das defensoras dele há mais de uma década, concordando com quem diz que é um movimento do homem retomando o protagonista da sua vida, do seu dia, se reconectando com a natureza e respeitando seus ciclos. Eu o conheci com o slow food, quando meus filhos mais velhos ainda eram pequeninos e foi um aprendizado me acalmar para poder criar um clima calmo para eles.

Entendo a iniciativa como um convite para uma postura geral, que deve começar com os pais, na rotina, no cotidiano, nas escolhas.

Depois disso, o movimento se espalhou pela moda com o slow design e, felizmente, chegou à criação dos filhos com o slow kids ou slow parenting.

Mas, vejam só, precisei decidir tirar minha filha da escola (sim, o post de outro dia sobre brincar na escola era sobre isso!) e entrar num grupo de Desescolarização para ouvir uma coisa que me fez rever tudo:

Sam, vc realmente acredita q precisa planejar tanto a vida e o desenvolvimento de uma pessoinha de quatro anos?

Puxa, eu definitivamente não acredito! Mas a gente vai no condicionamento. Nos primeiros dias com Manu em homeschooling eu repeti atividades da agenda dela na escola. Peguei as folhas que ela não tinha feito (um dos motivos de tirar da escola é que ela estava indo apenas 50% dos dias) e fizemos juntas. Daí as folhas acabaram e eu não me animei (ainda) a buscar as apostilas e livros (que custaram tão caro e foram motivos para eu duvidar do sentido daquela “forçação de barra” para uma criança tão pequena) e comecei a criar coisas nossas.

Se brincamos de dinossauro, depois desenhamos ou pintamos dinos. Montamos alguns com massinhas. Conversamos sobre carnívoros, herbívoros, carnívoros. Daí cozinhamos. Depois olhamos no mapa para ver onde cada um deles morava. Lemos livros sobre o tema quando dá vontade. E se não dá vontade, deixamos no chão e pensamos sobre os dinossauros, viajamos em histórias inventadas, olhamos as nuvens no céu (até num apartamento a gente vê o céu pela janela) e imaginamos com quais eles parecem. E assim um conteúdo puxa o outro.

Mas este assunto da Manu em casa, sem escola, ainda vai render muita coisa… não é à toa que justamente na Semana Mundial do Brincar eu acabei contando dessa escolha por aqui. Temos muito para brincar e aprender livremente!

No meu cotidiano, mesclo essa filosofia com a da Criação com apego, pois creio que não adianta forçamos as crianças a desacelerarem solitariamente, precisamos estar juntos neste caminho para dar sentido ao tempo que dedicaremos uns aos outros.

Quer entrar nesta?

(Foto de Gabby Orcutt, Unsplash)

Veja abaixo 10 princípios do Slow Kids:

  • Desligar todo tipo de tecnologia por pelo menos 1 hora por dia. Não só porque temos que regular o tempo de tela de todo mundo, mas porque nos dá a chance de olharmos nos olhos e trocarmos afeto verdadeiro.
  • Serem pais e deixarem de tentar ser mais um amigo do seu filho. Ser companheiro e ter afinidade é uma coisa, ser cúmplice em comportamentos que não são bons é outra.
  • Cultivar a habilidade de observar seus filhos e outras crianças, sendo realmente atento nessas observações, percebendo as diferenças das várias idades.
  • Ter consciência de que o lar é a primeira escola e os pais, os primeiros professores. Entender e internalizar os valores e a importância do seu papel na vida do seu filho.
  • Lembrar que o trabalho de uma criança é brincar – e não se preparar para tudo que virá no futuro, com muitos cursos e agenda lotada para aproveitar pretensas aptidões ou deficiências.
  • Você deu a vida, mas você não é a vida do seu filho. A gente se engana achando que é coadjuvante, mas na verdade somos meras testemunhas do milagre da vida deles acontecendo. Aceite seu papel de tutor, mas não queira viver a vida dele, nem viver por ele a sua vida.
  • Poder dizer não. Estabeleça limites claros, combinados, justos e não recue sem um bom motivo que seja pelo bem de todos.
  • Menos é mais. A criatividade, muitas vezes, nasce do tédio e as boas ideias e lembranças divertidas surgem dos improvisos. Não ceda à tentação de dar tudo para seu filho, confie que ele pode ser feliz sendo mais e tendo menos.
  • Entenda, respeite e honre sua comunidade, dentro e fora de casa. Dê o exemplo, em palavras e atitudes, do papel social que o ser humano tem.
  • Aprenda a cultivar espaços silenciosos durante o dia e ter tempo para esvaziar a mente. Tenha tempo, acima de tudo, para serem sem objetivos nem objetos
* O precursor dessa ideia é o escritor e jornalista Carl Honoré, autor de dois livros que dão base para o movimento: “The Power of Slow” e “Under Pressure” (Sob Pressão, traduzido para o português).

 

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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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