Quando vem o palpite no lugar do apoio.

Parabéns, seu bebê nasceu! Todos estão felizes à sua volta e você também está. Tudo segue tranquilo, todos os fantasmas que podem tê-la acompanhado durante a gestação e o parto ficaram pra trás e daqui em diante, com o filho nos braços, tudo seguirá na mais perfeita sintonia, afinal você e seu filho são como uma unidade e estão nesse namoro gostoso há tempos, claro que vai dar tudo certo. Até a primeira mamada? O primeiro choro?

Toda mulher que se aventura pela maternidade,  torna-se uma coletividade. Se antes era possível viver sua vida livremente, de acordo com suas crenças e valores, sem se preocupar muito com o que os outros pensam ou dizem, com a chegada de um filho, parece que a vida toma outra direção.

É curioso observar como todos se voltam para aquela mulher que está grávida, ou que carrega um bebê. De repente, todos a notam e vem falar com ela. Muitas perguntas, muitos conselhos, muitas opiniões. E muitas vezes, pouca escuta, pouca empatia, pouco apoio.

 

Existe um tempo de adaptação, em que mãe e bebê estarão se conhecendo, se conectando fora da barriga, encontrando juntos uma forma de relacionar-se. É natural que ela se sinta insegura, que não compreenda de imediato todas os sinais de seu bebê, que se atrapalhe algumas vezes até pegar o jeito, enfim. Tudo o que uma mãe precisa neste tempo é de apoio com as questões práticas, acolhimento sem julgamentos de suas dúvidas e angústias e de paz, principalmente paz, pra se conectar com o bebê.

Mas…

Ela se torna o centro dos “bombardeios”. Todo mundo sempre sabe o que é o melhor pro bebê, de todos os lados. Os conselhos, palpites, opiniões, vem chegando de diversos lugares, em todas as horas, das mais propícias às mais impróprias. E se a mãe demonstra sua angústia e insegurança então, vira um prato cheio pra quem acredita que sabe o que é o melhor para aquele bebê e o que aquela mãe deve fazer.

Hoje em dia as mães fazem cursos de gestantes, leem livros de maternidade, seguem blogs, conversam com as amigas e os profissionais de saúde, mas diante do desafio, mesmo com todo o conhecimento, ela pode estar vulnerável, e a legião de palpites pode ter um efeito colateral muito ruim. Essa mãe pode começar a duvidar de si mesma, de sua capacidade de ser boa mãe, de cuidar bem de seu filho. Duvidar de que seu leite seja o suficiente pro bebê porque ele mama de hora em hora. porque ele não ganha um quilo por mês, mesmo tendo uma curva de crescimento ascendente e demonstre ser uma criança saudável. Coisas como “o filho do vizinho, do primo, daquela moça da televisão dorme a noite toda”, ou “olha que bebê gorducho”, ou ainda “mas vai mamar de novo? Acho que seu leite não está sustentando”, sendo ditas pra uma mulher que está vivendo a intensidade do seu puerpério, tentando se reconhecer na própria pele, pode minar sua autoconfiança e impedir que ela consiga acionar seus mecanismos mais profundos de conexão com este bebê.

Quantos relatos são ouvidos a respeito de mães que desejavam amamentar, mas foram vencidas por aquele choro que todos diziam que era fome e ela acabou acreditando mesmo que seu leite não era suficiente, quando na verdade os bebês choram porque é assim que se comunicam e sim, eles tem fome, mas estão também tentando se entender fora do útero, e o choro, muitas vezes é o pedido de acolhimento, de contato com aquilo que eles conhecem como seguro, o colo e o peito da mãe. E tantos outros sobre o desespero que é não dormir, não comer, não conseguir ir ao banheiro sem estar assombrada pelo choro, a dor de amamentar, o medo da balança. A lista é enorme! E assim as escolhas vão sendo feitas sem muita consciência, pautadas em crenças outras que não a da mãe.

O que pouca gente faz, mas deveria ser a regra, é perguntar pra nova mãe sobre o que ela sente, como ela está neste processo, do que ela precisa. E se ela mesma não souber responder, cabe apenas estar junto, dando colo e continência para que ela tenha meios de encontrar, dentro de si, que perguntas precisa fazer e que respostas ela irá encontrar.

Laura Gutman, em seu livro ” A Maternidade e o Encontro Com a Própria Sombra”, assim descreve:

“As necessidades da mãe puérpera têm a ver com a contenção afetiva, a aceitação de suas emoções e a confiança que podemos lhe oferecer para que se conecte com o que acontece com ela. Os conselhos carecem de sentido quando não guardam estreita relação com a história emocional de cada mulher.”

Ou seja, de nada adianta trazer uma informação qualquer, se ela não tem relação com a particularidade que se apresenta naquelas vidas. Mãe e bebê encontrarão um jeito de se entender e se o desejo é ajudar, informações de qualidade, apoio emocional, empatia, uma escuta sincera e desprovida de julgamentos, respeito pelos valores e crenças, podem fazer toda a diferença. Se você não sabe como fazer isso, mas ainda assim quer ajudar, tem questões práticas que podem ser resolvidas por qualquer pessoa. Mas, mesmo estas, pergunte antes, não custa nada e é respeitoso!

 

Nota: Ao pensar sobre este assunto, me lembrei de, na minha infância, ir visitar as vizinhas que tinham bebê. Lembro-me de encontrá-las sempre deitadas, de camisola, cumprindo seu “resguardo”. Minha mãe dizia que elas estavam de dieta*. Da minha lembrança, a impressão que eu tinha era de que ninguém se metia muito com o bebê, que todo o aparato se dava para dar condições desta mãe percorrer o caminho do entendimento com o filho que nasceu e com ela mesma neste novo papel.

Pensando em ilustrar o post, entrevistei a senhora Terezinha C. Gonçalves, a minha mãe, sobre essa coisa de “palpite” nos seus quatro puerpérios. E, para a minha surpresa, ela me respondeu que nunca ouviu um único palpite ou conselho. Que teve ajuda nos quatro pós-partos, mas sempre com as tarefas da casa, de seus bebês quem cuidou foi ela, seguindo seus instintos. Ela ainda me disse que gostaria que alguém a tivesse ensinado como fazer, porque até hoje ela não tem certeza se cuidou direito dos filhos, mas que ela foi seguindo seus sentimentos e assumindo os cuidados todos. Parece que deu certo (risos) e seu relato endossa a percepção de minhas lembranças. Ao menos para ela, o espaço de mergulho na maternidade, foi respeitado!

 

*Dieta: nome dado ao puerpério, o período de 40 dias após o parto, lá no interior de Minas, de onde eu venho.

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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