O que pensa e sente um bebê

Estreou um programa novo na TV sobre sono das crianças e desde então tenho lido o e ouvido diversos debates a respeito. A maioria condena o tal método, dizendo ser muita crueldade deixar um bebê chorando sem acolhimento. Também ouvi algumas pessoas dizendo ter usado e que o método funciona, por isso é válido.

Mas antes de entrar diretamente na polêmica,um quesito me chamou a atenção: parece haver um incômodo excessivo com relação ao choro do bebê, e por consequência, acaba faltando empatia com o mesmo.

Eu explico.

Bebês choram. Esta é a sua maneira de se comunicar. O grande desafio dos primeiros dias de maternidade é aprender a decifrar essa linguagem afim de atender às necessidades do bebê, o que nem sempre é fácil. Aqui nasce a necessidade de nomear este choro (é fome, é cólica, é fralda suja, é manha). E mais que isso, de encontrar uma forma de fazê-lo cessar. E quando isso não acontece, Deus do céu, como lidar?

Nem sempre é de dor, fome, sede, necessidade de higiene. É apenas choro que não se explica nos itens do check list habitual.

Ocorre-me que tem dias que nós, adultos, só conseguimos ter sentimentos estranhos, parece que nada está bom e tudo o que desejamos é um abraço silencioso, mais nada. Talvez os bebês tenham também estes momentos, de choro sem nome, inexplicável até para eles mesmos. E nenhuma tentativa de nomear e fazer parar, surte efeito. E assim vão surgindo as invenções que prometem dar conta de trazer “acalanto” e ajudar nesse processo difícil que é lidar com esse choro (chupeta, mamadeira, cadeirinha que vibra, balanço, paninhos, naninhas, bichinhos fofinhos, a lista é enorme!).

Por que caminhar sozinho se a gente pode ir junto?

 

Pensar sobre isso me fez lembrar de uma história que eu ouvi numa palestra sobre quartos montessorianos, ministrada pelo Gabriel Salomão, um especialista em Pedagogia Montessori. Era mais ou menos assim:

Imagine que você sofreu um acidente aéreo,mas por sorte você sobreviveu, caindo numa ilha perdida no meio do oceano. Ao abrir os olhos pela primeira vez você nota que não está só, mas você não consegue enxergar direito o que, ou quem, são suas companhias. Você não consegue falar e quando tenta, só consegue emitir sons estranhos. Seu corpo não te obedece mais, seus movimentos são difusos e você não consegue andar nem alcançar nada, nem pegar. Você sente medo, muito medo. Os dias vão passando e você percebe que aqueles seres ali presentes não te fazem mal. Pelo contrário, eles te mantém limpo, alimentado e aquecido. E ainda te dão carinho. Com o passar dos dias sua visão vai melhorando e você consegue ver que são seres humanos iguais a você e que estão ali pra cuidar de você até que se recupere e alcance a sua autonomia.

Ele usou essa história para explicar como um bebê se sente quando acaba de nascer, sem autonomia alguma, totalmente dependente nas suas necessidades mais básicas de sobrevivência, sem sequer compreender como seu pequeno corpo funciona.

Conforme cresce, ele vai ganhando novas habilidades e compreendendo a si mesmo, o funcionamento do seu corpo, sua existência no mundo, suas relações, mas este processo leva tempo. De início, sua única forma de comunicação diante das sensações que não compreende é o choro. E a forma dele se sentir seguro é no contato com a única coisa que ele conhece até aquele momento, o contato com o colo e o peito da mãe.

Quando usa-se de artifícios para fazer parar aquele choro, aos poucos ele vai sendo silenciado, o que não significa que o bebê aprendeu a ser independente e autônomo no manejo de suas emoções.

E quando nada resolve, entramos na polêmica citada lá no início do texto. É algo como “se nada resolve o choro, deixa chorar até que entenda que precisa parar de chorar”. Bom, esta prática é bem antiga e podemos vê-la ser reproduzida na famosa fala proferida por algumas avós/madrinhas/vizinhas “não pega senão vai acostumar no colo e aí você não faz mais nada”. Então não é num programa de TV que nasceu essa “sabedoria popular”. E é fato que isso funciona na prática, mas não é porque o bebê aprendeu a se acalmar sozinho. Ele aprende, na verdade, que não adianta chorar, se comunicar, pedir ajuda, ele não será atendido. Se vier a sentir qualquer desconforto, o qual ainda não saiba identificar, terá de se virar sozinho, já que não pode mais contar com o colo e o aconchego.

Existe uma teoria que explica este processo. Chama-se “Desamparo Aprendido”. O Psicólogo Martin Seligman fez um experimento em 1965 em que ele colocava cães em gaiolas onde eram emitidos choques sem que eles tivesse a possibilidade de fugir daquela situação aversiva. Numa segunda etapa do experimento ele repete os choques, mas os cães desta vez tem a possibilidade de se livrar deles. No entanto, como foram expostos a uma situação de incontrolabilidade e toda tentativa de fuga era frustrada, eles param de reagir e mesmo podendo sair, eles ficam ali, parados tomando choque, em situação de desamparo.

Não é difícil ver que este conceito é verdadeiro, podemos comprovar isso no nosso dia a dia, quando estamos diante de situações incontroláveis acabamos por simplesmente não lutar mais.

Os bebês precisam de acolhimento e segurança pra aprender a lidar, no início, com o próprio corpo e depois com o mundo. Essa fase é exaustiva, ficar sem dormir é algo enlouquecedor, mas tudo isso dura muito pouco tempo se levarmos em consideração que passamos a maior parte das nossas vidas sendo adultos.

Então você que está lendo este texto, quando se deparar com um bebê que chora, seja o seu ou qualquer outro bebê no mundo, pense em si mesmo e em quantas vezes você chorou sozinho, sem que ninguém te abraçasse. Quantas vezes você sentiu medo e não pôde compartilhar isto com ninguém porque o seu medo foi tratado como algo “menor” ou sem importância. Quantas vezes você se sentiu sozinho e abandonado e ficou por isso mesmo porque ninguém estava com tempo ou disponibilidade pra te acolher e te ouvir. Aí, tente colocar-se no lugar daquele bebê que sequer consegue se perceber indivíduo, tenho certeza de que será muito menos oneroso cuidar para que ele tenha seu choro acolhido, mesmo que ele não pare imediatamente de chorar. E tudo bem se não parar, afinal, existem bebês que choram muito, mas nenhum chora ininterruptamente até virar adulto, não é mesmo? Ter empatia é também ensinar sobre isso. O mundo precisa de empatia. Se negamos isso aos bebês na sua primeira fase de vida, como eles poderão praticar isso no futuro?

                   Existe coisa melhor que colo?

 

Nota 1: O programa ao qual me refiro no texto chama-se “Bons Sonhos” e passa no canal GNT. Para entender melhor a polêmica, eu assisti a dois episódios: um, com um bebê de 10 meses e outro com uma menina já de uns 5 anos. Nos dois episódios eram pais exaustos e perdidos, tentando entender o que é essa tal de maternidade/paternidade. Ainda que eu acredite que não se deva deixar nunca um bebê chorando sem acolhimento, eu acredito mais ainda que não se deve julgar a atitude de nenhum deles, afinal, cada sabe dos seus limites, até porque ficar ouvindo passivamente seu filho chorar também não é nada fácil.

Nota 2:  no episódio com a criança maior, minha percepção é de uma situação em que os limites e as regras estavam todas confusas, me dando a impressão de que o “dormir” era parte disso e não um problema em si. Claro que não é possível fazer uma leitura tão acertada apenas baseando-se em recortes como é mostrado num programa de TV, mas eu não achei as intervenções tão ruins assim. Inclusive as ações serviram também pra fazer a família se unir em volta de um objetivo e isso é uma coisa boa. No processo de criação de um filho, existe o momento em que colocar limites torna-se essencial. Esses limites são fundamentais no desenvolvimento, uma vez que são eles que vão dando a dimensão da própria individualidade e da relação com o mundo. E colocar limites e apontar o caminho é sim um sinal de amor. Viver na total permissividade também pode ser sentido como abandono (talvez este seja um tema para um post futuro).

Nota 3: eu assisti apenas a dois episódios e por isso talvez eu esteja falando besteira, mas achei a condução do programa tendenciosa. Não tive tempo de assistir aos outros, mas talvez eu ainda o faça pra ver se em algum deles foi escolhido qualquer um dos dois outros métodos, de menor dificuldade e resultado mais demorado, ou, trocando em miúdos, um método em que o acolhimento é incluído.

Nota 4: encontrei dois posts que explicam sobre o Desamparo aprendido de maneira simples, para quem quiser entender melhor, eles estão aqui e aqui.

Nota 5: embora o post não tenha nada a ver com a Pedagogia Montessoriana, afirmo que vale a pena conhecer. E vale muito a pena conhecer o Gabriel Salomão, ele é excelente e ouvir ele falar é uma delícia.  Aqui você encontra tudo sobre ele e sobre o seu trabalho.

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Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

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