Puerpério e a possibilidade de transformação

É preciso falar sobre puerpério. É preciso falar sobre maternidade real. Nos blogs maternos estes assuntos andam pipocando. E nos grupos, nas rodas de conversa, nos encontros virtuais e presenciais, até em bloco carnavalesco.

Julia e sua Alice –  carinho, amor, força e                                       presença.

É um período na vida da mulher que acabou de parir, marcado por muitas mudanças. O corpo já não carrega mais o bebê, mas não tem a forma física de antes. Os hormônios ficam alterados, provocando mudanças de humor, nem sempre fáceis de administrar. Aquele encantamento diante da grávida acaba sendo transferido para o bebê, o que confere certa invisibilidade à mulher, que antes era o centro das atenções. E há a insegurança de não saber ao certo como é que cuida, quem é esse filho que acabou de nascer, que necessidades ele tem, qual o melhor jeito de se entender com ele. Alguns fantasmas podem se instalar na vida da nova mãe. Acredita-se que amamentar é algo muito natural, mas na prática, o início pode não ser tão simples assim, já que o bebê nasce com o reflexo de sucção, mas precisa ser ensinado a mamar. E o choro que não vem com “tecla sap”, a falta de horas de sono ininterruptas, a falta de tempo para si mesma, pra pensar e assimilar toda essa novidade, a falta de apoio, de compreensão, o excesso de palpites e julgamentos, todo este “pacote” pode contribuir para que o puerpério vire um período obscuro, triste, de muita solidão e até desespero. E por mais que em todas as rodas maternas se entoe o mantra “vai passar”, para quem está mergulhada neste “mar sombrio”, parece que não vai passar nunca (quem viveu, sabe.).

O que ocorre é que a chegada de um filho provoca muitas rupturas. É um convite à desconstrução plena de quem se foi até este momento. A maternidade acaba colocando à prova tudo que se acreditava antes. É como se não existissem mais verdades. Ao longo da gestação é possível ler, conversar, buscar informações sobre todas as fases subsequentes, ouvir depoimentos. Mas nada consegue dar de fato a dimensão desta ruptura quanto “sentir na própria pele”. Cada indivíduo é único, e única é também a sua maneira de lidar com o que a vida lhe apresenta. Há mulheres que vivem o puerpério de maneira mais leve, e outras com maior sofrimento, mas em alguma medida, todas passam pelo processo de não se reconhecer mais como antes, de fundir-se e confundir-se com o bebê, colocando em “stand by” suas próprias necessidades, para atender às demandas do filho, que são muitas e acontecem o tempo todo.

Este processo abre portas para diversos questionamentos, como se a mãe perdesse-se de si mesma (“quem sou eu?” “o que eu faço?” “nossa, eu já almocei?” “ah, é, eu estava indo ao banheiro, mas esqueci de ir porque o bebê chorou”). Instala-se uma confusão interna e, por vezes, é difícil fazer valer seu desejo, lutar por suas convicções. E estas, nesta fase, podem se mostrar frágeis e sem sentido (um exemplo é a famosa frase “eu era boa mãe até ter filhos” – risos).

Grazi e sua Alice – Aprendizado. Tempo de viver, tempo de esperar, o senhor do tempo de cada coisa.

Por outro lado, o puerpério pode ser um grande convite à mudança. Se tudo de antes é posto à prova, esta  pode ser a oportunidade de reafirmar o que de fato faz sentido e de quebrar antigos paradigmas, na construção de uma nova identidade. Diante do nascimento de um filho, a mãe se vê exposta, refletida naquele ser pequenino, totalmente dependente dela e ela dele. Laura Gutman, em seu livro A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, assim descreve: “é como ter o coração aberto, com suas misérias, alegrias, inseguranças, com todas as situações que precisam ser resolvidas, com o que lhes falta compreender”. Ou seja, estar com um bebê nos braços pode dar início a uma grande viagem de autoconhecimento. É como se nessa fusão entre mãe e bebê, a mãe fosse despida por completo.

Imagine que uma nova casa precise ser construída no lugar de uma outra, mais antiga. Acontece que a nova arquitetura não se ajusta à antiga e por isso faz-se necessário tomar decisões que implique em uma grande reforma, talvez derrubando algumas, ou muitas, paredes. Pode ser que a velha casa precise mesmo ser derrubada e o terreno, limpo. Isso leva tempo e demanda algum esforço e investimento. E por vezes, paciência também, já que não dá pra colocar o telhado sem antes construir bases e paredes.

A chegada de um filho pode ser responsável por promover toda essa “reforma interna”. Esse processo, por vezes, é doloroso, porque envolve luto por quem se foi um dia, mas que já não cabe mais naquele novo papel. Luto pela vida que ficou pra trás, pelo corpo que tomou outra forma. E aceitação do novo papel, dos novos valores, da importância de criar novos hábitos e um novo jeito de ser. Aceitação de si mesma, de um novo eu, uma mulher que agrega à todos os outros papeis, o de mãe. Papel que acaba por tomar a frente e até abafar todos os outros por algum tempo.

E como é possível atravessar esta fase e sair dela fortalecida, com as ferramentas necessárias para a construção desse novo eu e da identidade materna?

Vivendo da maneira mais plena possível, respeitando todos os sentimentos, sejam eles bons ou incômodos (tudo bem se você não se sentir feliz em todo o tempo, não há problema em reconhecer e falar a respeito do medo, da insegurança diante dos novos desafios. E não é um problema sentir saudades da rotina de antes, de quem se era antes da gestação, como toda mudança, leva tempo para que ela se estabeleça e se acomode).

Fazendo uma comparação, se alguém deseja aprender a nadar, não vai ter sucesso se apenas permanecer na beirada da piscina. é preciso mergulhar na água.

É preciso mergulhar no puerpério.

Uma mulher que acaba de se tornar mãe, necessita apoio, acolhimento, empatia, para que consiga vivenciar este processo de ruptura e transformação de maneira plena. Atitudes simples, como estar junto apenas, sem conselhos ou julgamentos, podem fazer muita diferença.

Ajuda com as questões práticas, como as tarefas do dia a dia, também facilitam esse processo de entrega na relação mãe-bebê. Compreensão, carinho, informações e orientação de qualidade, respeito aos seus desejos e crenças, ajudarão a puérpera a lidar com suas questões internas,a esclarecer suas dúvidas e a superar suas dificuldades. Em pouco tempo a nova mãe já “pegou o jeito”, assimilou a rotina da maternidade e já se entendeu com o seu bebê. Assim estará mais forte para lidar consigo mesma e seguir neste processo de autoconhecimento, reconstrução e cura.

Mari e sua ¨Mary Ann”, sua Alice –  A Despedida. Conexão, cumplicidade, cura!

 

Nota: Pedi em um grupo de amigas, mães de bebês em torno de um ano e meio, um pouco mais, uma imagem que pudesse ilustrar este post. Curiosamente recebi foto de mães e suas “Alices”. Fiquei intrigada com a coincidência e fui perguntar a elas sobre a escolha do nome e o que definia cada momento. E cada uma compartilhou comigo um pedaço de suas histórias sobre desconstrução, superação, puerpério.

A Julia tirou esta foto quando os sentimentos de amor profundo e instintivo pelo bebê que acabou de nascer se fundem na dor física provocada pelo início da amamentação, a confusão, o cansaço. Além de ser essa mulher forte e linda, e mãe da Alice, a Julia também é professora de Yoga. É possivel saber mais sobre ela e seu trabalho no Blog juliacalderoni.blogspot.com.br e no canal https://www.youtube.com/user/JuCalderoni.

A Grazi fez este ensaio por ocasião do aniversário de um ano da sua Alice, cenas do dia a dia pela câmera poética da Ju Vasconcelos. Sua Alice, como ela disse, “que demorou tanto pra engatinhar e andar”, mostrando que o puerpério é aprendizado e que cada coisa tem seu tempo. A Grazi tem uma história de força e superação antes da Alice, e hoje tece sonhos e mimos na Apliqueteria.

A Mari fez essa foto para se lembrar do olhar da Alice enquanto era amamentada. Esta é a foto da sua última mamada. Ela ainda não sabia, mas este momento a preparava para os muitos desafios que a vida lhe daria. Nos olhos da Alice mora a cura e a reconstrução. A Mari está com projetos em andamento, mas ainda é segredo, mas você pode saber mais sobre ela aqui.

O que elas têm em comum, além das Alices? Força, superação, amizade! Gratidão amigas, por me permitir partilhar da vida e história de vocês.

 

 

The following two tabs change content below.
Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

Latest posts by Nivia Gonçalves (see all)

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *