O epidemiologista gaúcho ganhou o Prêmio Gairdner na categoria saúde global, por seus estudos sobre a importância da amamentação. Entenda o valor do trabalho dele no maecomfilhos.blog.br

Pesquisador brasileiro especialista em aleitamento materno ganha o Prêmio Gairdner

Pela primeira vez na história, um pesquisador brasileiro recebeu o Prêmio Gairdner, principal reconhecimento na área de ciências do Canadá e um dos mais importantes do mundo para o campo da medicina. O epidemiologista gaúcho Cesar Victora foi o vencedor desta edição na categoria saúde global.

O professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), formado em Medicina  pela UFRGS, Doutor pela LSHTM (Inglaterra) e com Pós-doutoramento da Unicef Evaluation Unit, agora está entre os sete cientistas que receberam esta premiação científica do Canadá, o Prêmio Gairdner e faz parte da lista de potenciais candidatos à indicação para o Prêmio Nobel.

E por que falamos dele aqui, no Mãe com filhos?

O título foi concedido em reconhecimento ao conjunto de estudos sobre amamentação e nutrição materno-infantil, área na qual o epidemiologista brasileiro liderou uma pesquisa, iniciada ainda nos anos 1980, e considerada um divisor de águas na área de alimentação infantil.

Suas pesquisas foram as primeiras a mostrar a importância da alimentação exclusivamente com leite materno até os seis meses para se prevenir a morte de bebês.

A prática reduz em 14 vezes o risco de óbito infantil por diarreia e em 3,6 vezes por infecções respiratórias.

Crianças que além do leite materno recebem água, chás ou sucos correm mais risco. Além de ficarem mais propensas ao contato com água contaminada, elas ingerem menos leite e, assim, não recebem as substâncias necessárias para combater infecções.

Para chegar a essa conclusão, Victora avaliou casos de morte na infância ocorridos em dez cidades do Rio Grande do Sul entre dezembro de 1984 e dezembro de 1985. Isso, naquela época em que éramos nós as crianças ou nem tínhamos nascido e que os primeiros mil dias nem eram assunto! Que bom que ele fez isso, não é mesmo?

Saiba mais da pesquisa dele na entrevista que reproduzimos a seguir:

Ao iniciar o estudo sobre amamentação exclusiva, o senhor imaginava obter esse resultado?
Não, foi uma surpresa. Todos sabiam da importância do aleitamento, mas até então ninguém tinha se dado conta de que a oferta de água e dos chás fosse prejudicial. Pelo contrário, acreditava-se que só leite materno não supriria toda a necessidade de líquidos. Vimos que o risco aumentava de forma expressiva a cada “chuquinha” ofertada.

O resultado foi uniforme entre todas as classes sociais?
Não. Avaliamos todas as mortes por diarreia ocorridas em Pelotas e Porto Alegre durante um período. Ao todo, foram 170, a maioria em população pobre, moradora de favelas. Mas a recomendação foi para a população em geral. O efeito é tão importante que mesmo países ricos passaram a recomendar essa estratégia, pois a oferta de líquidos diminui a produção de leite e a amamentação fica mais curta.

A amamentação brasileira já está em níveis adequados?
Os números que dispomos são antigos, de 2007. Mas sabemos que mais ou menos metade das crianças brasileiras tem aleitamento exclusivo até os seis meses. É o tal copo meio cheio, meio vazio. Quando comecei a estudar o assunto, nos anos 80, essa taxa era zero. Estamos na direção certa.

Está havendo demora em se elevar esses indicadores?
Sim. Mas essas coisas são complicadas de se aumentar. A sociedade tem de apoiar a mulher na amamentação. Em uma série publicada na revista Lancet sobre amamentação usamos o Brasil como exemplo positivo. O país investiu muito em amamentação. A licença-maternidade paga é grande e há uma série de políticas de proteção da amamentação, como a rede de banco de leite.

As taxas de cesárea no Brasil continuam altas. Isso pode afetar a amamentação?
É importante que a amamentação comece na primeira hora após o nascimento, e a cesárea atrapalha o processo. Não é impossível colocar o bebê no seio da mãe durante a cesárea, mas é difícil.

Conheça um pouco mais do trabalho dele:

P.S. Além do brasileiro, foram premiados seis cientistas: Akira Endo (por estudos sobre colesterol), Antoine M. Hakim (por pesquisas sobre derrames), Rino Rappuoli (especialista em genética), Lewis E. Kay (por avanços em ressonância magnética nuclear), Huda Y. Zoghbi (pesquisador da Síndrome de Rett) e David Julius (estudioso de somatossensação). O Gairdner, por ser um dos prêmios científicos mais importantes do mundo, é considerado uma vitrine para potenciais candidatos ao Nobel. Desde a criação do prêmio canadense, em 1957, 84 dos 388 ganhadores também acabaram levando um Nobel.

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Sam Shiraishi

Cristã, jornalista, mãe de Enzo, Giorgio e Manuela, casada com Guilherme. Paranaense que caiu de amores pela Mooca em 2005. Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena.

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