Dica de filme: A Bailarina

Dia desses, voltando casa, pensei num antigo sonho. E fiquei me perguntando se ainda haveria tempo de realizá-lo. Chegando em casa, me enchi de coragem e falei dele ao marido. E venho mesmo me questionando quanto de nós mesmos empenhamos em realizar nossos sonhos, sejam eles grandiosos ou bobos, destes que a gente esconde até do marido (risos).

Eu e Luiza fomos conferir uma sessão #maecomfilhos, pra lá de especial, lá na Sede da Paris Filmes, da animação franco-canadense “A Bailarina”.

A Luiza, ainda tímida, na oficina que aconteceu depois da exibição do filme A Bailarina.

A história se passa em Paris, em 1869. Felicie, uma jovem e sonhadora órfã, e seu amigo Victor, também um sonhador, fogem para Paris em busca de seus sonhos: ela quer ser bailarina e ele, inventor. Entre tantas aventuras e artimanhas, ela encontra um jeito de ser admitida no Grand Opera. Mas a história não para aí. Flagrada na sua tentativa de encurtar caminhos e criar oportunidades, ela se vê confrontada e precisa reafirmar suas escolhas e sua paixão, lutando com as armas que possui pra encontrar aquele que será o seu lugar no mundo.

Assistir “A Bailarina” fez destampar em mim o baú das memórias e uma centena delas começaram a bailar no meu pensamento:

Quando criança, eu sonhava em ser bailarina, atriz e cantora. Eu me imaginava passando na tv, viajando sempre para diversos lugares do mundo para fazer meus shows e tem até um episódio do Snoopy, em que a Patty Pimentinha dança sobre patins, no gelo, então nos meus sonhos, eu também era patinadora. E morava numa mansão com gramado verdinho e piscina, culpa das novelas que minha mãe assistia, certamente. Quando alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescesse, eu dizia ”professora de dança”. Acho que os adultos em volta não me estimulavam muito a seguir nesta direção, então quando fui apresentada ao maravilhoso mundo das letras, eu passei a dizer que seria ser jornalista, mas de redação, não repórter, porque eu gostava mesmo era de escrever. Até me imaginava velha, escrevendo na minha velha máquina (de escrever), numa janela de frente para o mar, que eu nem conhecia na época (isso devia ser coisa de novela também), escrevendo meus livros. Mas eu nunca esqueci que amava dançar. Nutria meu sonho imaginando que um dia cresceria e teria meu próprio dinheiro e moraria numa cidade grande, enfim faria as aulas necessárias para conseguir dar aqueles saltos e giros, no palco, no gelo, em qualquer lugar. Depois eu quis ser outras coisas também, o tempo passou, eu cresci, fui sendo muitas coisas e abandonando alguns sonhos, guardando outros em lugares secretos dentro do meu coração, trilhando meu caminho…

A animação é encantadora!!! Você torce do início ao fim para que Felicie seja escolhida para ser a Clara de “O quebra-nozes”. E fica só à espreita, desejando que o Victor, pequeno grande inventor de coisas que voam, consiga se encontrar com o mestre Gustave Eiffel.

O cenário é lindíssimo! Eu, particularmente, amei assistir a um filme em que a Torre Eiffel estava em plena construção.

O tempo passou e eu me tornei a mãe da bailarina! Sendo eu Psicóloga e sempre lidando com as complexidades e as mazelas do ser humano, tive medo de projetar na minha filha meus sonhos não realizados, porque é um grande desafio compreender onde está o limite entre você e seu filho. Mas Deus me presenteou com uma mocinha que adora coisas que eu também adoro. E que ama dançar, AMA, mais que eu, certamente! O meu papel de mãe foi só o de dar a ela o que eu mesma não tive: oportunidade! Do restante, o investimento é todo dela.

Na sua primeira apresentação, ali no pátio da escola mesmo, ela petitica de roupinha rosa e na ponta dos pés, eu realizei aquele antigo sonho. Posso girar e saltar pelos pezinhos delicados dela, meu coração se sente pleno, pleno, maravilhado!

Depois da sessão lá na Paris, aconteceu a oficina “ Criando e Tocando Instrumentos Musicais a partir de materiais reciclados”, com a cantora e educadora musical Raquel Braga e a participação do violinista e flautista Felipe Lemus. Foi delicioso e foi lindo! Luiza não estava lá muito afim de sair dançando no meio das outras crianças naquele momento. Introspectiva, ela não hesitou em mergulhar naquela que seria sua criação autêntica. E foi interagindo de acordo com o que criava e desejava compartilhar, bem longe do que pensa e deseja a mãe dela e o resto do mundo. Ela me ensina este limite todos os dias. Tem horas que segura a minha mão, mas agora que está mais velha, estou eu mais observando que guiando. Minha bailarina, “musicista”, inventora, já sabe caminhar a maior parte do tempo sozinha! Haja coração!

Então, durante a atividade, eu fiquei liberada para só babar no trabalho da Raquel, me apaixonar pelas notas tocadas pelo Felipe e cair de amores vendo os pequenos super curtindo aquele momento delícia! Eu e todas as lembranças pipocando, num belo encontro de passado, presente e futuro, bem ali!

Teve um dia das mães que a professora colocou as mães pra dançar ballet com as filhas no meio da apresentação e, Deus!, eu estava dançando também! Eu, que já nem desejava isso mais, virei bailarina!!!! Retratos de uma vida de sonhos e de transformação dos sonhos. Enquanto assistia ao filme, meu próprio filme era projetado dentro de mim!

Então eu faço a seguinte pergunta, não mais pra mim, mas pra você, que está lendo esse texto agora: quanto de você existe nos investimentos que você faz, na busca dos seus sonhos? Parece bobo depois que a gente cresce, mas eu ainda te pergunto: sobrou algum sonho de infância que não se realizou por falta de oportunidade ou de incentivo, mas que ainda faz sentido pra você? Algum sonho que ainda te faz brilhar os olhos?

O filme é uma graça, eu indico! Se ainda não assistiu, assista!

Em tempo:

– Fiz aulas de jazz aos 11 anos, não segui em frente porque a academia fechou.

– Já na faculdade, eu fui pras aulas de dança do ventre. Ao longo do semestre as aulas foram ficando enfadonhas para quem não ia participar da apresentação do final do ano (eu não tinha o dinheiro do figurino), mas mesmo assim fui até o fim. Depois me formei e a vida mudou de direção. Mas eu levei comigo duas amigas pras aulas. Uma delas, que já era bailarina, se tornou Bellydancer*. Então eu acho que minha vocação é ser mesmo a “mãe” da bailarina! Sento-me na primeira fila, bato palmas bem forte e bem alto, me encho de orgulho e de lágrimas, enquanto minha alma passeia pelo palco.

Aproveito a oportunidade pra agradecer à Tia Danny Abdalla, professora de ballet da Luiza na educação infantil e agora professora de jazz, por ensinar a ela os primeiros “pliê”. E a me ajudar a realizar este sonho.

Luiza, minha filha e Luciana, minha amiga, esse texto eu dedico a vocês, minhas bailarinas lindas!!!

Ah, eu ainda tenho um sonho secreto guardado. Talvez um dia, quem sabe…

*termo usado para dançarina do ventre.

The following two tabs change content below.
Nivia Gonçalves Masutti, Psicóloga, Psicoterapeuta Existencial, com experiência em Saúde Pública e Saúde Mental e em Recursos Humanos. Deixou o serviço público e mais tarde, a vida corporativa, ao perceber que, mesmo sendo apaixonada pela correria do trabalho, a maternidade é a sua melhor parte. Mãe de primeira e de segunda viagem, da Luiza e do Guilherme, depois de muitas rupturas e recomeços, encontrou na Psicologia da maternidade, um jeito novo de conciliar as coisas que mais ama: a Psicologia e os filhos. Apaixonada pelos processos de crescimento e transformação do ser humano e pela força dos grupos, atua hoje com atendimentos clínicos individuais, coordena um grupo de pós parto, o Grupo de "Powerpério", na Lumos Cultural, e ainda encontra energia para juntar na sua prática profissional outra paixão: fazer pães, usando o processo de fabricação dos mesmos como metáfora para explicar os caminhos de transformação pessoal.

Latest posts by Nivia Gonçalves (see all)

Comments

comments

One Reply to “Dica de filme: A Bailarina”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *