Vamos mapear juntos projetos que relacionem brincar e educação infantil de qualidade no Brasil?

Quando minha filha caçula nasceu, ciente de que viveria o dilema da escolha do espaço no qual ela passaria parte do dia, eu ponderava na sorte que tive quando os mais velhos eram bebês – eu trabalhava em casa e o berçário foi uma opção, não uma condição do nosso ritmo de vida – e como isso fez bem para toda família. Mas esta não é exatamente a realidade da maioria, pelo contrário, faltam unidades educacionais para os pecorruchos e os pais adotam espaços de recreação infantil que muitas vezes mal passam da categoria “depósito” de crianças para poderem voltar a trabalho.

Em julho de 2012 conheci, num workshop de preparação da campanha colaborativa “É da nossa conta! Trabalho infantil e adolescente“, a equipe que trabalhou para que o Brasil pudesse encaixar as creches no Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), ouvindo seus argumentos e pensando muito sobre suas motivações. Infelizmente os recursos da União e sua capacidade de atuação na primeira infância são pífios e a municipalização deixou ainda mais confuso e corrupto os repasses de verba. Como aqui não temos hábito de ir aos encontros públicos para defender nossas prioridades locais e com isso obrigar o Estado a nos atender, acabamos condenados à busca por uma escolinha “menos pior” ou por um trabalho que nos permita pagar uma boa unidade de educaçao infantil. Outras famílias consideram que esta fase é menos importante em termos pedagógicos e e opta por economizar para investir na educação das crianças a partir do Ensino Fundamental 2 ou do Médio.

Mas será suficiente?

Não farão falta este anos iniciais de estimulo à leitura, ao raciocínio lógico dedutivo, à busca de soluções criativas para os questionamentos infantis, à formação do caráter e da postura cidadã?

Como escreveu o articulista que trouxe as informações que citei acima, Alexandre Le Voci Sayad, autor do livro “Idade mídia: a comunicação reinventada na escola“, “nesse ritmo, não haverá ensino médio capaz de acelerar nossos índices de escolarização e desenvolvimento.”

No texto há também outros exemplos que podem servir de parâmetro inicial para quem deseja começar a articular mudanças por aqui. No Canadá o investimento na formação dos profissionais que atuam na educação dos bem pequenos é o mais dispendioso dentre todas as carreiras daquele país, seguindo um critério de que crianças bem desenvolvidas ajudam futuramente no aprendizado de toda a classe. Uma classe com alunos bem formados acelera e sofistica o aprendizado, alavancando assim as marcas nacionais do próprio ensino médio.

[Isso me lembra de quando meu filho faltou dois dias de aulas por conta da uma viagem e voltou contando que alguns professores falaram: “não sabia que você fazia tanta falta na aula!”. Um elogio e tanto, né?]

E é também do Canadá, mais precisamente da província de British Colombia, que vem a outra dica do texto, destacando um indicador criado para avaliar como anda o desenvolvimento cognitivo das crianças e projetar políticas públicas futuras. O Early Development Instrument é um questionário elaborado por universidades, aplicado somente a profissionais que atuam com as crianças e que permite que deixe de ser uma questão escolar e alcance a comunidade, família e também escola.

Pode-se dizer que a ONG Early Year Institute (EYI), no estado americano de Nova York, atua numa linha semelhante e é reconhecida internacionalmente por estimular brincadeiras, atividades e outras práticas em comunidades, bem como a troca de experiências.

Aqui no Brasil, acompanho trabalhos como o da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigall (FMCSV), fundação familiar criada em 1965 e que atualmente tem como principal foco de atuação o investimento na área de Desenvolvimento Infantil, com especial interesse na disseminação de conhecimentos. Já falamos do trabalho deles aqui


[eu já fui embaixadora do conceito do Brincar Desestruturado e tem dezenas de posts sobre o tema aqui ]

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