Relato de Parto (segunda parte): o caos, a paz e a humanização.

Esta é uma das fotos que eu mais gosto do meu parto. 
Nela é possível ver todo êxtase que me invadiu e contagiou todos que estiveram comigo neste momento único.
Como já relatei aqui, tive muito medo do meu segundo parto. Precisei encarar uma sequência de angústias na minha vida para conseguir entender esse medo. 
Minha indignação com o meu primeiro parto nasceu no cinema, assistindo ao Renascimento do Parto, há exatos dois anos. Naquele momento foi como se alguém me tivesse aberto o portal e eu pude sair da ‘matrix’. Entendi que parte do que eu vivi poderia sim ter sido evitado se eu estivesse em outras mãos. O que eu não sabia ainda é que para viver uma história diferente, precisaria suar muito! 
Foi um longo caminho de questionamentos, reflexão, estudos e de tomada de decisões. Quando decidi engravidar de novo, precisei me isolar de quem pensa diferente de mim e que poderia de alguma forma tentar, ainda que sem perceber, me influenciar a fazer um caminho diferente do que o que eu fiz. Eu já tinha meus próprios fantasmas pra lidar. Comecei me afastando de algumas pessoas, procurei outra obstetra, uma querida, adepta do parto normal, me preparei para uma nova gestação e para o pacote que viria com ela. Com 20 semanas, a médica que me acompanhava me avisou que não conseguiria me atender no parto porque na data provável do mesmo ela estaria com questões pessoais que a impediriam de estar disponível. Ela me avisou para que eu tivesse tempo para pensar e me organizar de forma diferente, quem sabe buscar outra equipe, se assim fosse o meu desejo. E isso foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.
Eu ainda levei umas semanas refletindo. Confesso que tive muito receio de não saber direito para onde a busca por um parto respeitoso estava me levando, não sabia se daria conta de um parto natural, se eu seria mais forte que meus monstros todos, além de toda a determinação que é preciso ter para ir contra todo um sistema cheio de intervenções e protocolos que acabam culminado numa cirurgia desnecessária, na maioria das vezes.
Não posso dizer que escolhi minha equipe, ela aconteceu na minha vida, pelas mãos de Deus, eu acredito. A médica que me acompanhava, me deu uma lista de médicos humanizados e me indicou um deles, que ela conhecia mais de perto. Confesso que nem olhei a lista. Se tivesse que buscar outro médico, seguiria o que a gente sempre faz. Assim, marquei uma consulta com a que atendeu a uma amiga. Estava com 29 semanas quando fui na primeira consulta. E ao chegar no consultório, já na recepção, a atmosfera era completamente outra. Nada de jalecos ou propagandas de laboratórios, medicamentos ou qualquer coisa do tipo, tão comum nos consultórios médicos. Na sala de espera, tatames e almofadas. De repente surge uma bela moça de pés no chão. A consulta seguiu quase como uma sessão de terapia. Falamos,sem pressa, por um longo período. Contei minha história e meus medos e. pela primeira vez ouvi de uma médica que eles não eram infundados. Pela primeira vez não me tentaram convencer de que eu estava errada. Não, pela primeira vez fui acolhida e me foi apresentado o caminho para um tipo de parto em que eu corria menos risco de ficar doente depois. Minha busca terminou ali, eu tinha uma nova obstetra. Neste mesmo dia eu soube que ela atendia consultas em grupo, com várias gestantes. Curiosa como sou, quis experimentar. Aí descobri que fora da matrix, existe um novo mundo, muito mais bonito e humano do que aquele que eu conhecia e havia habitado no meu primeiro parto. As consultas se davam em duas partes, uma individual para avaliação da gestação, e outra em um grupo de discussão, em que as dúvidas eram compartilhadas e esclarecidas. Neste grupo eu conheci histórias lindas e ouvi perguntas que nunca sonharia formular. Aos poucos fui amadurecendo a minha escolha, compreendendo melhor o caminho que estava percorrendo, fui me fortalecendo e me empoderando para o momento final. Compreendi que ter uma doula me ajudaria a seguir firme e forte na minha jornada, afinal eu não sabia como era, a doula sabe. E que ter um neonatologista humanizado era a garantia que eu precisava de que desta vez meu bebê viria pros meus braços. A minha doula, Celine, encontrei lá mesmo, na Caza da Vila, o espaço da Betina, minha obstetra, e a neonatologista, Dra Vânia, bem, Deus colocou ela lá no São Luiz para me atender. Gratidão!
Estamos vivendo um tempo em que o termo humanização vem sendo muito falado.  Na minha busca por informação eu ouvi algumas amigas dizendo que não teriam um parto humanizado “de jeito nenhum”, colocando-o como sinônimo de parto natural “a qualquer preço”, como se ter uma equipe humanizada fosse a certeza absoluta de que teria que parir com dor, sem anestesia e sem intervenções, independente de como a situação estivesse evoluindo. Ouvi também muitas vezes dos perigos do parto normal para o bebê e das sequelas que ele pudesse ter se eu enveredasse por este caminho do “tal” parto humanizado. Eu também nunca que desejaria viver uma coisa assim.
Não, não é nada disso!!! Humanização é respeito! Simples assim! Eu poderia colocar aqui algumas definições sobre o assunto que já foram escritas e debatidas, mas prefiro contar o que vivi e a que conclusão cheguei depois desta experiência.
Ter uma equipe humanizada é ter seus direitos respeitados, sua vontade ouvida. É ter ao lado profissionais que não estão ali pra te convencer de nada, mas para acompanhar e dar segurança a um momento especial e único. Profissionais competentes e responsáveis, que saberão agir caso haja necessidade, uma REAL necessidade,  de intervenção, mesmo que não seja o desejado e o esperado.
Fazendo um paralelo entre meu parto cesárea, da Luiza e o meu parto normal, do Guilherme,  as diferenças no atendimento são gritantes.
No primeiro eu fui levada a acreditar que se não entrasse em trabalho de parto até tal dia, não entraria mais, e nem foi a minha médica que me convenceu disso. Ela, na verdade, nunca escondeu que sua preferência era pela cirurgia, por isso não me sinto enganada, nem acho que tive meu parto roubado. E nas minhas crenças da época, ultrapassar as 40 semanas de gestação era algo que eu não cogitava. Mas nada do que vivi depois tira a magia do momento em que a Luiza chorou, o mundo parou de girar pra ela chorar e eu ainda me emociono de lembrar da bela canção de amor que ela “cantou” pra mim, para apagar toda a angústia que eu estava sentindo. Só que ela saiu da minha barriga e foi pras mãos da pediatra de plantão, eu nem sequer a vi de longe, apesar dos meus protestos, essa dor eu sempre vou carregar. Quando me trouxeram, ela já estava limpinha e embrulhada, colocaram ela do meu lado, mas minhas mãos estavam amarradas, de forma que não pude tocá-la. Foi tudo limpo e controlado, como os protocolos dizem que tem que ser. E nem vou entrar no detalhe dos problemas que tive em decorrência da cesárea, eu já falei sobre isso na primeira parte deste relato.
No segundo parto nem parecia que eu estava num hospital. Na consulta de pós parto, enquanto eu narrava toda a minha emoção, ainda muito extasiada por tudo o que tinha vivido, comentei com a Betina que quando Luiza nasceu, a primeira vez que eu levei a mão até a barriga, senti um vazio enorme! E que desta vez não tinha vazio algum. Ela me respondeu: “é, a barriga saiu e veio pro colo”.
Posso terminar meu texto aqui, porque essa frase dela resume tudo. Mas ainda quero fazer algumas considerações:

  • Humanização é um termo que é usado em outras áreas de atendimento da saúde também, não só para parto. 
  • É possível ter uma cesárea humanizada, já que estamos falando de atendimento respeitoso. E vale para qualquer procedimento médico, não é só na obstetrícia que encontramos situações nada honrosas. 
  • O direito de ficar com o seu filho logo após o nascimento é algo que sim, pode ser roubado, e isso acontece MUITO, por isso vale ter uma boa briga se necessário for, independente da via de parto.
  • Sobre as dores do parto, doí muito MESMO. E pra mim elas são de dois tipos: a das contrações, que enlouquecem e te tiram do controle totalmente, e as do período expulsivo que, ao contrário da primeira, te devolve pro controle da situação. E mesmo sendo muito, muito, mas muito forte, é muito surpreendente sentir que é você que está fazendo seu filho nascer (recomendo). Ah, depois passa e a gente esquece, é como dizem por aí.
  • De todas as histórias que ouvi e li por aí, e foram muitas, pelo que pude concluir, o que traumatiza uma mulher no seu parto não é o parto em si, mas a maneira como ela é ajudada (ou não) neste momento, mas não quero entrar nesta discussão, tem muita gente bacana fazendo isso já, aqui só quero dividir minha vivência.
  • Sou a favor de que toda e qualquer escolha seja respeitada, cada pessoa sabe de suas histórias e de seus limites e ninguém merece ser julgado por isso. O que me chateou nessa caminhada foi descobrir que muitas dessas “escolhas” são fundamentadas por histórias fantasiosas e por mitos, justificando o injustificável. No entanto, concluí também que algumas pessoas, inclusive médicos, realmente acreditam nesses mitos, fechando os olhos para as evidências que provam o contrário. 
  • E pra finalizar, se alguém ler o meu texto e se sentir de alguma forma tocado por ele, o meu conselho é: estude! Seja você quem for, vá atrás da informação, informar-se não custa nada e nossa saúde padece de boas práticas e está nas nossas mãos lutar por atendimentos mais dignos a todos, independente de seus desejos e suas escolhas. 
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