Escola com apego? Conversa com a professora Carolina Barra

Tirinha do http://tirasarmandinho.tumblr.com/

Recentemente o texto da professora Carolina Barra, contando sobre sua decisão de tentar a “terapia do abraço” com um de seus alunos da educação infantil e o resultado desta decisão foi muito bem recebido nas redes sociais. Com menos de uma semana no ar o texto ganhou mais de 9mil likes e mais de 11mil compartilhamentos.

O texto conta que após tentar de tudo com um aluno de 4 anos, ela decidiu abraça-lo toda vez que fizesse algo inapropriado para sala de aula. O aluno surpreso, foi mudando seu comportamento e já participa das atividades. Esta atitude também mudou a Carolina, como ela mesma conta.

“Há exatamente 19 dias eu postei aqui no face sobre um aluno de 4 anos que não sabia respeitar. E eu disse também que estava começando um novo método: a pedagogia do abraço. Para quem não leu, a minha metodologia seria: a cada vez que ele fizesse algo que não devia, eu daria um abraço nele. Já tem 18 dias que eu comecei e estou aqui para postar os resultados.
A primeira vez que eu fiz isso foi logo no dia seguinte do post. Ele estava fazendo bagunça com os blocos, enquanto eu chamava um grupo de cada vez para fazer a atividade. Chamei ele quando vi a bagunça e ele demorou até ir onde eu estava, com medo de levar bronca, apesar da minha voz estar calma. Quando ele chegou eu não disse nada, apenas o abracei. Ele ficou sem entender nada, parado na minha frente, como se esperasse por mais. Falei que ele podia ir e aí ele decidiu sentar ao meu lado pra fazer a atividade ainda sem entender direito o que tinha acontecido. Ao final daquela aula ele fez questão de me dar um abraço de despedida. Até a professora da sala reparou.
A partir desse dia ele foi mudando aos poucos e tem se comportado absurdamente melhor em todas as minhas aulas.
Na turma dele vários alunos querem ser meus ajudantes e ele é um dos que começou a me pedir todo dia e eu sempre digo que sim. Hoje mesmo eu ouvi ele falando para todo mundo sentar na roda quando eu pedi. Antigamente, nesse momento, ele era um dos primeiros a fazer bagunça no chão e agora ele é um dos primeiros a pedir que os outros sentem também.
Quando sentamos na roda hoje ele veio ficar abraçado comigo, no meu colo. Um gesto tão carinhoso que a professora até tirou foto, impressionada com a sua atitude.
Tudo isso foi fantástico e me dá vontade de chorar só de lembrar, de tão emocionante que é. Mas eu ainda não contei a parte mais impressionante. A maior mudança disso tudo foi na verdade comigo e não com ele. Eu passei a olhar mais para ele, dar mais atenção. Se antes ele me tirava do sério, me irritava e me deixava querendo ficar longe, hoje tudo mudou! Hoje eu vejo nele uma criança amável a quem eu não apenas amo, mas também gosto de estar perto e trocar experiências.
O amor muda mesmo as pessoas e isso é apenas mais uma prova disso!”

Tive oportunidade de conversar um pouco com Carolina. Jovem de idade, 25 anos, mas transmitiu muita experiência na área de educação. Contei para ela minha visão de mãe, a experiência que tive com meu filho e os conflitos que já teve com um colega de turma e que a solução também foi amor. Ofereci carinho e atenção para outra criança, assim como com carinho e atenção tornei meu filho mais seguro para saber se impor ou se afastar em momentos de conflito.

Conversamos sobre a questão da posição de muitos pais e instituições de ensino delimitando o limite onde educação é em casa e ensino na escola. Isto sempre me pareceu estranho. A família realmente precisa dar a base da educação e nunca delegar o educar dos filhos, mas as crianças vivem e convivem nas escolas muitas horas da semana. Geralmente 5 horas por dia, em muitos casos chegam a ficar 6 a 8 horas por dia. Como este espaço pode se isentar de também educar? Escola ensina, mas professores e toda equipe também são exemplos, transmitem valores importantes.

Falamos sobre educação com apego. Perguntei a professora se seria algo a ser aplicado na escola. Ela me respondeu com um sorriso: – Com certeza! O apego em questão claramente não é no mesmo nível dos pais e família, mas justamente a educação de forma carinhosa. Carolina falou de como acredita ser importante enxergar cada aluno. Perguntei como seria aplicado aos adolescentes e ela me contou mais uma história linda.

Com adolescentes ela não apenas busca conhecer o mundo deles, conhecer seus interesses, mas se colocar disponível para conversar, apoiar, amparar quando eles precisarem. Certo dia ela recebeu uma ligação de uma aluna depois da meia noite. A aluna passava por um término de namoro e estava se sentindo triste, só. Vejam um trecho do que a professora escreveu:

“Fiquei feliz mas não por ela estar triste e sim porque ela poderia estar triste e só, ela poderia estar triste e se afundar em tristeza sem nenhuma palavra amiga, mas ao invés disso ela estava triste e me ligou à meia noite e trinta e quatro. (…)  Fiquei feliz porque ela entendeu que eu sou o tipo de professora que não tira férias, e que está disponível em qualquer hora até mesmo à meia noite e trinta e quatro. Ela entendeu que eu sou o tipo de professora que não ensina português, que não ensina nada na verdade, mas que aprende junto, que vive junto, até mesmo à meia noite e trinta e quatro. (…). Ela entendeu que para se ser professor de verdade é preciso se importar de verdade e, naquela meia noite e trinta e quatro, ela precisava de alguém que se importasse de verdade.”

Eu sempre acreditei no amor como a maior forma de transformação e evolução. Sai da conversa feliz e esperançosa. Que venham muitos professores como Carolina. E que todos eles recebam apoio e reconhecimento das famílias e sociedade.

E você, o que pensa sobre educação com apego em casa e na escola? 

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Anamaria Mendes, membro do grupo Mães com Filhos. Mãe do Lucas de 8 anos, sempre criando novas formas de conciliar maternidade e vida profissional. Apaixonada por pessoas, marketing e educação. Criativa por natureza.

Colaboradora do canal de YouTube FunToysBrinquedos, criado por seu filho e hoje produzido em família para motivar o brincar com muita imaginação.

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