As dores e as delícias de se tornar mãe: que tal construir em grupo sua identidade materna?

Mar de bebês no “Encontrinho Bom”
(Foto: Adriano Masutti)
Guilherme estava com 23 dias de vida quando recebi um convite um tanto inusitado (ao menos para mim). A Dra Vania, neonatologista que o recebeu no nosso parto, me enviou uma mensagem dizendo que estaria reunindo as mamães de seus pacientinhos de 0 a 3 meses num “Encontrinho Bom”, e me perguntou se eu gostaria de participar também (e eu lá sou mulher de recusar um convite desses?).
Para organizar o encontro e discutir alguns detalhes, como data, local, ela juntou todo mundo num grupo do Whatsapp e, imediatamente, estava formada uma tribo de recém mamães, todas vivendo à flor da pele, as dores e as delícias do puerpério.
Puerpério é o período que se segue ao parto, àqueles 40 dias de resguardo, em que o organismo da recém mãe precisa assimilar que o bebê já nasceu. É caracterizado por mudanças hormonais bruscas e, na maioria das vezes, traz também alterações no humor, a chamada melancolia pós parto, ou baby blues (dei um google sobre a origem do nome e achei uma explicação interessante aqui).
Alguns anos antes de ser mãe, eu ministrei curso para gestantes. Era parte de um programa do governo chamado Materno-Infantil, que visava garantir todas as consultas de pré-natal e puerpério para a gestante e o recém-nascido e, a Secretária da Saúde de onde eu era Servidora Pública na época, quis ir além e garantir também orientação e acolhimento às novas mães e aos seus bebês. Eu falava sobre os aspectos psicológicos da gestação e do pós-parto e eram conversas muito gostosas, que renderam muitas histórias, mas eu não tinha a menor ideia do que era de fato essa melancolia até senti-la na pele.
O puerpério é um momento de extrema solidão e de muitas novas e assustadoras descobertas. Em maior ou menor medida, toda nova mãe passa por essa solidão. Claro, cada mulher sente e lida de uma forma diferente, mas a questão hormonal está presente em todas e a insegurança e angústia de receber um bebê nos braços “sem manual”, também. E é muito ‘engraçado’, é tão comum e tão incompreendido ao mesmo tempo. Eu orientava minhas gestantes no curso a se apropriarem dos seus bebês e a pedir ajuda com os afazeres do dia a dia para que pudessem descansar. Contava pra elas que seria bem provável que elas se sentissem meio invisíveis depois de um período de muito mimo, grávidas são encantadoras e sempre chamam a atenção, dentro e fora do seu círculo de relacionamentos. Também orientava que esse é um período de adaptação e que a tristeza e estranhamento tendiam a se resolver conforme elas fossem entrando no novo papel, mas que se elas sentissem que essa tristeza ultrapassava o limite de que podiam dar conta, que não hesitassem em pedir ajuda. Eu tinha lido tudo isso em livros e artigos, mas confesso que tudo fez muito sentido quando era eu no lugar delas.
E é ainda mais ‘engraçado’ que no geral as pessoas sempre têm uma história trágica pra contar à uma gestante e uma crítica severa seguida de uma história de grande sucesso para contar à puérpera. Quando a Dra Vânia juntou essas recém mães neste grupo, ela criou uma rede de solidariedade e de amor incrível. Um amor que muitas vezes não é dado à nova mãe. Muito pelo contrário, vejo por aí que bem pouca gente acolhe sem julgar a mãe que está nascendo (que coisa né!).
Já são quase três meses nesse bate papo que começou com a organização do “Encontrinho Bom” e se estendeu para uma série de encontros e de ajuda mútua que dá gosto de ver e de fazer parte. Elas (nós) se juntam para ir ao cinema, para ir ao parque, organizam palestras sobre temas que são do interesse da maioria. Um dia veio a ideia de visitar as mães que ainda não estavam conseguindo sair de casa com seus bebês e, aos poucos, todas estão se visitando, conversando, saindo, se compreendendo, ouvindo os desabafos umas das outras, confessando-se, construindo em conjunto a identidade materna de cada uma. Sou grata todos os dias pelo convite para fazer parte desta iniciativa e parceria muito boa.
Encontro com “Nivia Bernardes” apelido
que ganhei e que me é muito caro!
Para poder escrever sobre essa experiência, fiz uma pequena entrevista com a dona da história,a  Dra Vânia, colo aqui nossa conversa:
1. Quando você teve a ideia de reunir as mães naquele encontrinho, o que exatamente você tinha em mente? Qual era o seu objetivo?
Tomei a iniciativa de criar o grupo quando percebi a solidão em cada mãe, sem ter alguém por perto com os mesmos desafios. O objetivo do encontro é olhar para o lado e ver que a dificuldade não é só sua, a insegurança não é só sua. é uma fase muito difícil que ninguém aborda na gravidez e as mães se deparam vivendo esse mar de emoções que é o puerpério.
2. Vc imaginou que a reunião destas mães chegaria onde chegou?
 Não imaginei, foi uma surpresa muito grande e fico imensamente feliz de ter sido a faísca que desencadeou essa rede e apoio e amizade entre elas. 

E o encontrinho bom continuou acontecendo e alguém teve a ideia de mudar o nome do grupo, já que o encontrinho já tinha ficado pra trás (e virou um encontrão). E conversas foram acontecendo, primeiro veio a homenagem à criadora do grupo, muda daqui e dali, alguém deu o nome pro grupo de “Pura Ocitocina”, homenagem ao hormônio do amor*, mas a criadora do grupo, que à essa altura já não era mais a Dra Vânia, e sim a “Pedimusa” (pediatra musa) e já tinha virado a Dra Tia Pedimusa (eu já tinha falado desse apelido mais que carinhoso no meu relato de parto), resolveu turbinar o nome para “Puta Ocitocina”, amplificando o amor que envolve esse grupo lindo e ainda criando uma linguagem cheia de graça. (Se alguém acaso não sabe, usamos o “puta” com a conotação de grande, enorme, muito).
Todos os dias quando acordo e vou lá no Whatsapp me atualizar sobre as novidades do grupo, acabo me lembrando de mim mesma, do meu primeiro puerpério, há seis anos e meio, quando me tornei mãe,  e da solidão que me acompanhou para além daqueles 40 dias. Vivi dois momentos muito importantes para que eu enfim compreendesse o que estava acontecendo comigo e pudesse sair daquele estado de extrema angústia. O primeiro foi na consulta com o pediatra que acompanha a Luiza, ela tinha dezesseis dias e eu já tinha me consultado com outra médica. Entrei na consulta e contei minha história, o tipo de parto, a infecção que tive e ainda estava em recuperação. Ele mediu, pesou, fez todos os testes, elogiou minha filha, ela era perfeita, sentou na sua cadeira, olhou nos meus olhos e, sem que eu dissesse nada a respeito da minha angústia, ele leu a minha alma, me acolheu e me deu a direção que eu tanto buscava sem sucesso, para me tornar a mãe daquela menininha linda que acabara de nascer. 
Depois, Luiza já estava com 25 dias, uma amiga me visitou. E de novo, sem que eu me queixasse da minha dor, ela me olhou e me disse assim: “vai passar! Eu também me sentia assim e até me culpava por não conseguir curtir os primeiros dias” (ela já era mãe de um menininho de 8 meses). 
Então, fazendo parte deste grupo, eu revivo nas histórias que leio o que eu própria vivi, essa relação boa de amor e acolhimento que nos coloca de volta à luz do dia. Quisera eu ter conhecido esse grupo lindo há seis anos atrás, quanta diferença teria feito na minha vida ter essa troca todo dia. Uma outra amiga já havia me dito que segundo filho é mais fácil porque você não tem que construir sua identidade materna, que ao amor você só acrescenta o novo filho, e é verdade, então não fiquei tão à flor da pele desta vez, foi bem mais tranquilo. 
E tem mãe de todo tipo neste grupo. A maioria é mãe de primeira viagem, mas tem também mãe de dois. E tem parto natural, parto normal, cesárea. Tem até parto pélvico (sim, isso existe!). Tem quem amamenta em livre demanda, quem precisa complementar e quem não conseguiu amamentar, apesar de muita, muita luta. Tem quem já voltou a trabalhar e quem vai dar um tempo do mercado de trabalho pra ficar mais tempo com a cria. Tem quem dorme mais, quem dorme menos. Tem muita ocitocina!  O que todas tem em comum? Um desejo enorme e uma luta diária para ser a melhor mãe pro seu filho. Fácil não é, todas concordam. Aos poucos e juntas, cada uma descobre a melhor forma de chegar lá, sem certo e errado, sem julgamentos, com muito amor!
Minha família com a Dra Vania
Não posso terminar esse post sem elogiar a dona da história. A Vânia, além de ser uma excelente médica, é antes um excelente ser humano. Ela faz parte do grupo no whatsapp. Ri e chora junto com as mamães, faz graça, orienta, compartilha coisas da sua vida. Se pudesse, ia em todas as visitas, palestras, encontros, sessões de cinema (não é mesmo Dra Tia Vânia? rs).  Eu trabalhei 10 anos na área da saúde e conheci muita gente boa nesse período, mas nunca alguém como ela. Especialista em empatia e respeito, o título de pediatra e neonatologista humanizada lhe cai muito bem, mas eu afirmo, é mais que isso. Na sala de parto eu já havia me surpreendido porque demorei para perceber que ela estava lá e ainda estou intrigada pra entender como foi que ela avaliou o Guilherme sem tirar ele do meu colo, sem interferir na minha hora de ouro (gratidão Vânia, muita gratidão). Toda a minha admiração para essa médica incrível!
Tomei a decisão de escrever sobre essa experiência porque acredito que boas práticas merecem ser espalhadas e incentivadas. Fico mesmo imaginando quanta mãe está, neste momento, precisando de um ombro amigo, de uma palavra de consolo, de mais alguém que entoe junto com ela o mantra de toda mãe: “vai passar”. 
E também porque eu acredito que o mundo pode ser melhor quando a gente sonha e constrói junto! Que mais mães por aí possam se juntar e caminhar juntas!
*Pesquisei uma definição para o hormônio do amor e gostei muito da explicação que está aqui.
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