No Caos, a paz! Relato de parto (do Guilherme)

Com meu mocinho nos braços

Quarta feira, 29 de julho de 2015, por volta de 19:30h. Na saída da Caza da Vila, depois da consulta, senti a primeira forte contração, que marcava o início da fase ativa do meu trabalho de parto. Já estava em pródomos desde a madrugada anterior.

Na entrada do estacionamento, outra. No carro, na volta pra casa, mais algumas. Um pensamento me invadiu: o que é paz? O que é preciso para a paz? Esse pensamento, na verdade, me acompanhou durante boa parte da gestação. Mudo a estação do rádio e de repente ouço a Maria Rita cantar “Minha Alma” (A Paz que eu não quero). 
“As vezes falo com a vida, às vezes ela quem diz
qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz”. 
Essa é a história dos últimos anos da minha vida. Mais precisamente, dos últimos 8 anos. 
A gente precisa entender as urgências do coração. Essa história começa, na verdade, há muito tempo, num desejo enorme de ser mãe. Um desejo ardente de preencher um vazio, uma falta de colo, de carinho, que só um filho parecia ser capaz de preencher.
Bem, o tempo mostrou que não era bem assim. Então fui tratar de buscar o que me faltava. E quando parecia não faltar mais nada, veio a filha. 
Luiza chegou no melhor momento da vida, eu só queria ser a mãe dela e nada mais. E também no pior. Ao mesmo tempo a vida me mandava me despedir do meu pai. 
Era um turbilhão de sentimentos, altos e baixos constantes, muita alegria e muita tristeza convivendo, muita dor e a consciência da finitude estampada na cara para quem quisesse ver. O que era pra ser um momento de só alegria, veio nessa confusão que é a dualidade vida/morte.
Mas, este não é o relato de parto do nascimento do Guilherme?
Sim. Mas ele tem início no nascimento da Luiza. Ela nasceu através de uma cesariana, num momento da minha vida em que eu estava fragilizada demais para brigar por qualquer coisa, as coisas são como são.
Quando ela já havia feito um ano, nós fomos ao aniversário de uma amiguinha que nasceu em casa. E na retrospectiva vi uma foto dela no peito da mãe, ao nascer, que me doeu na alma. Luiza nasceu e sequer me foi mostrada. Fui conhecê-la depois que já estava limpa e já havia passado pelos primeiros protocolos de sua curta vida fora do útero. Também não pude tocá-la, meus braços estavam amarrados. Aquela foto foi o primeiro alerta que piscou dentro de mim de que havia algo muito errado no nascimento dela.
No carro, voltando pra casa, as contrações enfim ritmaram. Cheguei em casa com muita fome e já ensandecida de dor. Eram 20h mais ou menos. Por volta de 21:30 seguimos para a Maternidade, no Hospital São Luiz.
Fui admitida e segui pra sala de pré parto. Não dei sorte de ter uma sala especial me esperando, tinha mais bebês querendo nascer de parto normal humanizado naquela noite.
No pré parto minhas dores parecem ter ficado piores. Estava acompanhada da minha doula, Celine de Kerchove, e do Adriano, meu marido, mas nada do que eles fizessem, diminuía meu desconforto e meu desespero.
24:05 fui anestesiada. E foi uma mistura de alívio e frustração. Olhei em volta e lá estava eu, naquele mesmo cenário de seis anos antes. Um lado meu sabia que meu trabalho de parto não evoluiria naquele desespero, a dor era absurda e me deixava atordoada, mas a dilatação seguia a passos muito, muito lentos. Outro lado pensou: “o que eu fiz?”
Minhas pernas adormeceram, não foi só a dor que foi embora, mas os movimentos também e eu ficava pensando como eu conseguiria colocar meu bebê pra fora sem a ajuda das minhas pernas. Olhei pra minha médica, Betina Bittar, e perguntei: “ele vai nascer aqui? (no centro cirúrgico)” Numa expressão solidária e de conformidade, de quem entende o que eu estava perguntando, ela me respondeu que sim.
Minhas contrações continuaram e a dilatação aumentou, mas a qualidade das contrações não era das melhores. Betina me explicou pacientemente o que isso significava e sugeriu entrar com um pouco de ocitocina. Eu disse que preferia não colocar por enquanto e ela disse: “então vamos esperar”.
E é aqui que essa história começa a ficar emocionante. Num passe de mágica, aquele centro cirúrgico branco e gelado se transformou no meu quarto, na minha casa. Eu me vi rodeada de mulheres incríveis a me amparar, minha história começava a ser mudada.
Diante da impossibilidade de fazer qualquer coisa, a Betina e a Celine trataram de descansar também. Encontraram um colchonete com lençol e colocaram no chão. Elas vinham de uma sequência doida de partos realizados nos últimos dias e, como dizem por aí, os bebês gostam de chegar na madrugada, era também uma sequência de noites não dormidas. E o Adriano também estava sem dormir porque nós dois já estávamos nesse processo desde a madrugada anterior. Assim, eles três passaram as próximas duas horas se revezando no colchonete, enquanto eu também dormia. Luz baixa, um aquecedor a óleo para aguentar o frio que fazia (só eu tinha cobertores), todos na espera. O mesmo lugar do meu primeiro parto, Luiza nasceu na mesma maternidade. Uma história escrita de maneira totalmente diferente.
Duas horas depois, mesmas contrações, Betina entrou com a ocitocina.
Abro um parênteses para explicar o que tudo isso significa. Tenho alergia a pontos. sei disso porque passei por três microcirurgias (cisto no rosto, retirada de pinta no pé e no braço) e todas infeccionaram, o que dificultou a cicatrização. Alertei minha obstetra na primeira gestação e, claro, minha cesárea infeccionou também. Por três semanas inteiras eu rezei a pedi a Deus que não me deixasse morrer, até que a infecção melhorou. Há bem pouco tempo meu pai havia passado por situação parecida. Fez uma grande cirurgia para a retirada de um câncer e contraiu uma infecção hospitalar. E tanto ele, quanto eu, passamos pela angústia de ter de tomar um antibiótico cada vez mais forte, sem sucesso. Tanto ele, quanto eu, sobrevivemos. Mas ele enfraqueceu muito e veio a falecer algum tempo depois, eu já estava grávida de 8 semanas, esperando a Luiza. A cura dele atribuímos a um milagre de Deus. A minha também. Mas eu estou aqui contando essa história. E o centro dela é um medo muito grande, um medo terrível de morrer. Por um bom tempo não pensei em ter outros filhos, eu costumava dizer que a Luiza havia preenchido minha maternidade. Só quando me vi completamente vazia de sentido é que consegui enxergar o medo que dominava: não queria morrer. Não queria deixar minha filha sem mim, não queria me privar de vê-la crescer. Sim, Deus está no comando, mas estas eram as fantasias que me assombraram por tanto tempo e que tive de enfrentar para parir o Guilherme. Por isso os partos se misturam.
Eu não queria tomar ocitocina, assim como não queria anestesia. Vivi um conflito intenso de não conseguir surfar nas ondas das contrações. De tudo o que li e busquei de informação antes de engravidar, uma coisa leva à outra e no fim pode virar uma cesárea. Ouvi diversas vezes durante a gestação o quanto eu era corajosa de tentar um parto normal. Não, eu não era corajosa, eu tinha era medo, muito medo.
Entramos com ocitocina. Eu confiava plenamente na Betina e estava segura de que seria feito o melhor. Nunca, em toda a minha vida, fui tratada com tanta empatia e tanto respeito, quanto naquela noite. Celine me contou que na hora da anestesia eu disse que não queria morrer. Não me lembro disso, creio que porque disse isso sem tomar consciência, era a voz mais sincera falando, a alma falando.
Em pouco tempo a coisa mudou e ela passou a me orientar a fazer força durante as contrações para ajudar o bebê a descer. Nas primeiras eu não sentia nada e era difícil fazer força, ela me avisava e eu fazia o melhor que conseguia. Aos poucos fui recuperando a minha sensibilidade. Voltei a sentir dor, mas esta era de outro tipo. era forte, mas conversava comigo e me colocava no controle. Aos poucos, fui sentindo o Guilherme descer e encaixar. Fui invadida por uma emoção muito grande de sentir meu bebê se movendo dentro de mim. Olhei pro Adriano ao meu lado e contei pra ele o que eu sentia, não continha as lágrimas.  E a cada dor eu ficava mais forte e poderosa. Foi assim por mais de duas horas. Em certo momento pedi pra mudar de posição, estava deitada e conectada com os sensores que monitoravam as contrações e o bebê. Trouxeram-me uma banqueta, mas Betina é que determinou a hora de sentar nela para que eu não perdesse a força das pernas nos momentos finais. E assim foi feito. Quando me sentei na banqueta, minha força foi outra. Nos momentos finais, ela me orientava a gritar. Os primeiros gritos foram tímidos e ela me orientava que não era esse o grito certo, que tinha de vir de dentro, que tinha que gritar com a vagina. E quando eu consegui entender e soltar o grito autêntico é que entendi que as mulheres que estão parindo não gritam porque dói, mas porque gritar faz dobrar a força. E eu gritei, alto, forte. E quanto mais gritava, mais perto de fazer nascer o Guilherme eu chegava. Era eu e ele na jogada. Elas colocaram um espelho para que eu o visse nascer. Foi difícil, parecia que não ia terminar nunca. Eu fazia muita força e nada dele sair. Estava ficando sem forças, até que ela me disse que ele tinha que nascer naquela hora. E eu, já com a perna bamba, gritei mais alto e mais forte, uma, duas, sei lá quantas vezes. E meu menininho nasceu. Ela amparou sua cabeça e me deu seu corpinho e eu o peguei e o trouxe pro meu peito. Meu bebê nasceu e veio direto pros meus braços e eu me senti plena como nunca havia me sentido antes na vida! Eu o amparei e ele me amparou. Eu tinha conseguido! Estava viva! Viva como nunca antes!

E ele ficou nos meus braços por muito tempo. Ainda sentada na banqueta, ouvi alguém dando os parabéns pra ele, que teve APGAR 10 e 10. Só aí eu tomei consciência de que, além do Adriano, da Betina e da Celine, a Dra Vânia, pediatra neonatologista, também estava lá.  Elas me ajudaram a voltar pra maca e ficamos esperando a placenta nascer. Senti o cordão pulsar em minhas mãos. Eu ficava olhando pra ele e repetindo “como ele é lindo, como ele é lindo!”. Aquela pele macia e quentinha tocando a minha, eu tinha meu bebê nos braços! E ali, naquele mesmo hospital frio e distante, eu reescrevia minha história!

Sentido horário: Guilherme, Adriano, Celine, Betina, Vânia e eu.
Durante toda a gestação eu nutri um desejo secreto de parir em casa, mas era uma decisão que eu queria tomar só quando chegasse a hora. No entanto a vida tratou de decidir por mim. Passamos o terceiro trimestre da gestação enrolados com um problema que caiu na nossa vida e que precisou ser administrado, culminando com uma mudança de casa 6 dias antes do parto. Como eu nunca havia tido um parto normal, acreditei que ultrapassaria as 40 semanas e o Guilherme só nasceria em agosto. Mas a hora dele chegou e nada em nossa casa estava arrumado para recebê-lo, nada mesmo! Passei esses três meses repetindo que precisava de paz para parir e só no caminho da Caza da Vila para a minha casa é que compreendi que a paz que eu precisava esteve o tempo todo dentro de mim. 
Entrar de novo num hospital para ter filho era um dos meus grandes conflitos. Entrar no mesmo hospital em que vivi momentos de angústia do primeiro parto tornava tudo mais difícil, mas Deus me deu a chance de enfrentar todos os meus monstros e vencê-los! O êxtase que tomou conta de mim era coisa doida de sentir, seguiu comigo por muitos, muitos dias: eu consegui!
Preciso agradecer algumas pessoas que tem uma participação mais que especial nesta história: 
– Nossa amiga Marta, que me permitiu ver sua foto com sua filhinha Iara, e sem querer colocou a “pulga atrás da minha orelha” (ela nem sabe disso).

– Minha amiga Eliara, que compartilhou sua história comigo, me dando muita força. Também foi ela que me indicou sua médica, a Betina. Graças a sua história eu segui em frente atrás da minha!

– As minhas queridíssimas Betina, minha obstetra, e Celine, minha doula, que me carregaram nos braços e ampararam todos os meus medos neste momento tão especial. Graças ao amor com que me cuidaram, eu consegui. Se existe sinônimo de amor e empatia, com certeza se chama Betina e Celine!

– A minha querida Vania, Pediatra e Neonatologista, mais conhecida como Dra Tia Pedimusa (depois vou contar essa história também), que esteve lá nos dando segurança e cuidando para que ninguém levasse o Guilherme de mim.

– E meu marido, meu companheiro nesta vida, o Adriano, que caminhou ao meu lado o tempo todo, comprou comigo a ideia de um parto humanizado e buscou junto de mim todos os recursos para que acontecesse da melhor forma possível. Que não mediu esforços para me garantir o melhor e que me ajudou e me muniu de muita força quando chegou a hora! A ele, minha gratidão eterna! Nem sabia que era possível te amar e te admirar ainda mais!
A todos vocês: obrigada! Obrigada! Obrigada!
E a Deus, que me guiou o tempo todo, obrigada meu Pai!

Num próximo post quero compartilhar os detalhes de ter uma equipe humanizada no meu parto, minha relação com o hospital, os pormenores da dor do parto e a experiência de ter vivido os dois tipos de parto, aguardem!

Se quiserem saber mais sobre essa equipe maravilhosa, elas se encontram na Caza da Vila.

Aqui segue o perfil das minhas queridas, profissionais incríveis, a quem recomendo:

Betina Bittar, Ginecologista e Obstetra, à serviço do Parto Humanizado.
Celine de Kerchove, Doula e Educadora Perinatal.
Vânia Gato Medeiros, Pediatra e Neonatologista, Atendimento Humanizado ao Recém-nascido (e fotógrafa rs)

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