Colcha de Retalhos

Eu não ia escrever sobre isso, mas tive que me esconder na lavanderia quando li o repost da @samegui me desejando boa sorte e dizendo que quase chorou ao ler o relato que postei no Instagran sobre nossa mudança. Creio que todo mundo também tem sentimentos dúbios quando faz escolhas ou quando precisa seguir em frente, seja por que razão for. 
Mudamos de casa recentemente. E como toda boa mudança é também uma boa oportunidade para rever tudo o que se acumulou ao longo dos anos, grande parte de nossas coisas não se mudaram com a gente. Ficaram lá, no antigo apartamento, à espera de seus novos donos, assim como o próprio apartamento também segue à espera de novos moradores. Mas, desde a segunda feira da semana passada, estou num ir e vir para, enfim, entregar tudo o que ainda restava por lá. E hoje saiu o último lote. 
Ao ver aquele espaço totalmente vazio, aquela sala enorme, senti um aperto. Passou um filminho na minha cabeça de tudo o que vivi, vivemos por lá. A lembrança da pequena Luiza, hoje já mais crescida, correndo de um lado para outro, feliz, repetindo “a caja nova é legal, tem ipaço pá coêêêê, puláááá, brincáááá” por dias e dias, foi de ‘matar’. Saí de lá com um engasgo na garganta, no melhor estilo ‘pegue sua dor e vai cuidar da vida’. E assim fiz (até ler o repost da Sam, que aí, não teve jeito, precisei parar um pouco pra chorar).
Engraçado como as necessidades mudam, conforme o tempo passa. Tenho pra mim que cada um de nós é uma grande colcha de retalhos sendo tecida. Cada momento, cada alegria ou frustração, cada encontro ou cada despedida, cada grande acontecimento ou qualquer bobagem, são pequenos pedacinhos dos quais vamos sendo formados. Seres inacabados, sempre se pode costurar mais um pedaço. 
Não tem jeito, sou dessas pessoas que se apegam com facilidade, aos lugares, às coisas, às pessoas, principalmente às pessoas. E gosto de celebrar, preciso, acho importante, tanto a alegria, quanto o luto. Sentir o sentimento até que ele se esgote, algo como um ‘viver intensamente’. 
Não pude deixar de me lembrar de dois momentos em que meu desejo era de que o mundo parasse de girar por uns instantes, para que eu pudesse chorar: a morte do meu pai e o nascimento da Luiza. Dois pedaços do mesmo caminho, dois lados da mesma moeda, dois pólos do mesmo ciclo, como quiserem. 
Meu pai morreu quando eu estava grávida de 8 semanas. Ainda não sabia que era uma menina, mas guardo pra sempre o rosto dele se iluminando quando contei da chegada do neto. E aí foi uma coisa doida ter que lidar com dois sentimentos tão opostos. E pior, seguir vivendo, dando conta de todos os compromissos, de tudo o que a vida nos exige. Aí ela nasceu. E meu mundo de fato parou para ouvir ela chorar. A mais bela de todas as melodias. E junto com ela, nasceu também a certeza de que a vida continua sim, graças a Deus, apesar de todos os pesares (ainda bem). E que certos momentos pedem, e precisam, que as urgências do dia esperem um pouco. 
Fiquei com um verso da música “O Caderno”, do Toquinho, se repetindo aqui dentro desde cedo: “a vida segue sempre em frente, o que se há de fazer”. Essa é uma daquelas músicas que nos acompanham vida afora. Ela conta a história de um caderno conversando com uma menininha (ele conta a ela como será sua vida e se oferece para ser seu companheiro nesta jornada). Conheci esta música eu ainda era uma menininha. Ouvia incansavelmente o disco “A Luz do Solo”, gravado em 1985, ao vivo. E nele, o Toquinho é quem conta essa história. Olho para traz e reconheço a jornada. Não tenho o caderno, mas a menina está aqui.
Estamos felizes com a mudança, mesmo que eu sinta saudade do que ficou para trás, faz parte. Olhando agora pra foto da sala vazia, posso imaginar quanta possibilidade há num vazio qualquer. Quanto se pode desejar, criar, viver. E assim será, mas sempre com o cuidado de nunca esquecer minhas lembranças “num canto qualquer”.
Deixo aqui o link do disco no youtube para quem quiser conhecer. A história da música, e a própria, começa a ser contada mais ou menos no minuto 34:40. Vale a pena ouvir.
E pra encerrar essa conversa, deixo aqui o meu convite a quem ler, para que deem espaço a cada sentimento, seja ele de que natureza for, e busquem viver intensamente. E deixo a pergunta, para que reflitam: afinal, o que se leva desta vida? Quem sabe…
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